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Poemas neste tema

Viagens e Horizontes

Rodrigues de Abreu

Rodrigues de Abreu

Mar Desconhecido

A Batista Pereira

Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!

Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.

Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...

Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.

Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.

Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.

1 156
Manuel de Araújo Porto Alegre

Manuel de Araújo Porto Alegre

Colombo

Canto XXVI
O Descobrimento da América

Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!

Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!

1 780
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Cantor de cântaros

Cantor de cântaros
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.

De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.

E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:

Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.

E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.

Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.

1 401
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pois faço aos tempos surdos

Pois faço aos tempos surdos a doação deste ouvido
e venho doar ao tempo mudo esta língua
aprendi as álgebras do espaço
e calculei às vezes aurora e noite e sou
sabedor de sua hipotenusa e mestre
de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar
no doce teorema de seu caule
a parábola da rosa e sua paralaxe
pois proponho a rosa aos circunstantes desde
seu logaritmo — colho
teu nome em minha boca
e em minha mão floresces
com teu monte de pétalas
com teu seio redondo —
não seria ali
o sítio do desejo, Capitão Gofredo?
e venho e volto e um deus
veste na própria pele o corpo livre e gera
da incessante vida a saciada morte
e da morte incessante esta sede da vida.

Não estão mortos os deuses, Efraim,
sob a defunta máscara seus olhos
cravejados de esmeraldas
coruscam sobre nós
e a rosa de seus lábios
despetala ao fervor de seu sangue botânico
a suplicante saudação:
tu dichorisandra albo-lineata
tu campelia zanonia
tu gladiolus ceruleus
venustus labiatus
desde o musgo do chão ao firmamento firmas
no lírio vertical o fluxo de teu rosto:
também eu — ego poeta
arranco e piso aos pés minha máscara de morto
e sustento o fulgor de tua
pupila incandescente.

Não, Antônio José,
não morreram os deuses e na pata
do cavalo de Alexandre Mourão
na palmeira de dona Úrsula
em teus olhos moribundos, Capitão,
num punhal no relógio da sala
no patacão de prata no retrato da parede na relva
de tuas coxas sagradas
o rastro de Apolo:
ego poeta, ego cartographus
faço o mapa, Gonçalo, desse rastro
entre o cróton e o crótalus terrificus
pois de terra terrífica é o chão onde um dia
deixaste florescer a planta de teu pé:
e as distâncias do mundo
permanecem regidas
à balística de seu passo — não morreram, amor.

E deles os que um dia visitaram a morte
desceram aos infernos
e subiram aos céus no terceiro dia — e um dia, Augustin,
rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade
e mandaram descer suas línguas de fogo
sobre a cabeça do poeta
e saí pelo boulevard bêbado de glória
e os Partas e os Medas e os Elamitas
e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia
a Frígia a Panfília e as partes da Líbia
perto de Cirene — e os forasteiros
romanos e judeus e seus prosélitos
e os cretenses e os árabes
e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos
e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam
recolhiam maravilhados
sílaba por sílaba meu canto — pois conheço
o poliedro da palavra — ego poeta
e no sonho dos adolescentes e dos moribundos
fiz minha morada no país de Pentecostes
e abriram-se as fontes das águas em minha língua
e todos entendiam a fala das fontes das águas.

Por isso
Pallas invoco — Palas Athenaia
e Afrodite clamo — Afrodite
e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto
e Afrodite clamo — Afrodite — e ao seu nome
estremecem frementes
a pele e o corpo dos machos e das fêmeas:
da concha de seus lábios com seus olhos verdes
ergue-se Afrodite
os mesmos ombros de cabelos molhados
pelo mar da Jônia na concha de Poseidon
calipígia a oeste
e a leste — de pentelhos frondosos
mas ninguém lhe acaricia os pêlos
pois transfigurada
ela nos conta
sob a luz das estrelas
sua própria ficção
e não é mais
que a ficção de si mesma
e de sua metáfora a metáfora
a presença real
— e só a morte
dos deuses é irreal:

e da raiz do coração a língua erecta
ousa chegar ao êxtase:
Afrodite! Afrodite!
da transfiguração
de teu nome real
teu rosto original parece
irreal.
Um dia percorríamos a aurora de Montréal
saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do
bairro inglês
e alí
cantava o galo no quintal de Teresa e urrava
o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio
ao quebrar das barras
na madrugada hermafrodita:
as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as
leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam
— "por quem, poeta, teu amor, por quem?"
Amante sou é de meu próprio rosto — amoroso estou
do lago de tuas pupilas de onde
meu amor é pela gema de meu dedos no pelo
de tuas virilhas — e apaixonado
estou por minha mão que ronda as tuas coxas
pela língua
que diz teu nome — línguabela abelha
no mel de tuas pétalas em tua
rosa negra — e ali
em seu ninho de estrelas mergulhava
o pássaro — e por ele, amor,
o poeta,
e seu amor.

