Poemas neste tema
Vida
Manuel Bandeira
Ubiquidade
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Petrópolis, 11.3.1943
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Petrópolis, 11.3.1943
1 324
Manuel Bandeira
Antologia
A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— À dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.
Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)
Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
À mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Rio, 1965
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Vou-me embora p'ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— À dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.
Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)
Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
À mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Rio, 1965
1 095
Manuel Bandeira
Entrevista
Vida que morre e que subsiste
Vária, absurda, sórdida, ávida,
Má!
Se me indagar um qualquer
Repórter:
"Que há de mais bonito
No ingrato mundo?”
Não hesito;
Responderei:
"De mais bonito
Não sei dizer. Mas de mais triste,
— De mais triste é uma mulher
Grávida. Qualquer mulher grávida."
Vária, absurda, sórdida, ávida,
Má!
Se me indagar um qualquer
Repórter:
"Que há de mais bonito
No ingrato mundo?”
Não hesito;
Responderei:
"De mais bonito
Não sei dizer. Mas de mais triste,
— De mais triste é uma mulher
Grávida. Qualquer mulher grávida."
1 716
Manuel Bandeira
Vontade de Morrer
Não é que não me fales aos sentidos,
À inteligência, o instinto, o coração:
Falas demais até, e com tal suasão,
Que para não te ouvir selo os ouvidos.
Não é que sinta gastos e abolidos
Força e gosto de amar, nem haja a mão,
Na dos anos penosa sucessão,
Desaprendido os jogos aprendidos.
E ainda que tudo em mim murchado houvera,
Teu olhar saberia, senão quando,
Tudo alertar em nova primavera.
Sem ambições de amor ou de poder,
Nada peço nem quero e — entre nós —, ando
Com uma grande vontade de morrer.
CANÇÃO PARA A MINHA MORTE
Bem que filho do Norte
Não sou bravo nem forte.
Mas, como a vida amei
Quero te amar, ó morte,
— Minha morte, pesar
Que não te escolherei.
Do amor tive na vida
Quanto amor pode dar:
Amei não sendo amado,
E sendo amado, amei.
Morte, em ti quero agora
Esquecer que na vida
Não fiz senão amar.
Sei que é grande maçada
Morrer mas morrerei
— Quando fores servida —
Sem maiores saudades
Desta madrasta vida,
Que, todavia, amei.
À inteligência, o instinto, o coração:
Falas demais até, e com tal suasão,
Que para não te ouvir selo os ouvidos.
Não é que sinta gastos e abolidos
Força e gosto de amar, nem haja a mão,
Na dos anos penosa sucessão,
Desaprendido os jogos aprendidos.
E ainda que tudo em mim murchado houvera,
Teu olhar saberia, senão quando,
Tudo alertar em nova primavera.
Sem ambições de amor ou de poder,
Nada peço nem quero e — entre nós —, ando
Com uma grande vontade de morrer.
CANÇÃO PARA A MINHA MORTE
Bem que filho do Norte
Não sou bravo nem forte.
Mas, como a vida amei
Quero te amar, ó morte,
— Minha morte, pesar
Que não te escolherei.
Do amor tive na vida
Quanto amor pode dar:
Amei não sendo amado,
E sendo amado, amei.
Morte, em ti quero agora
Esquecer que na vida
Não fiz senão amar.
Sei que é grande maçada
Morrer mas morrerei
— Quando fores servida —
Sem maiores saudades
Desta madrasta vida,
Que, todavia, amei.
1 648
Manuel Bandeira
Adeus, Amor
O amor disse-me adeus, e eu disse: "Adeus,
Amor! Tu fazes bem: a mocidade
Quer a mocidade." Os meus amigos
Me felicitam: "Como estás bem conservado!"
Mas eu sei que no Louvre e outros museus, e até no nosso
Há múmias do velho Egito que estão como eu bem conservadas.
Sei mais que posso ainda receber e dar carinhos e ternura.
Mas acho isso pouco, e exijo a iluminância, o inesperado,
O trauma, o magma... Adeus, Amor!
Todavia não estou sozinho. Nunca estive. A vida inteira
Vivi em tête-à-tête com uma senhora magra, séria,
Da maior distinção.
E agora até sou seu vizinho.
Tu que me lês adivinhaste ela quem é.
Pois é. Portanto digo: "Adeus, Amor!"
