Poemas neste tema
Vida
Carlos Drummond de Andrade
O Relógio
Nenhum igual àquele.
A hora no bolso do colete é furtiva,
a hora na parede da sala é calma,
a hora na incidência da luz é silenciosa.
Mas a hora no relógio da Matriz é grave
como a consciência.
E repete. Repete.
Impossível dormir, se não a escuto.
Ficar acordado, sem sua batida.
Existir, se ela emudece.
Cada hora é fixada no ar, na alma,
continua sonhando na surdez.
Onde não há mais ninguém, ela chega e avisa
varando o pedregal da noite.
Som para ser ouvido no longilonge
do tempo da vida.
Imenso
no pulso
este relógio vai comigo.
A hora no bolso do colete é furtiva,
a hora na parede da sala é calma,
a hora na incidência da luz é silenciosa.
Mas a hora no relógio da Matriz é grave
como a consciência.
E repete. Repete.
Impossível dormir, se não a escuto.
Ficar acordado, sem sua batida.
Existir, se ela emudece.
Cada hora é fixada no ar, na alma,
continua sonhando na surdez.
Onde não há mais ninguém, ela chega e avisa
varando o pedregal da noite.
Som para ser ouvido no longilonge
do tempo da vida.
Imenso
no pulso
este relógio vai comigo.
1 520
Carlos Drummond de Andrade
Versos Para Ana Cecilia, do Recife
Eis que o tempo chegou de celebrar Ana Cecilia
e sua graça-clarão e seu verdor de tília.
Aqui estou, velho poeta, para quem a juventude
traz em si mesma uma promessa de beatitude,
uma continuação de antes de amanhecer, uma fonte
de sonhos e visões a colorir a linha do horizonte,
um aceno forte de vida, incitando a viver
a magnificente esperança de cada hora, diamante do ser.
Aqui estou e vejo Ana Cecilia em seu fluvial Recife
adornada de mocidade como de um paquife.
Tem sua própria e luminosa florescência,
a mesma de Sônia Maria e de Madalena, e a inefável ciência
das moças brasileiras do passado, refletidas na de 78,
dom contra o qual nada pode nem ousa o tempo afoito,
pois a moça, forma indelével, através de gerações e gerações,
sítios, histórias, alianças, amorosas combinações,
é eternidade no fluir das coisas, instante corporizado
da ânsia de vencer o efêmero e nele inscrever o traçado
de uma ponta entre o humano, o terrestre e o transcendental,
feições todas irmanadas de um fantástico ideal.
E tudo que vejo em Ana Cecilia é a imagem dessa união
profunda, como profundo é o amor, e plena de canção.
Que verso darei a Ana Cecilia, se ela é o próprio verso
a brotar, espontâneo, da música do universo?
e sua graça-clarão e seu verdor de tília.
Aqui estou, velho poeta, para quem a juventude
traz em si mesma uma promessa de beatitude,
uma continuação de antes de amanhecer, uma fonte
de sonhos e visões a colorir a linha do horizonte,
um aceno forte de vida, incitando a viver
a magnificente esperança de cada hora, diamante do ser.
Aqui estou e vejo Ana Cecilia em seu fluvial Recife
adornada de mocidade como de um paquife.
Tem sua própria e luminosa florescência,
a mesma de Sônia Maria e de Madalena, e a inefável ciência
das moças brasileiras do passado, refletidas na de 78,
dom contra o qual nada pode nem ousa o tempo afoito,
pois a moça, forma indelével, através de gerações e gerações,
sítios, histórias, alianças, amorosas combinações,
é eternidade no fluir das coisas, instante corporizado
da ânsia de vencer o efêmero e nele inscrever o traçado
de uma ponta entre o humano, o terrestre e o transcendental,
feições todas irmanadas de um fantástico ideal.
E tudo que vejo em Ana Cecilia é a imagem dessa união
profunda, como profundo é o amor, e plena de canção.
Que verso darei a Ana Cecilia, se ela é o próprio verso
a brotar, espontâneo, da música do universo?
1 515
Carlos Drummond de Andrade
Eu Quisera Ver o Mundo
Eu quisera ver o mundo
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.
Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.
Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,
mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)
um conhecimento humano.
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.
Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.
Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,
mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)
um conhecimento humano.
1 221
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 055
Carlos Drummond de Andrade
Uma Hora E Mais Outra
Há uma hora triste
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
803
Carlos Drummond de Andrade
Ciclo
Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,
e espera.
Como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança.
De repente, sentimos um arco ligando ao céu nossa medula,
e no fundamento do ser a hora fulgura.