E não morreram — pois
era uma vez uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Laura — e outra vez
bebíamos o Ballantines twelve years
na fronteira do Maranhão
barrancas do Parnaíba:
sob a celeste água-marinha
da noite piauiense
as doces loucas de Terezina
penduravam sob as mangueiras
no sanatório de Clidenor
entre as douradas mangas-lira os redondos olhos — e a lua
arredondava o seio das putas quotidianas sob
os coqueiros de Ana Paula — e era uma vez uma noite —
e era uma vez
uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Isidora — Dora —
de Gilbués chegada — e quem se esquecerá
de Mariana — os mesmos olhos
augurais inaugurais
de Sanharó chegada
aos bordéis do Recife:
do trampolim de seu rosto
o peregrino pé ao desferir o salto
cunhara o rastro — e, pois,
por esses rostos e lugares vivo em romaria
Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel
Victor de Barros Galvão governador das armas
até Olho dÁgua Grande onde Domingos
o Coronel Domingos Mourão Filho
governador dos povos assentava
o rústico condado e cultivava
a rosa do perigo:
pois visconde conde comes senhor e servo
soldado de aventura sou, Apolo,
pelo sangue das veias
de todo chão de todo rosto
onde quer que esse rastro e tua mão
vela sobre nossos capitães
pois flor-de-lis pois rosa
de puro artelho rosa e flor-de-lis
onde marquês marquei minha fronteira pelo
som de uma flauta pela
corda de sua lira — e por ela
joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo
de faixa verde em campo de ouro
um castelo em abismo e abismado
entre as coxas das nove castelãs — ali
farejo o faro de teu falus e sou
de tua corte o derradeiro conde
Gerardus derelictus — criatura
de Apolo e de Melpômene
ego poeta
conde do abismo.

Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponez e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro de meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e o meu próprio massacre:

Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço
e o coração de chumbo — e invento
a mágica do ouro e vou
fazendo rosas braceletes pétalas
e outros objetos de ouro
até chegar à lira:
pois criei a minha mão e fiz
eu mesmo a minha própria lira
suas cordas fiei
e modelei os dedos com que as pulso
do pulso às unhas.

peregrino pelas calçadas do bairro
e os rapazes e as raparigas me apontam:
Gerardo
de
lira.
1 154
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

E risco e arrisco as fronteiras

E risco e arrisco as fronteiras
East Side
West Side
por Lexington com seus caimãs e javalis
e entre as pombas trigueiras do país do sul
arrulha a noite do Harlem
e um saxofone de vestido verde
rebola as ancas saudosas
de Trinidad-Tobago
Calipso
and Calíope
e requebrando à morte — Dallas, Texas
sobre o seio de Helena
flutua ensangüentada a rosa de Aquileu:
— Alagoas!
Alagoas!
pelos Alleghanys pelos Apalaches
a caminho de ti me sepultei
no sepulcro das neves e das cataratas
pelos parques de Buffalo onde Marcuse a Tânatos
do tonel de Diógenes erguia
a cabeça elegíaca de onde
do meio de sua queda a catarata de meu pranto a Eros
voltava e remontava o penhasco
clamando entre os ciprestes
a viuvez das Musas.

E vêm chegando e vou me despedindo
em Nova York houve um cantor — good night
good night, sweet Prince, mad Prince:
Dylan Thomas morto e bêbado
suplica em minha cama os inocentes pés
para o rastro
de seu silêncio e sua lágrima:
em Nova York, Ezra, houve um cantor —
adeus, príncipe bêbado,
houve um cantor
e houve uma fêmea
e à espuma do Gênesis
descobriu entre as coxas surpresas
a ressurreição da rosa
alegrada ao tato
à mão à seta à flauta de ouro
— "good morning, darling" —
e vou ressuscitando rosas mortas
e vou me despedindo
e a noite às vezes tem a redondez de um seio
pois chegavam de Aruba e da Jamaica e ali
o travesti francês arrisca as açucenas
seu passo galgo esgalga a tarde
e vou me despedindo
e as clarinetes memoráveis
orvalham a memória — e vou me despedindo — e rosto
e mão vou modelando:
sou o senhor e o sabedor dos gestos
criei meu próprio rosto
e minha própria voz
e por isso me olham e me escutam
e gerânio o cavalo a rapariga
e quebra Apolo a flecha à porta da cabana

Boa noite, Melpômene, Calíope
boa noite
Eleuth
eros
eria.

930
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Alexandre cavalga

Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.

Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.

Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade

"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.

O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.

— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.

Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim

antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.

Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele

E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:

Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:

na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.

"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"

E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.

Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.

Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,

Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele

nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"

e a semente do a
1 280
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pange língua gloriosi

Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.

Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor

Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias

As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo

E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno

no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"

escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome

In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde

no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope

a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até

1 227
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:

Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.

Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:

pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea

Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas

pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.

1 099
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Raul Young, capitão de longo curso, Godo,

Raul Young, capitão de longo curso, Godo,
vai marinhando um barco de cedro por Buenos Aires
ao vento fluvial — e alí
inaugurei o Paraná e o pampa
e os adolescentes se repetiram
no Richmond de Florida onde um dia
o espaço suplicou a forma de teu corpo:
Joana
Joana de Aragão
— te chamamos —
e acenaste um sorriso entre os cristais
e ali ainda agora
estão os teus cabelos governando o vento
pois para sempre
estarás onde estiveste: — viaja
a estrela imóvel
todos os céus
do capitão de longo curso

Trinta anos chorava o poeta a mesma lágrima
no bar do Richmond de Florida:
muitas vezes te encontrei e uma vez
te alongavas entre as mesas do bar
e crescias e recolhias
o bandoneon de teu corpo:
sobre esta mesa embaralho
os naipes do tempo e preciso
de muitos tempos no espaço desta mesa — de muitos
espaços antigos e futuros
para tuas chegadas e partidas

outra vez tua beleza
era uma lança fulgurante
de Belgrano a Corrientes:
janta Leopoldo Marechal com Juan Domingo entre choférs
no restaurante de La Boca:
por la cabeza de los dirigentes
ou
con la cabeza de los dirigentes
salta Güemes
de su tierra salteña
los gauchos degolladores
— e te lembras? —
Carbajal
servia numa terrina de prata
a cabeça sangrenta do capitão
e as taças
espumavam à saúde
vinho ou sangue
pois tênsil é o dia
e trazes o arco tenso e a lira
de cordas tensas e buscar-te
é desferir a flecha e desferir o som
por teus signos teus rastros caminhamos
caçadores da vida caçadores da morte caçadores do amor
e assim se caça a liberdade e assim recolho
em batalhas de amor campos de plumas, dom Luís,
a rosa por botim —
e ou vinho ou sangue
à saúde, Apolo.

926
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Da balança das águas venho de joelhos

Da balança das águas venho de joelhos
— aeroporto de Caracas —
ego sacerdos — vou me preparando para os ritos:
boa noite, Bolivar,
boa noite, Simón, — Simón Rodriguez
brincando de roda entre as crianças
e duty free e Hilton e Tropical Hotel — e vou
me preparando para
a tática dos ritos o luxo das rubricas litúrgicas
pois à volta das águas
dançam em roda as ruas degoladas e algumas pessoas
constroem o incidente da viagem — indo ou vindo
ou não seguindo mais — e a cabeça
de Balboa busca debalde
talvez os Hiperbóreos — decerto
uma terra e um mar e a terra
e o mar já não são mais entre o canal e a selva
do que o gosto do sal em sua língua
ao sol do Panamá:
resta o gosto do sal na boca
de Balboa e Malpartida e os outros
e vós sois pescadores de peixe e terras e homens
o sal da terra
quodsi sal evanuerit in quo salietur?

Por isso o olfato o paladar os olhos
e um aroma e um sabor e um rastro:
e é dado o signo
e habitamos o semáforo — por isso agora
boa noite, Guatemala — e ali
poderiam pescar-me o coração no rio
de teus cabelos, Antonieta Ovalle, o coração
neste bosque
neste bosque moram terras
mora a terra que roubou meu coração
e repito as pessoas e os lugares que encontro
e aprendi uns seios verdes em Honduras
e ao sol de Dirianbo amadureciam sobre a Nicarágua
as ancas magníficas — pois falo da viagem,
suas pousadas, o itinerário
pedestre
eqüestre
sigo os sinais do trânsito — passeio
passeia Pilar Morelos seu passeio de poldra
pela Avenida Juarez
e alí emprenharei a neta
de Hernán Cortez e a bisneta
de Cuauhtémoc em um leito de rosas
e sou — ego poeta
o guia do turismo o trotador do mundo
no avião da Braniff onde Doris
e no aeroporto de San Antonio — Texas
e em Dallas, Texas, os soldados
negros e ruivos
vão me encontrar erecto e brônzeo —
pois preparo a estratégia da morte
as manobras da vida
o estratagema da beleza
os ritos de Stepterion

— "Na bagagem? "
um coração embrulhado
numa carta de amor
e dois braços de abraçar
e dois lábios de beijar
e Abdias entoado
à canela e ao cravo
e às margaridas de Iemanjá do Nascimento.

