Temas
Poemas neste tema

Vida

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema de Milhões

nós morávamos num hotel perto de um
terreno baldio
onde alguém estava cultivando um
jardim
que incluía uns longos
talos de milho
e nós saímos do bar da esquina
às duas da manhã
e começamos a caminhar
na direção de casa
e quando chegamos ao terreno
baldio ela disse “eu quero uns
milhos!”
e eu fui atrás dela e
falei “merda, esse troço
não tá maduro ainda...”
“sim, tá sim... eu preciso
comer uns milhos...”
estávamos sempre famintos e
ela começou a rasgar
umas espigas de milho e
metê-las dentro da bolsa
e pela gola da blusa e
eu corri os olhos pela rua e
vi a viatura se aproximando
e falei “é a polícia,
corre!”
eles vinham de luz vermelha acesa
e nós corremos rumo ao nosso
apartamento, descemos pela
entrada da frente...
“parem ou eu atiro!”
e descemos a escada até
o elevador do subsolo
que calhou de estar nos esperando
e fechamos as portas e
apertamos o botão #4
enquanto eles ficavam lá
pressionando botões. nós
saímos e deixamos as portas
do elevador abertas, corremos para o
nosso apartamento, entramos, trancamos a porta
e ficamos sentados no escuro
escutando e bebendo vinho
barato. ouvimos os caras lá fora
perambulando. eles afinal
desistiram mas deixamos as luzes
desligadas e ela ferveu as espigas de
milho, ficamos no escuro por
muito tempo escutando as espigas
de milho ferverem e bebendo o
vinho barato. tiramos o milho
da água e tentamos comê-lo. ainda não
estava desenvolvido, nós mordiscávamos
assassinatos, abortos da
natureza.
“eu falei que essa merda não tava no ponto”,
eu disse.
“tá no ponto”, ela disse, “pelo amor
de Deus, come!”
“já tentei”, eu disse, “Deus Nosso Senhor sabe
como tentei...”
“fique feliz de ter esse milho”, ela disse,
“fique feliz de me ter também.”
“o milho tá verde”, eu disse, “verde que nem
as lagartas em abril...”
“ele tá bom, bom, esse milho tá bom”,
ela disse
e começou a jogar espigas em mim.
eu joguei as espigas de volta.
terminamos o vinho e fomos dormir.
de manhã quando acordamos havia
umas minúsculas espiguinhas de milho por tudo
no tapete, no sofá e nas cadeiras.
“de onde veio essa porcaria?”, ela perguntou.
“o Gigante Verde da lata de ervilha”, falei, “cagou pra nós
um tonel cheio.”
“nesse mundo”, ela disse, “uma garota nunca
sabe o que vai ver quando
acordar.”
“algo duro”, eu respondi, “é melhor
do que nada.”
ela se levantou e tomou banho e eu me
virei e voltei a dormir.
1 064
Charles Bukowski

Charles Bukowski

29 Uvas Geladas

o processo de aprender é tortuoso

todos esses moinhos de vento

toda essa transição sangrenta

pias tampadas

mentes de papel higiênico

a mentira do amor, aquela puta pelada

cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh

homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa

o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem

o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.

o processo de aprender é tortuoso

todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
653
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Direto Sem Parar

eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
1 078
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Viagem de Trem Pelo Inferno

vai vai vai vai vai!, eles berram
e um macaco estica o braço e desenrosca a lâmpada
e a ruiva velha de vestido preto
levanta a saia e dança
vai vai vai vai vai!
ela sacode a bem-feita corcova do rabo
e aí o tira entra pelo vestíbulo
e eles dão vivas
oba!!! oba!!!
e ele cai fora com a ruiva diante de si
cabelo nos olhos dela, boca descaída em desgosto,
e eles gritam para ele
vai fundo! manda ver! oba!!!