É agora, o altar está brunido
e as alfaias cada uma tem seu brilho
e cada brilho seu destino.
Um antigo sacrifício já se alteia
e no linho amarfanhado um búfalo estampou
a sentença dos búfalos.
As crianças crescem tanto, e continuam
tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra.
São eternas as crianças decepadas,
e lá embaixo da cama seus destroços
nem nos ferem a vista nem repugnam
a esse outro ser blindado que desponta
de sua própria e ingênua imolação.
E porque subsistem, as crianças,
e boiam na íris madura a censurar-nos,
e constrangem, derrotam
a solércia dos grandes,
há em certos amores essa distância de um a outro
que separa, não duas cidades, mas dois corpos.
Perturbação de entrar
no quarto de nus,
tristeza de nudez que se sabe julgada,
comparação de veia antiga a pele nova,
presença de relógio insinuada entre roupas íntimas,
um ontem ressoando sempre,
e ciência, entretanto, de que nada continua e nem mesmo talvez exista.
Então nos punimos em nossa delícia.
O amor atinge raso, e fere tanto.
Nu a nu,
fome a fome,
não confiscamos nada e nos vertemos.
E é terrivelmente adulto esse animal
a espreitar-nos, sorrindo,
como quem a si mesmo se revela.
As crianças estão vingadas no arrepio
com que vamos à caça; no abandono
de nós, em que se esfuma nossa posse.
(Que possuímos de ninguém, e em que nenhuma região nos sabemos pensados,
sequer admitidos como coisas vivendo
salvo no rasto de coisas outras, agressivas?)
Voltamos a nós mesmos, destroçados.
Ai, batalha do tempo contra a luz,
vitória do pequeno sobre o muito,
quem te previu na graça do desejo
a pular de cabrito sobre a relva
súbito incendiada em línguas de ira?
Quem te compôs de sábia timidez
e de suplicazinhas infantis
tão logo ouvidas como desdenhadas?
De impossíveis, de risos e de nadas
tu te formaste, só, em meio aos fortes;
crescente em véu e risco; disfarçaste
de ti mesma esse núcleo monstruoso
que faz sofrer os máximos guerreiros
e compaixão infunde às mesmas pedras
e a crótalos de bronze nos jardins.
Ei-los prostrados, sim, e nos seus rostos
poluídos de chuva e de excremento
uma formiga escreve, contra o vento,
a notícia dos erros cometidos;
e um cavalo relincha, galopando;
e um desespero sem amar, e amando,
tinge o espaço de um vinho episcopal,
tão roxo é o sangue borrifado a esmo,
de feridas expostas em vitrinas,
joias comuns em suas formas raras
de tarântula cobra
touro verme
feridas latejando sem os corpos
deslembrados de tudo na corrente.
Noturno e ambíguo esse sorriso em nosso rumo.
Sorrimos também — mas sem interesse — para as mulheres bojudas que passam,
cargueiros adernando em mar de promessa
contínua.
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,
e espera.
Como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança.
De repente, sentimos um arco ligando ao céu nossa medula,
e no fundamento do ser a hora fulgura.
É agora, o altar está brunido
e as alfaias cada uma tem seu brilho
e cada brilho seu destino.
Um antigo sacrifício já se alteia
e no linho amarfanhado um búfalo estampou
a sentença dos búfalos.
As crianças crescem tanto, e continuam
tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra.
São eternas as crianças decepadas,
e lá embaixo da cama seus destroços
nem nos ferem a vista nem repugnam
a esse outro ser blindado que desponta
de sua própria e ingênua imolação.
E porque subsistem, as crianças,
e boiam na íris madura a censurar-nos,
e constrangem, derrotam
a solércia dos grandes,
há em certos amores essa distância de um a outro
que separa, não duas cidades, mas dois corpos.
Perturbação de entrar
no quarto de nus,
tristeza de nudez que se sabe julgada,
comparação de veia antiga a pele nova,
presença de relógio insinuada entre roupas íntimas,
um ontem ressoando sempre,
e ciência, entretanto, de que nada continua e nem mesmo talvez exista.
Então nos punimos em nossa delícia.
O amor atinge raso, e fere tanto.
Nu a nu,
fome a fome,
não confiscamos nada e nos vertemos.
E é terrivelmente adulto esse animal
a espreitar-nos, sorrindo,
como quem a si mesmo se revela.
As crianças estão vingadas no arrepio
com que vamos à caça; no abandono
de nós, em que se esfuma nossa posse.