E agora
a serpente no ninho de meus olhos
já sou eu mesmo a minha própria bússola
meu próprio ardil
e de tua rosa
brota o vento por onde
chega o chegador à laranja de ouro — chega
ao bote da serpente à seta desferida
chega ao bosque ao mármore
à mão da tecelã e ao fio e à flauta
e ao silêncio e ao canto
e ao beija-flor e ao assobio
e à salamandra e à estrela e ao encontro
da flecha e da serpente e à luz
à luz
Eleu
Eleu
Eleu
theria

Apó
Apol
Apolon
Fototrephos Fotophagos Fotopaidos Febo Apolo
puxam-te o carro de fogo
os capricórnios de fogo
e venho nele ao teu banquete
onde as nove meninas
em conchas de labaredas
servem lagostas de fogo
e verdes folhas de flamas
ego poeta — o diábolos sonoro
conservado em chamas — sou
minha própria fronteira
e tu, amor

a norte a sul
tu nascente e poente
nas lindes crepitantes:
e diz o portulano e ladro sua escrita
pois cartógrafo sou desde o país do Ceará e Mel Redondo
limita-se Ipueiras ao norte pelas
cabras monteses e os montes da Aquitânia
Delfos ao sul por Villaguay e Buenos Aires
e a leste e oeste a serra dos Mourões serranos o Amazonas
o oráculo a nordeste e segue
a linha da Mantiqueira por
Congonhas do Campo e Conceição,
Conceição, José, do Mato Dentro — a sudoeste
as coxas de Afrodite e o mar da Jônia
e os limites por baixo são o chão de Eleusis
e os limites por cima o Pentestrelo
do Cruzeiro do Sul e os Hiperbóreos
e noutras pétalas da rosa-dos-ventos
o mar de La Serena o mar
das Alagoas o mar
da Jônia as ondas
dos cabelos de Artemis
e o ananás e a romã e o buriti a noroeste:
pois a sopro de flauta fui riscando as divisas
num mapa de safiras e limões
e cravos macerados ao sereno
da madrugada de um canto

e viajar viajando
o lombo de teus chãos e tuas águas
é meu destino
chegar chegando:

nome —
profissão —
destino —

o destino —
da cifra de meu código e meus semáforos
oriundo.

1 111
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Na noite de Connecticut

Na noite de Connecticut
lambe a língua nos lábios a memória
de tua boca:
não profeta não sou, Amós, nem fiho de profeta
mas pastor e cultivador de canas e sicômoros — e Apolo
me tirou de detrás dos rebanhos
e comecei a andar cantando

os anjos saberão dos pés desse andarilho pelas
cidades sonolentas — e uma vez o Danúbio
anoiteceu teus olhos em Belgrado
e uma vez o Pacífico
madrugou-te a pupila no país cerúleo
de Viña del Mar — e outra vez
à pálpebra do crepúsculo
fulguraste e fugiste
no jardim de Manágua — e na matilha
das cadelas douradas tuas ancas
surgiam e sumiam
ao caçador da primavera essa tarde em Veneza —
e em Paris
eras a aurora persa a lima verde
entre os pendões de cana entre a baunilha em flor
do boulevard de salsas e alecrins
por Saint Michel e São Miguel dos Campos
talvez fronteira dos Hyperbóreos — pois
senhor dos coitos menciono sempre
os portos, as estações, a rota dos Hyperbóreos.

Elas Hellas — Hélas!
a adolescência prístina
imortal no coração da morte:
quando a máscara murcha
a flor do rosto atende à primavera
na esmeralda vegetal dos olhos
et jai vu quelquefois, Jean Arthur,
às vezes possuí, Francisco
o que o macho pensou possuir e perder:
pois por elas
Hellas
adelgaçada avena sou
soprado e sopram
nas jeiras desse tálamo a semente
e do leite
e do mel
do vinho mosto:

E nascem doces musas ébrias
Hesper —
— ma — ia
— ieu
ti
ka
Eleu
theria

Peregrina de ti mesma por ti mesma
te peregrinas
e o país viaja na planta de teu pé:
flor desta planta
pa —
ís
por —
tátil
ao tato a —
corda
dessa viola tua
nua
sobre os calcanhares
uma
noite em Copenhagen um
dia em Belo
Horizonte aquela
tarde em Maceió
e alguma vez a rosa oblíqua
— de que Kamakuras
talvez te disfarçaras
celestial cereja
às amêndoas e ao lótus:

a quem te viu
sabes voltar — pois
de onde não vir
ias?
caíram uma vez dos laranjais as luas
sobre teus olhos
negra e formosa ao sul do Senegal
por onde Arme Aribô e sobre
os lençóis brancos a beleza noturna de seu corpo — e entre
as virilhas ondul
ando
andam e ando as finas ser
pentes em pé — filtro
venenoso entre os pentelhos
o convite
a essa maçã de amor
e morre à concha ébria e ali
o amor é morte e a morte
o estratagema da ressurreição:

aparecida um dia e para sempre
me habitas a pupila
ouvi teu nome e desde então serias
moradora de meus ouvidos
e por isso — ocupado contigo
muitas outras coisas não sei:
mas aprendi a Musa
e ensino a Musa — e ela
no país de Apolo onde
sou corógrafo e recito
aos meninos a geografia de sua botânica
sua fauna de pássaros e os peixes
de seus golfos e seus pótamos

a orografla de seus Himetos e o monte
melodioso onde Melpômene e as outras
consultam a estrela e os ventos boreais
para compor a sílaba
Me
lo
Me
los
melo
dias
e noites
cantam amarradas ao mourão de minha herdade
as nove novilhas em flor ao touro adúltero

e um casto Dionísios cada noite
sabe o sabor do lírio em que se filtra
a doce castidade em cada corpo:

boa noite, Melpômene Mourão
e em teus veludos
adormeça fiel a sábia flecha

boa noite
Eleu
theria

967
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Jà vou atravessando a província formosa e a Musa

Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo

entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade

Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:

e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino

as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —

Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros

enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu

na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor

Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.

1 007
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Um dia as orquídeas se abriram sobre

Um dia as orquídeas se abriram sobre
olhos oblíquos de Magdalena
antes da âncora da dor numa angra verde
e antes
de partir-se teu rosto da romã
antes, vadio com seu cão e sua flauta
pelos montes o poeta
vadiava e farejava as garrafas de whisky,
a virilha das francesas e eram
baralhos de bacará e roletas de ouro
— a bolinha de marfim
cai no sete
cai no zero
cai no preto
no vermelho
a bolinha de marfim
cai não cai
onde é que cai?

Valencius Wurch, echt deutsch
barão da Pomerânia usava polainas e chapéu
gelô e seu nariz
usava um olho cego de um lado e de outro
um monóculo inútil
e era a glória das namoradas da Rua do Senado

e Monsenhor Manuel Gomes, prelado doméstico
do Papa,
pastoreava o bairro de São Cristóvão
com seu cajado do país da Paraíba
e Manuel Machado, depois doutor em leis, depois
capitão de tropas expedicionárias e herói da Pátria
guardou no coração um estilhaço de granada alemã
e com o belo cravo de sangue de seu peito
visitou a morte num campo da Itália
e tornou, virgem e alegre, à Rua Mem de Sá
e casto ao medo e intemperante ao perigo
o filho dos Mourões
Mourão pastava
adolescentes, cônegos, roletas e janelas de trem
de lira a tiracolo e essas
são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
onde às vezes perguntava o sol ao quarto dalva
e Dalva
Dalva Silveira navegava o sargaço nas virilhas
aloeste de seus promontórios trêmulos
dei toda as velas.

Sabia de naus francesas por ali com muita
artilharia e pólvora e abarrotadas de brasil:
fiz a vela no bordo do sul
fui quatro relógios
e ao meio-dia era na esteira da nau
duas léguas dela e não podia cobrar terra
cheguei à nau e primeiro que lhe tirasse
me tirou dois tiros:
antes que fosse noite lhe tirei
três tiros de camelo e três vezes
toda a artilharia: e de noite carregou
tanto o vento lessueste que não pude jogar
senão artelheria meúda — e com ele
pelejamos toda a noite:
em rompendo a alva
mandei um marinheiro ver:
via uma vela — não divisava
se era latina se redonda.

E que me importa a mim que veja ou que não veja
se cumpriu toda
a cerimônia de ver.

