Poemas neste tema
Tempo e Passagem
António Ramos Rosa
Campo do Silêncio
Enfim o laço do começo e a conjuntura
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
1 076
António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 038
António Ramos Rosa
A Mais Simples Palavra
a Maria João Fernandes
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
1 146
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
994
António Ramos Rosa
Desmancha-Se o Cavalo? Jamais.
Desmancha-se o cavalo? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
1 097
António Ramos Rosa
As Palavras Têm Rosto: Ou de Silêncio Ou de Sangue.
As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.
O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante.
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.
Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha
na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.
O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante.
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.
Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha
na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
1 129
António Ramos Rosa
Creio Em Teu Silêncio, Na Tua Pele de Luz,
Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
1 079
António Ramos Rosa
Não Dura Aqui a Imagem, Não Dura Aqui o Som.
Não dura aqui a imagem, não dura aqui o som.
Aqui onde se insere a palavra mais forte.
O cavalo na lentidão caminha sobriamente.
Nada se inscreve na árvore nem o perdão subsiste?
Não dura aqui o som da mão ou a inscrição
da palavra mais forte no tronco dessa árvore
mas o cavalo caminha na tarde sobriamente
como inscrito perfeito num universo próprio.
Há outros animais, outras vozes, o mundo,
mas há este sossego neste lado do muro,
a visão de um instante, a inscrição metálica.
E tudo se prolonga na gestação da tarde.
O cavalo é o sossego próprio da sua força,
amadurecida imagem que dura e onde estou.
Aqui onde se insere a palavra mais forte.
O cavalo na lentidão caminha sobriamente.
Nada se inscreve na árvore nem o perdão subsiste?
Não dura aqui o som da mão ou a inscrição
da palavra mais forte no tronco dessa árvore
mas o cavalo caminha na tarde sobriamente
como inscrito perfeito num universo próprio.
Há outros animais, outras vozes, o mundo,
mas há este sossego neste lado do muro,
a visão de um instante, a inscrição metálica.
E tudo se prolonga na gestação da tarde.
O cavalo é o sossego próprio da sua força,
amadurecida imagem que dura e onde estou.
994
António Ramos Rosa
No Trabalho da Folha
É por um outro incompreensível
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
585
António Ramos Rosa
Lâmpada Oscilante
O que eu diria, caminho pobre,
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
1 125
António Ramos Rosa
Imagem Ou Astro
A imagem ou astro perseguido,
na sombra renascido, sob as mesas,
presença oval que luz a um olhar isento
mais além ou à mão ou nada que nos foge
ou tudo em que soçobra toda a espera
ou terra ou só contra o muro a sombra
esta inércia transparente sobre os ombros.
*
Não percorrer esta toalha obscura
nem saber qual rosto nela assoma
nem ver no espelho renascer a sombra.
Mas frente ao assalto sob a onda
mais do que compreender, a sombra ser,
subir, descer, no intervalo que fica,
opacamente respirar, não ver.
*
Um momento, o tronco mutilado
afirma a presença do incompleto.
À volta a clareira em que o repouso
é ver o mar quebrado. E mais que o tempo
se estendem em nós imaginários membros
transparentes.
na sombra renascido, sob as mesas,
presença oval que luz a um olhar isento
mais além ou à mão ou nada que nos foge
ou tudo em que soçobra toda a espera
ou terra ou só contra o muro a sombra
esta inércia transparente sobre os ombros.
*
Não percorrer esta toalha obscura
nem saber qual rosto nela assoma
nem ver no espelho renascer a sombra.
Mas frente ao assalto sob a onda
mais do que compreender, a sombra ser,
subir, descer, no intervalo que fica,
opacamente respirar, não ver.
*
Um momento, o tronco mutilado
afirma a presença do incompleto.
À volta a clareira em que o repouso
é ver o mar quebrado. E mais que o tempo
se estendem em nós imaginários membros
transparentes.
643
António Ramos Rosa
À Luz Crua
Sob as palavras
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
574
António Ramos Rosa
Ocupação do Espaço
Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
725
António Ramos Rosa
Passagem
É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo agora este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
Sou eu que escrevo agora este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
662
António Ramos Rosa
Traços
Eu não vos sei dizer
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
569
António Ramos Rosa
Agora estou entre Sombras e Sombras
Agora estou entre sombras e sombras
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
1 107
António Ramos Rosa
E Certas Palavras
a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
1 028
António Ramos Rosa
Um Óleo de Manuel Baptista
Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
1 060
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
661
António Ramos Rosa
A Última Oportunidade É Sempre
A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
992
António Ramos Rosa
Por Uma Aridez Fecunda
É o tempo de uma árvore ou de um cão,
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
1 065
António Ramos Rosa
Eis Os Instrumentos
Eis os instrumentos
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
958
Knut Hamsun
Em cem anos, tudo estará esquecido
Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
555
Natasha Tinet
Quando eu era você
Me sigo pela casa com cuidado
não quero me assustar porque sou outra
agora,
enquanto você dança envolta em poeira solar
eu me escondo à sombra dos meus dedos tortos
uma aranha sobe a parede
mnemosyne, ela se chama
tem sujeira sob as patas e é lenta
como os passos de um inimigo perverso
ninguém se perde numa floresta sem motivo
ninguém guarda no livro uma flor
sem o desejo do eterno
me leve para outra dimensão
onde não exista o tempo
somente o cheiro das noites agrestes, do musgo
do sabão nos lençóis ainda úmidos
todo o seu pequeno mundo murmurando
uma sinfonia de árvores e solidões
segredos que crescem no interior de uma fruta
suculenta de futuro, eles não te ouvem
porque têm pressa e você nada fala
um elo foi quebrado e o que resta
é o significado da palavra hereditário
eu te persigo porque respiro conflitos e culpas
ainda encontros escorpiões no jardim e paraliso
enquanto constelações explodem meus pensamentos
me desculpe, há coisas que não entendo
quando eu era você como era o silêncio?
não quero me assustar porque sou outra
agora,
enquanto você dança envolta em poeira solar
eu me escondo à sombra dos meus dedos tortos
uma aranha sobe a parede
mnemosyne, ela se chama
tem sujeira sob as patas e é lenta
como os passos de um inimigo perverso
ninguém se perde numa floresta sem motivo
ninguém guarda no livro uma flor
sem o desejo do eterno
me leve para outra dimensão
onde não exista o tempo
somente o cheiro das noites agrestes, do musgo
do sabão nos lençóis ainda úmidos
todo o seu pequeno mundo murmurando
uma sinfonia de árvores e solidões
segredos que crescem no interior de uma fruta
suculenta de futuro, eles não te ouvem
porque têm pressa e você nada fala
um elo foi quebrado e o que resta
é o significado da palavra hereditário
eu te persigo porque respiro conflitos e culpas
ainda encontros escorpiões no jardim e paraliso
enquanto constelações explodem meus pensamentos
me desculpe, há coisas que não entendo
quando eu era você como era o silêncio?
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