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Vida

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

40 - ELEVATION

Before light was, light's bright idea lit
        God's thought of it,
And, because through God's thought light's thought did pass,
        Light ever was,
And from beyond eternity became
        The living flame
That trembles into life and reddens with
        Our life's soul‑width.

Before light was, when yet the night was queen
        O'er what had been,
In God's realized prescience it could be
        Light from eternity,
For no time enters into God's thoughts or
        Their spaceless Hour.

Take thou therefore, my Song, from light the mood
        Of being, and brood,
Like the Dove unbegot, over the abyss
        Of consciousness,
Taking as thy true part that thought of God
        Whence light issued.

Let my words burst into that divine flame
        That lights its name
Of each thing from within with ultimate meaning.
        Though earth be screening
With fixed appearance the Sun in each Thing,
        Bear, on thy wing
High‑lifted, rays from the unrisen Sun
        Whence life is spun.

Soar out, my Song, out of despair and night
        And catch that light
Ere it appear, from neath the horizon
        Of action,
Borne out of dreams by intuition bright
        Of endless light.

Though none believe nor any understand,
        Yet feel thee fanned
With those breeze‑breaths that come up with the morn
        From the Unborn.
Soar like a lark into the coming day
        And bear thy way
Into the possibility of noon
        Hid in the dawn.

No matter that none know what thy words speak.
        A day shall break
Out of eternity as each day bright
        Out of each night.
Thy wings shall touch the slanting light of dawn
        And, upwards drawn
By being light‑struck, shall to light be near
        When light's yet far.

Hope is thy ready and high‑soaring flight
        Out of the night,
Joy is thy touching of the first high rays
        That day betrays,
Life is the course thy flight sequesters from
        Earth and its nightly doom,
And these three things are one in thy belief
        That pain is brief.

II

Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light,
        That yet art bright
With the epitome of the outer shine,
        Thou that art mine
And yet not mine but general to the earth,
        Wings of rebirth,
Whose song, though in me heard, participates
        Of all that all elates,
Thou point of meeting of me with the wings
        Hidden in all things,
Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of
        Some abstract love,
Thou exhalation of the prisoned flight
        Of all things' weight,
Thou that in me art fear, mad splendour, all
        To ache and enthral,

Attract me, take me, o pure flight, and rise
        With me in thine eyes,
Lost, cast, unpetalled and divine, up to
        What thou dost woo!

O Spirit‑Lark that wakest ere the morn
        And art reborn
At each recoming of the sun, and art
        The wiser part
Of all that message is to our low eyes
        Of what shall rise!
Life‑weightless Bird that no meads can attract,
        But that must act
Its fate in air, above our marshes sad
        And meads low‑laid,
In free heights communing with the Great Horn
        As yet unborn!
O sterile Bird that hast no nest nor home
        But what shall come,
That hast no song save in the heights above
        Nests, homes and love,
Nor any thought save for the coming day,
        Though far away
It seem to those who measure yet thy flight
        But by its height
And not by its intention, that is carried
        From life and married
To those diviner hours that winged things
        Find with their wings!
O Bird of ruthless song and untold wishes,
        Whose high flight reaches
Heights not of earth, but of pure air, encumbered
        With no joys weighed and numbered!
Take all my heart in thy purpose of going
        And make the flowing
Down to earth of my song be like thy song,
        Something strange, strong
With distance, eerily half‑perishing
        From farness! Sing,
And let my heart be what thou meanst with singings
        My life with winging.
My hopes and fears with th’tone wherewith thy note
        To me doth float
And the great purpose hidden in my fate
        With thy mere height!

My heart shall thus be happy even if pained,
        Free even if strained
To keep that height of joy whence tremble down
        Thy songs to our own.
My soul may thus be happy, full and free.
        Oh, happily
Raise me from me and lift my life unto
        That thou dost woo -
The light, the sky, the distance and the morn,
        Till I be unborn
Again to pure dispersion in the seas
        Of the high breeze
That speaks to thee, ere light be born, of light,
        Till the delight
Of without being being shall make me
        Song and sky be!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CUL DE LAMPE

CUL DE LAMPE

Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.

Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?),
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem...
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei.

Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.

(Não, não vou acabar
Ainda...
Não vou acabar.
Acabei.)

Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.

Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo,
Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão
Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora tudo cocaína...
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porta p'ra tudo!

Porta p'ra tudo!
Ponte p'ra tudo!
Estrada p'ra tudo!
Tua alma omnívora e (...)
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo , sexo , Texas, Carolina, Nova Iorque,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
Pum! pum! pum! pum! pum!
PUM!

Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objecto, o activo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objectos que se imaginem e és tu!
Tu Hora.
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação ida, desfraldamento,
lntercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensações a alma-quilómetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo. PUM!

E todos estes ruídos naturais, humanos, de máquinas
Todos eles vão juntos, tumulto completo de tudo,
Cheios de mim até ti, saudar-te
Cheios de mim até ti,
Vão gritos humanos, vão [...] de terra,
Vão os volumes dos montes,
Vão os rumores de águas,
Vão os barulhos da guerra,
Vão os estrondos da (...), os (...) da (...)
Vão os ruídos dos povos em lágrimas,
Vão os sons débeis dos ais no escuro
E vão mais cerca da vida, rodeando-me,
Prémio melhor do meu saudar-te
Os ruídos, cicios, assobios dos comboios
Os ruídos modernos e das fábricas,
Som regular,
Rodas,
[...],
Hélices
Pum...
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por isso é a ti que endereço

Por isso é a ti que endereço
Meus versos saltos, meus versos pulos , meus versos espasmos,
Os meus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro (...) dos meus nervos.

Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me-de-pé me-exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.

Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!

Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!