E essas são notícias da Grécia
do caminho da Grécia
e o valete bicéfalo tangia
ora a espada ora a lira
ora a esquina ora o mar — e Nilo
Nilo José da Costa achara no subúrbio de
Campo Grande
a lua — e achara seu verdadeiro nome e era
Marcus Sandoval e de suas mãos
antes pendiam o fio da navalha e a tesoura
sábia — e delas
nunca mais rolaram cabelos de macho no salão
de barbeiro rolaram
as mechas da lua fêmea
— lua — disse o vento —
mostra-me a graça feminina
das tuas bailarinas
e ao sopro do luar sussurrando
ao ouvido das árvores quietas
todas as frondes num deslumbramento
bailavam aos levíssimos do vento
o bailado das sombras pelo chão
e Marcus Sandoval penou degredo
na Ilha de Fernando Noronha
Fernam de Loronha a nornordeste
por ouvir o filho dos Mourões
e por tanger espada em vez de cítara
e a morte se hospedou em seus pulmões e dorme
no cemitério de Campo Grande e nunca mais
um soneto foi pedido nos botequins do subúrbio
e nunca mais
o silêncio da noite doeu na serenata
onde andará o violão de José Carlos
e a rouca voz de Orlando Carneiro amigo íntimo
de Jesus Cristo
escande agora em vez da ode os códigos da lei
Meritíssimo Juiz da Vara Cível
trauteia agora a dodecafônica demanda
cite-se o réu — e testemunha
debaixo de vara sou citado
e desde as 7 horas do dia, Pero Lopes, até o sol
posto
pelejamos sempre: a nau me deu dentro
na caravela trinta e dois tiros
quebrou-me muitos aparelhos e rompeu-me
as velas todas:
estando eu assim com a nau tomada chegou
o Capitão Irmão com os outros navios e Francisco
Francisco da Gama Lima
servia o mel e o pão o coração fraterno
de José Ribas e fazia o pelo sinal da santa cruz
com a mesma lágrima e o mesmo mel
junto ao cadáver de Anísio Teixeira
onde era o pranto da filha derelicta.

E vinha a nau do Capitão com Pedro Maranduba
carregado de brasil
trazia muita artelheria e outra muita munição
de guerra
por lhes faltar pólvora se deram —
na nau não demos mais que uma bombarda
com um pedreiro ao lume dágua:
com a artelheria meúda lhe ferimos seis homens
na caravela me não mataram nem feriram
nenhum homem — de que
dei muitas graças ao Senhor Deus.

Noroeste e sulsueste se corria:
ao longo da nau eram tudo barreiras vermelhas
vieram da terra a nado às naus
índios a perguntar-nos
se queríamos Brasil:
carregado de Brasil
quero Brasil e as naus
carregadas de Brasil
se preciso, com muita artilharia e bombarda e ainda
abalroar as naus estrangeiras quebrar
a espada aos coronéis piratas e passá-los
a fio de espada boa e partir
a caminho da Grécia em nossa caravela
abarrotada de Brasil com Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho,
com grande lastro de Brasil.

Ao sair da lua abonançou-se o vento
e era o quarto da prima
formosa
no mar de seus cabelos Dora
Maria Mourão — Dora Correia Lima
no quarto da modorra no Leblon
era meio-dia e parecia noite
e o relâmpago de ouro de teus olhos
cortava a tempestade dos cabelos
e o mar tão grosso me entrava
por todas as partes com
o jogar da nau de ventre liso
Dora afagada à brisa ao faro das narinas:
houve vista de montes
e era mui alta a maravilha
em teu monte de relva
e hoje me faz dela
dez léguas e dez línguas noroleste
a costa se corre nornordeste e susudeste — Dora —
e toda longa ao longo do mar
no sertão serras mui altas e formosas
haverá delas ao mar dez léguas — e a lugares,
menos
e haveria às altas e formosas colinas tuas dez
beijos aos teus seios
e a lugares, menos,
e à noite veio o piloto-mor no esquife e súbito
são dez mil léguas de memória a esses seios
e a lugares, mais.

Perfundo de cinqüenta braças dárea limpa
o cabo de pareel que jaz ao mar
da banda sudoeste aloeste e a tuas partes
loessudoeste:
quando fui fora do parcel
eram serras mui altas sudoeste
sob a cintura túrgidas redondas
à mercê de tomar prumo
e com Mercedes Martins a prumo
vou mordendo a maçã em labirinto e mar
a caminho da Grécia onde esperavam entre
orquídeas
olhos oblíquos de Magdalena.

1 067
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Entre alabardas do Museu Histórico

Entre alabardas do Museu Histórico
Gustavo Barroso inventava a glória paraguaia
e Mariano Mafra pregava o massacre dos
judeus enquanto
Berta Samuel me devorava coração e pênis
na Rua Santo Amaro e na Praia do Russel
o Almirante jovial manobrava o bilboquê e o
coração
vida da minha vida, Glória querida — exclamava
de joelhos
e Dona Glorinha bela enchia de graça e suco de uva
o cristal do Almirante e Paulo Fleming
aprendia a um tempo
o cálculo infinitesimal o ditirambo o gin e as
noivas familiares
e Manola o aguardava com seus olhos azuis e
Simone era cantada por suas sonatas ao
piano e seus cabelos
naquele tempo Manuel Hasslocher era barão e
entre suas lavandas
cintilava a esmeralda no pulso da baronesa
Torelli
e se ensinava ao poeta o Bourgogne a lavanda
as estrangeiras de tornozelo fino e os
cachimbos de cereja
e rolava em seu aroma o seio branco de Bice
Taliani