(Que possuímos de ninguém, e em que nenhuma região nos sabemos pensados,
sequer admitidos como coisas vivendo
salvo no rasto de coisas outras, agressivas?)
Voltamos a nós mesmos, destroçados.
Ai, batalha do tempo contra a luz,
vitória do pequeno sobre o muito,
quem te previu na graça do desejo
a pular de cabrito sobre a relva
súbito incendiada em línguas de ira?
Quem te compôs de sábia timidez
e de suplicazinhas infantis
tão logo ouvidas como desdenhadas?
De impossíveis, de risos e de nadas
tu te formaste, só, em meio aos fortes;
crescente em véu e risco; disfarçaste
de ti mesma esse núcleo monstruoso
que faz sofrer os máximos guerreiros
e compaixão infunde às mesmas pedras
e a crótalos de bronze nos jardins.
Ei-los prostrados, sim, e nos seus rostos
poluídos de chuva e de excremento
uma formiga escreve, contra o vento,
a notícia dos erros cometidos;
e um cavalo relincha, galopando;
e um desespero sem amar, e amando,
tinge o espaço de um vinho episcopal,
tão roxo é o sangue borrifado a esmo,
de feridas expostas em vitrinas,
joias comuns em suas formas raras
de tarântula cobra
touro verme
feridas latejando sem os corpos
deslembrados de tudo na corrente.
Noturno e ambíguo esse sorriso em nosso rumo.
Sorrimos também — mas sem interesse — para as mulheres bojudas que passam,
cargueiros adernando em mar de promessa
contínua.
2 242
Carlos Drummond de Andrade
A Um Bruxo, Com Amor
Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trastejada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo,
de novo interrogando o céu e a noite.
Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.
Contas a meia-voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.
E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?
O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurrar alguma coisa
que não se entende logo
e parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
é Flora,
com olhos dotados de um mover particular
entre mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifraste íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de manhã nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?
Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que revolves em mim tantos enigmas.
Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trastejada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo,
de novo interrogando o céu e a noite.
Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.
Contas a meia-voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.
E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?
O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurrar alguma coisa
que não se entende logo
e parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
é Flora,
com olhos dotados de um mover particular
entre mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifraste íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de manhã nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?
Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que revolves em mim tantos enigmas.
Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.
925
Carlos Drummond de Andrade
Passagem da Noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
1 390
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 159
António Ramos Rosa
Incluído
Algo volúvel lúdico involuntário
algo que se afasta e no entanto me rodeia
recebido pelo solo e por uns lábios dispersos
nascente sem começo porque nascida no meio do ar
constância subtil do que já não me foge
não a paciência mas a facilidade
incluído no grande bloco móvel e difuso
errante ignorante ao sabor do sem caminho
emudecido em diáfana lucidez
com o rosto lavado pelos perfumes da terra
nulo o sentido de tudo nulo e pleno
ouço o que me precede e me ilumina
a ausência é uma figura da presença inesgotável
tudo é fugaz e permanente tudo é evidente e imemorial
pertenço à fugidia origem
e desprendo-me e dissemino-me com o ar.
algo que se afasta e no entanto me rodeia
recebido pelo solo e por uns lábios dispersos
nascente sem começo porque nascida no meio do ar
constância subtil do que já não me foge
não a paciência mas a facilidade
incluído no grande bloco móvel e difuso
errante ignorante ao sabor do sem caminho
emudecido em diáfana lucidez
com o rosto lavado pelos perfumes da terra
nulo o sentido de tudo nulo e pleno
ouço o que me precede e me ilumina
a ausência é uma figura da presença inesgotável
tudo é fugaz e permanente tudo é evidente e imemorial
pertenço à fugidia origem
e desprendo-me e dissemino-me com o ar.
942
António Ramos Rosa
Mutação
Inacabado e sem saber
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
1 029
António Ramos Rosa
Ele
Quem era ele? Onde se encontrava ele?
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
1 138
António Ramos Rosa
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
600
António Ramos Rosa
Nas Evidências do Calor
Nas evidências do calor, reconheço a primazia do solo e os músculos pacientes dos caminhos. Cada acaso do meu campo vital, cada pulsação e cada sopro afirmam a força da terra e a resina das palavras. As evidências respiram em uníssono com o corpo harmonioso. Pelo fogo, pela cinza, pela seiva. Algo se nos oferece e nos interroga, algo nos aceita. Simples, soberana é a voz silenciosa do espaço. À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.