é uma viagem de trem pelo inferno,
os perdedores do hipódromo voltando cento e cinquenta quilômetros para casa
para empregos e nenhum emprego, esposas e nenhuma esposa, vidas e nenhuma vida,
e o camarada do bar só tem cerveja,
ela flutua numa lixeira de gelo e ele joga a cerveja quente ali dentro –
(oba!!! oba!!!, eles berram toda vez que uma pessoa nova entra no vagão do bar)
e pega latas e as abre e as vende tão rápido quanto a máquina
é capaz de furar buraquinhos...

vai vai vai vai vai!!!, encontraram uma nova
e ela dança (as putas embarcam em San Clemente
onde estiveram sentadas nos bares
e elas rumam ao norte para L.A.
colhendo o que conseguem)
e agora ela está rolando dados imaginários,
não, eles são reais, há moedinhas no piso,
ela sacode os dados, ela sacode sua lata e eles gritam
vai vai vai vai vai!!!

o tira aparece de novo e os dados desaparecem,
ele está fumando um cigarro e seu quepe está levantado para trás,
ele é cinza e parece mais bêbado do que qualquer um de nós,
oba!!!     oba!, eles saúdam, e ele vai andando.

um extrovertido de camisa esportiva azul
circula abraçando e beijando as mulheres,
aí uma garota de cor se pendura pelos joelhos numa barra transversal,
oba!     vai vai vai!     oba!

um homossexual esfrega seu rosto no meu,
“você estava no hipódromo?”
eu me afasto dele, vou até o bar e
suo na espera por uma cerveja.

oba!     vai vai vai vai!

a garota de cor dança de frente para um chinês,
vai vai vai vai!

eu pego minha cerveja.
lá fora passam os prédios, pessoas olham televisão,
em Berlim eles fodem com o muro,
pessoas ponderam questões de estado com pedras,
aqui uma loira velha força o flanco contra o meu,
compro uma cerveja pra ela e um maço de Pall Mall,
então ela diz “vem comigo, preciso ir no banheiro”,
e vamos passando pelo tumulto,
oba! oba!     lá vão eles! vai vai vai vai!!!

ela está de calças largas e a barriga dela querendo sair pra
fora, e eu espero junto à plaquinha externa que diz mulheres,
e estou suado e impaciente pelo pouco que a cerveja me dá
e esvazio a lata e a lanço no vestíbulo
e bebo a dela também, e no outro vagão
as pessoas estão cansadas e infelizes, ressonhando suas perdas,
chapados em seus assentos, bonecos empalhados,
engolidos – de novo – pelo mundo,

e a minha puta sai
e nós entramos no vagão do bar outra vez,
oba! oba! vai vai vai vai!
dança, dança, dança!
e ela começa a dançar balançando o que resta do
disfarce de sua carne e eu me afasto dela e vou para o bar,
vai    vai vai vai    vai vai    vai vai vai!

ainda resta cerveja, o camarada puxa latas dos armários,
o trem ginga ginga correndo a 145     153      158
o maquinista um perdedor também
estourando um barrilete de cerveja entre as pernas,
e eu penso nas batalhas travadas ao longo dos séculos,
as batalhas em pequenos recintos, em campos de batalha,
louco, gênio, idiota, farsante,
todos tirando sangue, tudo desperdiçado, desperdiçado, desperdiçado,
as baratas vão rastejar por todo lado
sobre a Sinfonia #9 de Schubert,
pra dentro e pra fora dos nossos ouvidos
vai vai vai vai!!!
no entanto aqui
isso também
significa alguma coisa

e a minha puta voltou e nós bebemos
até que um cara maluco liga o sistema de incêndio
e as luzes se apagam
e ficamos todos sob um chuveiro frio
oba! oba!     vai vai vai vai vai vai vai!

alguém desliga a água e liga as luzes
e as mulheres todas ganham cabeças de sapo
o cabelo escorrido, rímel apagado, pálpebras apagadas, e elas dão risadinhas,
bolsas e espelhos na mão, pentes na mão, tentando se esconder da vida de novo,
e eu desvio meu olhar, tranquilo afinal, pego mais umas cervejas,
acho um cigarro seco e o acendo,
e aí como outra chaga
Los Angeles se impõe a nós
e saímos pelas portas
correndo rampas abaixo
oba!     vai, vai, vai, vai!

há uma cadeira de rodas no corredor,
e o extrovertido da camisa esportiva azul
senta seu amigo nela,
um doente! um doente! abram alas!
ei abram alas! um moribundo!

eles se movem numa tremenda velocidade
para dizer o mínimo, ei! abram alas! um doente!
ah, vai vai vai vai vai vai!
ah, vai vai vai      vai, vai, vai!     oba!!

um guarda os detém e pega a cadeira de rodas
e aí meu amigo da camisa azul
junta o amigo do chão e o coloca sobre o ombro
e se precipita rampa abaixo
ei! ei! abram alas, um moribundo!

minha puta ainda está comigo quando chego ao meu carro
no estacionamento, ela entra
e rodamos pela frente da prefeitura
ingressando na autoestrada, e há mais uma corrida
para correr sem vencedor, e por todos os lados dirigem
pessoas que estavam no jogo de beisebol
ou na praia ou no cinema ou na tia Sarah,
e a puta diz “é o Marmatz. eu simplesmente não sei.
o garoto não quer vencer por mim.”