Não quero intervalos no mundo!
Quero a contiguidade penetrada e material dos objectos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!

Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado até...
Abstracto auge no fim de mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!

Ponham-me grilhetas só para eu as partir!
Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmódico a sangue, da vida!

Os marinheiros levaram-me preso.
As mãos apertaram-me no escuro.
Morri temporariamente de senti-lo.
Seguiu-se a minh’alma a lamber o chão do cárcere-privado,
E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte.

Pula, salta, toma o freio nos dentes,
Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!
Salta, pula, embandeira-te,
Deixa a sangue o rasto na imensidade nocturna ,
A sangue quente, [mesmo de longe?],
A sangue fresco [mesmo de longe?].
A sangue vivo e frio no ar dinâmico a mim!
Salta, galga, pula,
Ergue-te, vai saltando, (...)
940
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO: Febre! Febre! Estou trémulo de febre

FAUSTO:
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
                (foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
                (estende a mão)
                                        Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
                (arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
                VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
                FAUSTO:
                                Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
                VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
                FAUSTO:
                                        Este
Quer (...) fins.
                (bebe sofregamente)
                E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
                (cai no chão)
                VELHO:
        Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
                (Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
                (exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
                VELHO:
                                Esfriarão.
                FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
                VELHO:
                                        Virá
                VELHO:
Dentro em breve o sossego.
                FAUSTO:
                                Por que o dizes?
                VELHO:
A outros veio!
                FAUSTO:
                        A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
                (Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
                (pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
                VELHO:      
                        Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
                FAUSTO:    
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
                (Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
                VELHO:
                        Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
                FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
                VELHO:
                                Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
                FAUSTO:
Como diverso na intenção?
                VELHO:
                                        Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
                FAUSTO:
                                E tu...
                VELHO:                   
                                        Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
                FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
                VELHO:
(...)
                FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
                VELHO:
                   Não to dou.
                FAUSTO:
                                     O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
                VELHO:
                                Não to dou.
                FAUSTO:
O filtro.
                VELHO:
            Não to posso dar.
                FAUSTO:
                                       O filtro.
                VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
                FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
                VELHO:
                                Mas não posso.
                FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
                VELHO:
                                        Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
                (Fausto levanta do punhal e fells him)
                (após matar)
                FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.

Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
                (pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.

Procuremos o filtro.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Futilidade, irrealidade, (...) estática de toda a arte,

Futilidade, irrealidade, (...) estática de toda a arte,
Condenação dos artistas a não viver!

Ó quem nos dera, Walt,
A terceira coisa, a média entre a arte e vida
A coisa que sentiste, e não seja estática nem dinâmica,
Nem real nem irreal
Nem nós nem os outros —
Mas como até imaginá-la?
Ou mesmo apreendê-la
Mesmo sem a esperança de não a ter nunca?

A dinâmica pura, a velocidade em si,
Aquilo que dê absolutamente as coisas,
Aquilo que chegue tactilmente aos sentidos,
Construamos comboios, Walt, e não os cantemos,
Cavemos e não cantemos, meu velho, o cavador e o campo,

Provemos e não escrevamos,
Amemos e não construamos,
Metamos dois tiros de revólver na primeira cabeça com chapéu
E não façamos onomatopeias inúteis e vãs no nosso verso
No nosso verso escrito em prosa, e depois [....].

Poema que esculpisse em Móvel e Eterno a escultura,
Poema que (...)se palavras
Que (...) ritmo o canto, a dança e (...)
Poema que fosse todos os poemas,
Que dispensasse bem outros poemas,
Poema que dispensasse a Vida.
Irra, faço o que quero, estorça o que estorça no meu ser central,
Force o que force em meus nervos industriados a tudo,
Maquine o que maquine no meu cérebro furor e lucidez,
Sempre me escapa a coisa em que eu penso,
Sempre me falta a coisa que (...) e eu vou ver se me falta,
Sempre me falta, em cada cubo, seis faces,
Quatro lados em cada quadrado do que quis exprimir,
Três dimensões na solidez que procurei perpetuar...
Sempre um comboio de criança movido a corda, a corda,
Terá mais movimento que os meus versos estáticos e lidos,
Sempre o mais verme dos vermes, a mais química célula viva
Terá mais vida, mais Deus, que toda a vida dos meus versos,
Nunca como os duma pedra todos os vermelhos que eu descreva,
Nunca como numa música todos os ritmos que eu sugira!
Nunca como (...)
Eu nunca farei senão copiar um eco das coisas,
O reflexo das coisas reais no espelho baço de mim.

A morte de tudo na minha sensibilidade (que vibra tanto!)
A secura real eterna do rio lúcido da minha imaginação!
Quero cantar-te e não posso cantar-te, Walt!
Quero dar-te o canto que te convenha,
Mas nem a ti, nem a nada, — nem a mim, ai de mim! — dou um canto...
Sou um surdo-mudo berrando em voz alta os seus gestos,
Um cego fitando à roda do olhar um invisível-tudo

Assim te canto, Walt, dizendo que não posso cantar-te!
Meu velho comentador da multiplicidade das coisas,
Meu camarada em sentir nos nervos a dinâmica marcha
Da perfeita físico-química da
Da energia fundamental da aparência das coisas para Deus,
Da distinta forma de sujeito e objecto para além da vida

Andamos a jogar às escondidas com a nossa intenção...
Fazemos arte e o que queremos fazer afinal é a vida.
O que queremos fazer já está feito e não está em nós fazê-Io,
E fá-lo o [...] melhor do que nós, mais de perto,
Mais instintivamente [...]
Sim, se o que nos poemas é o que vibra e fala,
4O mais casto gesto da vida é mais sensual que o mais sensual dos poemas,
Porque é feito por alguém que vive, porque é (...) porque é Vida.
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