depois roçava la Karavaieva
a tangerina de seu rosto
e as marquesas da Itália e as putas de Araguari
e la maison de Madame Janine Rua Cândido
Mendes — Tônia Madô Louise e Dolly
conheciam
a virilha do príncipe libidinoso
I am an indian prince, Madam, and this is Mr.
Ottoni and this Mr. Americano Freire
coming from Karputala — e Maria Alonso
oferecera seu corpo paraguaio na noite de Buenos
Aires
e depois era cantada entre as grades do Presídio
da Ilha Grande
com aguardente e evocações
às musas helicônias — e ali.
Atena de olhos garços foi vista
sobre.a relva noturna a bunda branca à lua e ao
ritmo
do prisioneiro alemão — e era
uma vez o cigano dos Balkãs Nicolau
e passou a lâmina no pescoço de ouro da cigana
Marena
e perguntava aos guardas do presídio
—"a mulher é sua? a lâmina é sua? Então o sr.
não tem nada com isso"
e eu ia degolando com minha própria lâmina
a minha própria rosa
dessas noites desses dias

— "Divino degollado! " — exclamava o poeta aos
pés de Godo
em madrugada de La Boca
e los hermanos Peila contavam histórias obscenas
de Abdias
e Jonquières prestava testemunho do azul e depois
Maldonado inventava inventos e Arden Quin
assobiava a internacional na noite rouca e entre
melodias arábigo-andaluzas Fleitas
e Sarmiento forneciam
a ordenação do tango en mi tristeza
na pensão de Raymonde com Ginette ou Dolly
e tudo era missão — a devassa Raquel esposa de
general conspícuo
na partouse de Mirtes ou de Mônica:
todos tienen su tango — assim Ulisses quando Circe
abriu as portas fulgentes e as coxas de ouro e
ofereceu
os pentelhos ruivos a farinha e o fulvo mel
como vinho de Pramnos e os lívidos venenos e às
vezes
na taça de duas asas a libação
afogava na garganta a gesta em flor e o fruto
apodrecia antes do afago
do zéfiro nas jeiras.

E uma noite quando
farejava sua barriga redonda, ela me disse:
"hão de sempre esperar-te as naus recurvas
pois tiveste parte
nas rosas de Pieria" — e sei
das escrituras de Galdino e Manuel Mourão e da
divina Safo: tenho parte
na rosa e na criança tenho parte
na noite no ananás na rapariga e no rifle
de Alexandre Mourão e com este mosquetão
papo-amarelo que me mandou o compadre
Jarmelino de Alagoas
um Coronel de Tanque dArca e Limoeiro de Anadía
matou cinco
inclusive um padre de São Luís de Quitunde e um
famanaz
das bandas de Coqueiro Seco — e nessas mortes
tenho parte

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pelas águas clementes e inclementes navegar

Pelas águas clementes e inclementes navegar
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.

E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.

Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos

e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.

E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.

E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?

Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.

Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:

pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.

E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

E onde o sítio do desejo? Pois moreno

E onde o sítio do desejo? Pois moreno
e triste sôbolos rios era; ao longe
o país dos Mourões e ao longe
o país de Apolo e para lá me vou nas caravelas
de Pero Lopes de Sousa
e de seus bagos venho.

E as moças de Jaguaribe em lua e cântaro?
Restavam — e era muito — as montanhas de azul
sôbolos rios do país das Gerais e a espera
de medrar-me afinal dos profetas de pedra
"Amós, digamos", Dantas,
que em chão de salmos e escrituras
sangra bela é no cactus a rosa
da peripécia: em vão
lavrada n’água
sôbolos rios a escritura
do canto do exílio se apagava. E onde
o sítio do desejo?
Entre a camisa e a pele
ia brotando a rosa
no coração talvez palpitasse em seu mapa
de uma rosa dos ventos a corola
tersa labareda
sobre o coração.

Ó país das Gerais onde "o cantar
dos galos é terrível na solidão" e onde
terrível é a saudade de umas terras que a tristeza
amua,
saudade de Airuoca onde
andam formigas, Carlos,
no cobertor vermelho de teu pai
e o doutor de Sião por nome Dantas
Dantas Mota vigia a dor no peito e
em vão o guarda o cachecol de seda
quando ao vento montês
instalam-se os soluços e as sanfonas.

Pois cantar de Sião também ali
pastei estrelas: e por longos anos
o exilado sonhava exílios novos
e ao tom dos sinos e à sombra
das cimarrras dos padres professores
suspeitei tua voz: e de que lado
do mundo é que as auroras nascem?