20 minutos depois ela está no meu quarto.

vai, vai, vai, vai, vai, vai!
oba.

lá fora tudo está quieto, e dá pra ouvir os bombardeiros no alto,
dá pra ouvir os camundongos fazendo amor; dá pra ouvi-los cavando
as sepulturas nos cemitérios, dá pra ouvir os vermes rastejando para dentro das
órbitas, e o trem no qual viemos, ele está bem quietinho agora,
está parado, as janelas nada mostram senão o luar,
há uma tristeza que lembra velhos rios, e é mais real
do que jamais foi.
1 313
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eles, Todos Eles, Sabem

pergunte aos pintores de calçada em Paris
pergunte ao raio de sol sobre um cão adormecido
pergunte aos 3 porquinhos
pergunte ao menino que entrega jornais
pergunte à música de Donizetti
pergunte ao barbeiro
pergunte ao assassino
pergunte ao homem escorado no muro
pergunte ao pastor
pergunte ao marceneiro
pergunte ao batedor de carteiras ou ao
dono da loja de penhores ou ao soprador de vidro
ou ao vendedor de estrume ou
ao dentista
pergunte ao revolucionário
pergunte ao homem que enfia a cabeça na
boca de um leão
pergunte ao homem que vai disparar a próxima
bomba atômica
pergunte ao homem que pensa ser Cristo
pergunte ao azulão que volta para casa
à noite
pergunte ao bisbilhoteiro
pergunte ao homem tomado pelo câncer
pergunte ao homem que precisa de um banho
pergunte ao perneta
pergunte ao cego
pergunte ao homem com língua presa
pergunte ao comedor de ópio
pergunte ao cirurgião vítima de tremores
pergunte às folhas que você pisoteia
pergunte a um estuprador ou a
um motorneiro ou a um velho
arrancando as ervas de seu jardim
pergunte à sanguessuga
pergunte a um treinador de pulgas
pergunte a um engolidor de fogo
pergunte ao mais miserável homem que você
puder encontrar em seu mais
miserável momento
pergunte a um mestre de judô
pergunte a um condutor de elefantes
pergunte a um leproso, a um condenado à prisão perpétua, a um lenhador
pergunte a um professor de história
pergunte ao homem que jamais limpa as
unhas
pergunte a um palhaço ou ao primeiro rosto que você vir
à luz do dia
pergunte a seu pai
pergunte a seu filho e
e ao que ainda virá a ser
pergunte a mim
pergunte a uma lâmpada queimada dentro de um saco de papel
pergunte aos fracos de vontade, aos malditos, aos tolos
aos insolentes, aos escravizadores
pergunte aos construtores de templos
pergunte ao homem que nunca gastou os sapatos
pergunte a Jesus
pergunte à lua
pergunte às sombras dentro do armário
pergunte à mariposa, ao monge, ao louco
pergunte ao homem que faz as tiras para
The New Yorker
pergunte a um peixinho dourado
pergunte a uma samambaia balançando como uma dança sensual
pergunte ao mapa da Índia
pergunte a um rosto gentil
pergunte ao homem escondido debaixo da sua cama
pergunte ao homem que você mais odeia na face da
terra
pergunte ao homem que bebia com Dylan Thomas
pergunte ao homem que amarrava as luvas de Jack Sharkey
pergunte ao homem de cara triste bebendo café
pergunte ao encanador
pergunte ao homem que sonha com avestruzes todas as
noites
pergunte ao bilheteiro em um show de horrores
pergunte ao falsário
pergunte ao homem dormindo em um beco sob
folhas de jornal
pergunte aos conquistadores das nações e planetas
pergunte ao homem que acaba de decepar o dedo
pergunte a uma passagem da bíblia
pergunte às gotas d’água pingando de uma torneira
enquanto toca o telefone
pergunte a quem perjura
pergunte à pintura de azul profundo
pergunte ao paraquedista
pergunte ao homem com dor de barriga
pergunte ao olho divino tão astuto e flutuante
pergunte ao garoto de calças justas na
faculdade cara
pergunte ao homem que escorregou na banheira
pergunte ao homem mastigado pelo tubarão
pergunte ao cara que me vendeu as luvas
sem pares
pergunte a esses e a todos aqueles que deixei de fora
pergunte ao fogo do fogo do fogo –
pergunte até para os mentirosos
pergunte a quem você quiser a qualquer momento
que quiser em qualquer dia que quiser
faça chuva ou esteja
nevando ou mesmo que
você esteja avançando pela varanda
amarelada pelo calor
pergunte isto pergunte aquilo
pergunte ao homem com merda de passarinho no cabelo
pergunte ao torturador de animais
pergunte ao homem que assistiu a touradas demais
na Espanha
pergunte aos donos de Cadillacs novos em folha
pergunte aos famosos
pergunte ao tímido
pergunte ao albino
e ao estadista
pergunte aos senhorios e aos jogadores de sinuca
pergunte aos farsantes
pergunte aos assassinos de aluguel
pergunte aos carecas e aos gordos
e aos caras altos e aos
nanicos
pergunte aos caolhos, aos
homens que treparam demais ou de menos
pergunte aos homens que leem todos os
editoriais
pergunte aos homens que cultivam rosas
pergunte aos homens quase incapazes de sentir dor
pergunte aos moribundos
pergunte aos cortadores de grama e aos espectadores
dos jogos de futebol
pergunte a qualquer um desses ou a todos esses
pergunte pergunte pergunte e
todos responderão a você:
uma esposa grunhindo no corrimão da escada é mais
do que um homem pode suportar.
1 118
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Cortinas Balançam E As Pessoas Caminham Ao Longo da Tarde Aqui E Em Berlim E Em Nova York E No México

