Poemas neste tema
Vida
Fernando Pessoa
O quê? Valho mais que uma flor
O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...
Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?
Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...
Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?
Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
1 600
Fernando Pessoa
Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.
Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo —
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?
O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?
Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?
Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.
Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.
Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo —
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?
O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?
Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?
Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.
Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.
1 390
Fernando Pessoa
Crucificado, / Não como Cristo numa mera cruz,
Crucificado,
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
1 249
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [3]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.
Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.
Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.
Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.
Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.
Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.
Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.
1 441
Fernando Pessoa
Sim, talvez tenham razão.
Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 610
Fernando Pessoa
Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Um destino parou; quantos, obtendo
Da meta inesperada
(...)
Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
Nem justos nem injustos
São os Deuses, senão outros.
O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
Dados, ora são desejos
Ora ao (...)
(...)
(...) esperanças breves;
Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.
Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
Salvo se a morte é cega
Do pó do (...)
Um destino parou; quantos, obtendo
Da meta inesperada
(...)
Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
Nem justos nem injustos
São os Deuses, senão outros.
O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
Dados, ora são desejos
Ora ao (...)
(...)
(...) esperanças breves;
Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.
Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
Salvo se a morte é cega
Do pó do (...)
1 052
Fernando Pessoa
Manhã que raias sem olhar a mim,
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
801
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
986
Fernando Pessoa
Enquanto ao longe os bardos perturbarem
Enquanto ao longe os bardos perturbarem
Com a dos seus combates longa lista
A parca e humilde chama
De cada flébil vida,
E nem um palmo mais sequer conquistam
De riqueza ou de calma em suas almas,
Nem são mais do que jogo
Da ira (...) dos deuses,
Quero, livre de humanas (...)
De concordância com o sentir de outros
Mais firmemente minha
Possuir minha vida.
Com a dos seus combates longa lista
A parca e humilde chama
De cada flébil vida,
E nem um palmo mais sequer conquistam
De riqueza ou de calma em suas almas,
Nem são mais do que jogo
Da ira (...) dos deuses,
Quero, livre de humanas (...)
De concordância com o sentir de outros
Mais firmemente minha
Possuir minha vida.
825
Fernando Pessoa
Passando a vida em ver passar a de outros,
Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
1 368
Fernando Pessoa
Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.
Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
1 512
Fernando Pessoa
Neste dia em que os campos são de Apolo
Neste dia em que os campos são de Apolo
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
1 465
Fernando Pessoa
Com que vida encherei os poucos breves
Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou a sombras?
À sombra de nós mesmos quantos homens
Inconscientes nos sacrificamos,
E um destino cumprimos
Nem nosso nem alheio!
Ó deuses imortais, saiba eu ao menos
Aceitar sem querê-lo, sorridente,
O curso áspero e duro
Da estrada permitida.
Porém nosso destino é o que for nosso,
Que nos deu a sorte, ou, alheio fado,
Anónimo a um anónimo,
Nos arrasta a corrente.
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou a sombras?
À sombra de nós mesmos quantos homens
Inconscientes nos sacrificamos,
E um destino cumprimos
Nem nosso nem alheio!
Ó deuses imortais, saiba eu ao menos
Aceitar sem querê-lo, sorridente,
O curso áspero e duro
Da estrada permitida.
Porém nosso destino é o que for nosso,
Que nos deu a sorte, ou, alheio fado,
Anónimo a um anónimo,
Nos arrasta a corrente.
963
Fernando Pessoa
Deram-me um cravo vermelho
Deram-me um cravo vermelho
Para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
Pela hora da saída.
Para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
Pela hora da saída.
1 812
Fernando Pessoa
Nem vã esperança vem, não anos vão,
Nem vã esperança vem, não anos vão,
Desesperança, Lídia, nos governa
A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
A comparada vida.
Desesperança, Lídia, nos governa
A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
A comparada vida.
1 450
Fernando Pessoa
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
1 019
Fernando Pessoa
Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
Deuses em quem o empregue.
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
Deuses em quem o empregue.
