Temas
Poemas neste tema

Vida

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Epílogo?

(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)

Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.

A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.

Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 451
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vejo que delirei.

Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esperança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!

                                (Expira)
1 400
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [b]

Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?

Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão

Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 550
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [b]

A PARTIDA

Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!

Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.

Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!

Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.

Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
 (...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.

Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
1 144
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [a]

A PARTIDA

Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.

Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.

Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.

Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
1 720