eu espero pela vida como em uma gravidez, ponho o estetoscópio
na barriga
mas tudo o que escuto agora é
o piano batendo seus dentes através de áreas do meu
cérebro
(alguém nesta vizinhança gosta de
Gershwin o que é ruim demais
para
mim)
e a mulher se senta atrás de mim
senta ali senta ali
e segue acendendo cigarros
e agora as enfermeiras deixam o hospital aqui perto
e elas usam vestidos que estão nus ao sol
para alegrar aos mortos e aos moribundos e aos médicos
mas isso em nada me
ajuda
se eu as pudesse rasgar com gemidos de deleite isto
nem acrescentaria nem levaria
nada
agora agora
uma buzina soa um verão
cansado como um gladíolo que desiste e se escora em uma
casa e
as garrafas que esvaziamos estrangulariam as
sensibilidades... de Deus
agora eu ergo os olhos e vejo meu rosto no espelho:
se eu pudesse ao menos matar o homem que matou o
homem
mais do que as xícaras de café e os charutos me
liquidaram mais do que eu mesmo me
liquidei
a loucura surge como um rato saído do aparador e
eles me estendem uma fotografia da
lua
a mulher atrás de mim tem uma filha que se apaixona
por homens de barba e sandálias e boinas
que fumam cachimbos e arrumam os cabelos com cuidado e
jogam xadrez e falam continuamente de
alma e de Arte
isto é bom o suficiente: é preciso amar
alguma coisa
agora as águas do senhorio lá fora derramando sobre
as plantas uma falsa chuva
Gershwin terminou e agora parece
Greig
ah, é tudo tão comum e difícil! impossível!
desejo que alguém possa se tornar uma amora
selvagem
mas não
suponho que será
o mesmo: uma cerveja e depois outra
cerveja e depois outra
cerveja
talvez depois uma garrafinha de
uísque
três charutos – fumaça fumaça sim fumaça
debaixo do sol elétrico da noite
escondido aqui entre estas paredes com esta mulher e sua
vida enquanto
os policiais estão retirando os bêbados das
ruas
não sei por quanto tempo ainda posso
aguentar
mas continuo pensando
ó! meu deus!
o
gladíolo se empertigará e
cheio de
cor como uma
flecha apontando para o
sol
Cristo tremerá como
marmelada
meu gato terá o aspecto que Gandhi certa vez
teve
tudo tudo
mesmo os azulejos do banheiro masculino na
Union Station serão
verdadeiros
todos os espelhos espalhados por aí
finalmente refletindo rostos de verdade
rosas
florestas
nunca mais policiais
nunca mais
eu.
1 087
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...

nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 130
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.

e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.

lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”

às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.

se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana

pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.

o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.

a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 236