E à venerável minha vizinha:
“Ao teu dispor! Mas olha, vem
Para a nossa entrevista última,
Pela mão da tua divina Senhora
— Nossa Senhora da Boa Morte".
Amor! Tu fazes bem: a mocidade
Quer a mocidade." Os meus amigos
Me felicitam: "Como estás bem conservado!"
Mas eu sei que no Louvre e outros museus, e até no nosso
Há múmias do velho Egito que estão como eu bem conservadas.
Sei mais que posso ainda receber e dar carinhos e ternura.
Mas acho isso pouco, e exijo a iluminância, o inesperado,
O trauma, o magma... Adeus, Amor!
Todavia não estou sozinho. Nunca estive. A vida inteira
Vivi em tête-à-tête com uma senhora magra, séria,
Da maior distinção.
E agora até sou seu vizinho.
Tu que me lês adivinhaste ela quem é.
Pois é. Portanto digo: "Adeus, Amor!"
E à venerável minha vizinha:
“Ao teu dispor! Mas olha, vem
Para a nossa entrevista última,
Pela mão da tua divina Senhora
— Nossa Senhora da Boa Morte".
1 511
Manuel Bandeira
O Descante de Arlequim
A lua ainda não nasceu.
À escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
À escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
1 215
Manuel Bandeira
Voz de Fora
Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
1 418
Manuel Bandeira
O Lutador
Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
— À ululante Quimera espavorida!
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado,
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
30 de setembro — 1º de outubro de 1945
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
— À ululante Quimera espavorida!
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado,
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
30 de setembro — 1º de outubro de 1945
1 676
Manuel Bandeira
A Vida assim nos Afeiçoa
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 077
Manuel Bandeira
Poema Só para Jaime Ovalle
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
2 792
Marina Colasanti
Matisse em flor
O gerânio que
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
1 152
Marina Colasanti
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
948
Marina Colasanti
E LOGO PASSA
A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
1 082
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
771
Allen Ginsberg
Notícia de morte
Visita a W.C.W. circa 1957, os poetas Kerouac Corso Orlovsky no sofá do living room indagavam palavra sábias, William enfermo apontou pela janela acortinada da Main Street, “Há muitos bastardos lá fora!”.
Andando de noite na estrada de asfalto
do campus ao lado do Instrutor Alemão com Óculos
W. C. Williams está morto disse ele com sotaque
sob as árvores em Benares; Eu parei perguntei
Williams está morto? Entusiástico e de olhos abertos
sob a Big Dipper. Parado no Pórtico
do bangalô Anexo da International House
insetos zumbindo em volta da luz elétrica
lendo o obituário Médico no Time.
“out among the sparrows behind the shutters”
Williams está na Big Dipper. Ele não está morto
pois as muitas páginas de palavras emoção em arranjo
com suas entonações fremem as bocas de crianças humildes
tornam-se sutis mesmo em Bengala. Assim
há uma vida movendo-se para fora de suas páginas; Blake
também “vivo” através de suas experienciadas máquinas.
Foram suas últimas palavras qualquer coisa de Negro lá fora
no quarto acarpetado da casa de madeira
em Rutherford? Me pergunto o que ele disse,
ou teria qualquer coisa restado nos reinos do discurso
após o ataque & a freme-cérebro ruína entrarem
em seus pensamentos? Se eu rezar por sua alma no Bardo Thodol
ele poderá ouvir a inesperada vibração de estrangeira piedade.
Quietamente desconhecido por três semanas; agora eu vi Passaic
e Ganges, um, consentindo sua devoção,
porque ele percorreu a margem de aço & rezou
para uma Deusa no rio, que ele somente inventou,
uma outra Ganga-Ma. Montando no velho
ferruginoso submarino Holland no andar térreo
do Paterson Museum ao invés de um crocodilo celestial.
Lamentai, Ó Vós, Anjos da Esquerda! que o poeta
das ruas agora é um esqueleto sob o pavimento
e não há outra velha alma tão doce e humilde
e queixo feminino e ele-olhos pode ver vocês
O que vocês queriam estar entre os bastardos lá fora.
Benares, 20 de março de 1963.