E de muitos outros países me pediram notícias
pois podes pedir-me agora notícias de muitos
outros países
tenho notícias de muitos outros países
— boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz —
e mau romeiro há sido o filho dos Mourões
debaixo de seu chapéu fez moradia:
pisando o chão de suas casas
moram uns com seus pés — e sob o céu
populoso das constelações
caminha esta cabeça moradora: e o que mora
de mim são estes
cabelos inocentes e a testa
e os pasmados olhos:
agora tu, Calíope, me ensina
as imagens não vasadas no vasado olho de Luís Vaz
le roi Edipe a peut-être
un oeil de trop

furente Adamastor comeu um olho
ao filho dos Mourões e onde
foi pupila hoje é ruína
de templo e de mansão e às vezes temo
não reste de tanto rosto desejado
senão sobejos na poeira onde rolaram
as cascas de laranja devoradas.

Mas onde o sítio do desejo?
O mar, o mar de Pero nos rolava para terra
e não podíamos surgir
porque o fundo era de pedra
outro dia ao meio-dia fomos dar à praia
ali, achamos uma nau de duzentos tonéis
e uma chalupa de castelhanos e em chegando
nos disseram
como iam ao Rio Maranhão e o capitão
lhes mandou requerer não fossem sôbolo rio
porquanto era de El-Rei Nosso Senhor e dentro
de sua demarcação — ali
tomei o sol em quinze graus e um sesmo
e em se cerrando a noite com muito vento nordeste
o galeão São Vicente perdeu duas âncoras em se
fazendo à vela
e a caravela Príncipe uma
o surgidouro deste porto é todo sujo
já não posso com as velas e o grande mar
arrebenta-me o mastro do traquete pelos
tamboretes
e engole minhas âncoras
abaixamos o mastro um côvado
pusemos-lhe umas emmes
e com arrataduras o corregemos
o melhor que podemos e gastamos
todo o dia em correger o mastro — mas onde
o sítio do desejo? Demorava-me, verde,
o Cabo Verde ao nordeste e tomava
da quarta do norte, e roxo
o Cabo Roxo a lesnordeste e demorava-me
a Serra Leoa a leste e à quarta do nordeste

fazíamos o caminho a sulsueste:
neste dia nos morreu um homem
o dia todo estivemos sem vento até o quarto da
modorra
e de noite, ao quarto da prima
nos deu uma trovoada de sueste e outra de nordeste
com muito vento e água e relâmpagos.

Naveguei navegamos
água vento relâmpago
entrâncias do labirinto de Gerardo
quartos de primas — Dora, Mariana, onde eram
doces tempestades e caminhos
do sítio do desejo
quartos da modorra depois:
todo animal entristece
depois do coito.

Gran força de vento nos fez
amainar de romania as velas
tomei o sol em dois graus: demorava-me
a ilha de Fernão de Loronha ao suleste
e ao sudoeste demorava
o Cabo de Santo Agostinho o olhar de Santa Mônica
nesta paragem correm as águas aloesnoroeste
e em certos tempos correm mais
assim que nesta paragem a pilotagem é incerta:
por experiência verdadeira
para saberdes se estais de barvalento ou de
julavento
da ilha de Fernão de Loronha
quando estais de barlavento vereis muitas aves
— os mais
rebiforcados e alcatrazes pretos
e de julavento vereis
mui poucas aves e as que virdes serão
alcatrazes brancos
e o mar é mui chão:

entre alcatrazes pretos
e alcatrazes brancos
por mar mui chão
por muito chão de mar
por mar e chão de chãs de terra de Alagoas
às vezes a um tiro de falcão do abismo
se arrisca à peripécia de Gerardo
e incerta é a pilotagem do perigo e Raul
e Efrain e Abdias e Godo e Napoleão
e os outros capitães, Francisco,
tapavam os olhos com a mão
sacudiam a cabeça e tremiam pelo navegante
cheios de misericórdia e terror:
"Carlos — diziam — Carlos, o temerário"—
e era Gerardo entrando, amor,
Gerardo em seu labirinto
e cada qual teria o seu: jogava
Juan y su laberinto
de papel
Agustín y su laberinto
de farsa
Godo y su laberinto
de estrelas
Abdias e seu labirinto
de bocetas
Francisco e seu labirinto
de anjos e Tomás
e seu labirinto de maçã
e vai morrer mordendo a fruta
do primeiro Adão
Tomás talvez o último Adão
mordendo a sua fruta e a fruta
de todos esses labirintos
tem o mesmo sabor o mesmo aroma:
assim, digamos, Gerardo
em seu labirinto navegava
farsa estrela papel bocetas anjos e maçãs

Mas onde o sítio do desejo?

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