661
António Ramos Rosa
Enquanto Estamos Vivos
Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
963
António Ramos Rosa
Nasceu Para Ser Centelha
Nasceu para ser centelha
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
1 116
António Ramos Rosa
Livre E Perdido
Sei a fundura do não-saber: embriaguez perfeita. Como uma folha ou uma pedra ou uma sombra, eis que respiro sem uma ideia, sem uma forma, sem um começo. Não sou mais do que esta prolongada pausa evanescente, mas que se dilata e em si mesma se esconde como uma pedra. Nada tenho a dizer: sou um sopro, um esquecimento que estremece, uma sensação apenas, aérea, desprendida, total. Não fui nem serei, sou simplesmente um âmbito em que a fragilidade não é a fragilidade, e a leveza é a exacta leveza do desconhecido que respira através de mim, comigo. Estou claramente no abandono do obscuro, vivo no espaço, na liberdade simples do ar, ao nível do mínimo e do amplo, sem medidas seguras nem padrões conhecidos. Sou um astro apagado, liberto do seu fulgor, sem destino, sem órbita, mas verticalmente azul, entregue à ondulação de um absoluto que corre no sangue e à superfície da pele. Que embriagada é a fragilidade de estar vivo assim! Que deliciosamente inventada, que verdadeira é esta fuga no espaço, sereno e ébrio com o ar! Sem ilusões na ilusão mais completa, na mais viva, na mais aérea e elementar, sem palavras e com todas as palavras, sombras, pedras, folhas, estrelas, autos, animais, tudo aceso no apagamento interior onde tudo ressoa como liberdade interna, um voo frágil, incerto, vazio, mas viva e central plenitude prolongando-se, dissipando-se, repousando. Como se estivera na água e cego, vejo maravilhosamente as intensidades, as formas, os fluxos, os rios de sombra e luz, os caminhos flutuantes, a sombria folhagem que se dissipa, que renasce… Só, sem estar só, sou o âmbito natural, a inteligência vaga, ligeira, cúmplice do espaço. Ninguém me encontrará. Já não sou: sou o perdido no ar, no vazio: estou embriagado de ser.
1 220
António Ramos Rosa
No Círculo Total
Onde estou respiro e ardo. Nada sei. Sou a seiva incandescente do compacto. Mas a densidade coincide com a mais viva ligeireza. A grande massa móvel da folhagem insufla-me um sangue verde que me dá uma sensação aérea de imponderável vigor. Estou completo como uma onda do mar, como uma árvore, como um muro branco. A tranquilidade é absoluta. Ninguém responde, nada responde, é aqui o círculo total. Movimentos leves, movimentos fundos, movimentos obscuros e sempre aéreos, movimentos claros. O que outrora eram os deuses estende-se no esplendor das coisas e dos seres. Que magnífica dilatação de todo o espaço interno! Estou talvez no centro liberto. Sinto a realidade numa profusão harmoniosa que me inclui, que me abraça, que a mim vem e de mim rompe em tranquilos e ardentes jorros. Tudo o que vejo toco. O vento que perpassa nas folhas corre-me pelas veias e pelas fibras. Fibras de um corpo, fibras do universo, vibrando no universo. Suspenderam-se as interrogações, nada pode ser proclamado nem aclamado aqui. Estou no templo natural. Totalmente ébrio de uma totalidade em que repouso e vibro. Sou tudo aquilo em que estou. Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, as cores, os muros, as árvores e as casas adormecidas, rugosas, tudo, o todo inteiro, aqui, na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.
1 099
António Ramos Rosa
No Espaço
Vejo e respiro o azul como o sopro de um imenso animal. Inalterável, transparente, no seu mudo esplendor. Uma suavidade de pedra e de horizonte. Um voo suspenso que é todo o espaço e o majestoso fulgor de um espelho que é todo ar. Na profundidade do ar sou um animal do ar. Nudez da inocência, respiração do sol. Corpo sem sombra, sem segredo, íntimo, evidente, ardente, translúcido. Mundo volátil em expansão segura, mundo do princípio do desejo e da sua plenitude inicial. Em vez de palavras, a fragrância feliz e inexaurível de uma inocência solar. O sim do espaço, o sim do esquecimento.
1 206
António Ramos Rosa
Extremamente Nua
Extremamente nua. E através dela a sombra
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
1 080
António Ramos Rosa
Antes Que Tudo Seja
Por ela os animais entram tão íntimos e lentos
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
537
António Ramos Rosa
Encontro
Como nasceste? Amadurecia o mundo. Ó impaciência
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
1 022
António Ramos Rosa
A Palavra
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
1 087
António Ramos Rosa
Nascimento
Na sua pele azulada e branca de astros
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
1 075