1 445
Fernando Pessoa
Pese a sentença igual da ignota morte
Pese a sentença igual da ignota morte
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
1 288
Fernando Pessoa
Amo o que vejo porque deixarei
Amo o que vejo porque deixarei
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
1 757
Fernando Pessoa
Cantos, risos e flores alumiem
Cantos, risos e flores alumiem
Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
Do caos redivivo.
Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
Do caos redivivo.
1 515
Fernando Pessoa
OPIARY
Life tastes to me like golden tobacco.
I have never done anything but smoke life.
After all of what use was it to me to have
Gone to the East and seen India and China?
The earth is similar and little
And there is only one way of living.
I pretended to study engineering.
I lived in Scotland. I visited Ireland.
My heart is a poor grandmother who goes about
Begging at the doors of Joy.
I am unfortunate by primogeniture.
The gipsies stole my luck.
Perhaps I shall not even find near death
A place to shelter me from my cold.
And I was a child like other people.
I was born in a Portuguese province,
And have met English people
Who say I speak English perfectly.
I have never done anything but smoke life.
After all of what use was it to me to have
Gone to the East and seen India and China?
The earth is similar and little
And there is only one way of living.
I pretended to study engineering.
I lived in Scotland. I visited Ireland.
My heart is a poor grandmother who goes about
Begging at the doors of Joy.
I am unfortunate by primogeniture.
The gipsies stole my luck.
Perhaps I shall not even find near death
A place to shelter me from my cold.
And I was a child like other people.
I was born in a Portuguese province,
And have met English people
Who say I speak English perfectly.
1 717
Fernando Pessoa
Deixaste cair no chão
Deixaste cair no chão
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
987
Fernando Pessoa
I love this world and all these men because
I love this world and all these men because
I shall not love them long. That we do die
I believe not, bound fast to higher laws,
But that we lose this world do not deny.
This light that in the sea makes many a light,
This breeze so soft when least we feel it most,
May be replaced by a diviner sight
Or by a truer breeze; but these are lost.
Like some strange trick of childhood that was ill
Yet had the childhood, in it I regret
Perchance in some far world sublime and stiIl,
The childhood that I never shall forget —
No, nor these toys of sense —this world, these men —,
Dear now when had because dear when lost then.
I shall not love them long. That we do die
I believe not, bound fast to higher laws,
But that we lose this world do not deny.
This light that in the sea makes many a light,
This breeze so soft when least we feel it most,
May be replaced by a diviner sight
Or by a truer breeze; but these are lost.
Like some strange trick of childhood that was ill
Yet had the childhood, in it I regret
Perchance in some far world sublime and stiIl,
The childhood that I never shall forget —
No, nor these toys of sense —this world, these men —,
Dear now when had because dear when lost then.
1 516
Fernando Pessoa
O Suspiro do mundo: - Vida, morte,
Vida, morte,
Riso, pranto
É o manto
Que me cobre.
Natureza,
Amor, beleza,
Tudo quanto
A alma descobre.
O Mistério
Deste mundo
Teu profundo
Olhar leu;
D'além dele —
Cerra a alma
De pavor! —
Venho eu.
Nada, nada
Já acalma
Tua dor.
Tu bem sabes
Ser minha voz
Mais atroz
De mudo horror
No que não diz,
E só tu sentes
E compreendes.
Cerra, infeliz
Cerra a (tua) alma
Ao meu pavor!
(Fausto, com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.)
Riso, pranto
É o manto
Que me cobre.
Natureza,
Amor, beleza,
Tudo quanto
A alma descobre.
O Mistério
Deste mundo
Teu profundo
Olhar leu;
D'além dele —
Cerra a alma
De pavor! —
Venho eu.
Nada, nada
Já acalma
Tua dor.
Tu bem sabes
Ser minha voz
Mais atroz
De mudo horror
No que não diz,
E só tu sentes
E compreendes.
Cerra, infeliz
Cerra a (tua) alma
Ao meu pavor!
(Fausto, com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.)
1 536