Andando de noite na estrada de asfalto
do campus ao lado do Instrutor Alemão com Óculos
W. C. Williams está morto disse ele com sotaque
sob as árvores em Benares; Eu parei perguntei
Williams está morto? Entusiástico e de olhos abertos
sob a Big Dipper. Parado no Pórtico
do bangalô Anexo da International House
insetos zumbindo em volta da luz elétrica
lendo o obituário Médico no Time.
“out among the sparrows behind the shutters”
Williams está na Big Dipper. Ele não está morto
pois as muitas páginas de palavras emoção em arranjo
com suas entonações fremem as bocas de crianças humildes
tornam-se sutis mesmo em Bengala. Assim
há uma vida movendo-se para fora de suas páginas; Blake
também “vivo” através de suas experienciadas máquinas.
Foram suas últimas palavras qualquer coisa de Negro lá fora
no quarto acarpetado da casa de madeira
em Rutherford? Me pergunto o que ele disse,
ou teria qualquer coisa restado nos reinos do discurso
após o ataque & a freme-cérebro ruína entrarem
em seus pensamentos? Se eu rezar por sua alma no Bardo Thodol
ele poderá ouvir a inesperada vibração de estrangeira piedade.
Quietamente desconhecido por três semanas; agora eu vi Passaic
e Ganges, um, consentindo sua devoção,
porque ele percorreu a margem de aço & rezou
para uma Deusa no rio, que ele somente inventou,
uma outra Ganga-Ma. Montando no velho
ferruginoso submarino Holland no andar térreo
do Paterson Museum ao invés de um crocodilo celestial.
Lamentai, Ó Vós, Anjos da Esquerda! que o poeta
das ruas agora é um esqueleto sob o pavimento
e não há outra velha alma tão doce e humilde
e queixo feminino e ele-olhos pode ver vocês
O que vocês queriam estar entre os bastardos lá fora.
Benares, 20 de março de 1963.
346
Affonso Romano de Sant'Anna
Wild Life
Ninguém se arrepende do passado
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
985
Allen Ginsberg
O Fim
Eu sou Eu, velho Pai Olho de Peixe que procriou o oceano, o verme no meu próprio ouvido, a serpente enrolada na árvore,
Sento-me na mente do carvalho e me oculto na rosa, sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte,
vinde a mim corpos, vinde a mim profecias, vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões,
Eu recebo tudo, morro de câncer, entro no caixão para sempre, fecho meu olho, desapareço,
caio sobre mim mesmo na neve de inverno, rolo numa grande roda pela chuva, observo a convulsão dos que fodem,
carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote, memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães,
gozo no ventre de uma mulher, a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo, o caralho pulando para dentro
derramando sua semente nos lábios de Yin,129 feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou, meus garotos excitados ao crepúsculo nas varandas, chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicêmbalo de Chicago,
Amor que me engendrou retorno a minha Origem sem nada perder, flutuo sobre o vomitório
empolgado por minha imortalidade, empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro,
vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca no teu ouvido.
NY, 1960
Sento-me na mente do carvalho e me oculto na rosa, sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte,
vinde a mim corpos, vinde a mim profecias, vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões,
Eu recebo tudo, morro de câncer, entro no caixão para sempre, fecho meu olho, desapareço,
caio sobre mim mesmo na neve de inverno, rolo numa grande roda pela chuva, observo a convulsão dos que fodem,
carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote, memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães,
gozo no ventre de uma mulher, a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo, o caralho pulando para dentro
derramando sua semente nos lábios de Yin,129 feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou, meus garotos excitados ao crepúsculo nas varandas, chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicêmbalo de Chicago,
Amor que me engendrou retorno a minha Origem sem nada perder, flutuo sobre o vomitório
empolgado por minha imortalidade, empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro,
vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca no teu ouvido.
NY, 1960
1 118
Allen Ginsberg
Europa! Europa!
Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
1 645
Affonso Romano de Sant'Anna
Fim/Começo Dos Tempos
Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 060
Affonso Romano de Sant'Anna
Textamento
Minha mãe teve dúvidas
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
951
Affonso Romano de Sant'Anna
Vivi 45 Anos
Vivi 45 anos.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
1 130
Affonso Romano de Sant'Anna
O Que Ficou
É falsa a versão
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
1 082
Affonso Romano de Sant'Anna
Para Tigrão
Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
1 191
Affonso Romano de Sant'Anna
Momentos de Glória
Todos têm seu momento de glória:
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
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