Lista de Poemas

A Pantera

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
8 424

O Poeta

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: que fazer da boca, agora?
Que fazer do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
1 955

A noite vem buscar secretamente

A noite vem buscar secretamente
através das dobras das cortinas
brilho de sol esquecido em teu cabelo.
Olha, nada mais quero que não seja
ter entre as minhas tuas mãos , e ser
tranqüilo e bom, todo cheio de paz.

Fazes-me crescer a alma que estilhaça
o dia-a-dia em cacos; e assim ganha
uma amplitude que é milagre teu:
Nos seus molhes de aurora vão morrer
as primeiras ondas de infinidade
2 153

Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra

 

18

A fama é a quintessência dos mal-entendidos que se juntam a um nome.

 

41

Minha vida

não é esta hora abrupta
em que me vês tão açodado.
Sou uma àrvore em frente do meu fundo,
sou só uma das minhas muitas bocas
e,delas,a que mais cedo se fecha.
Sou o silêncio
que há entre duas notas
que só a custo se acostumam uma à outra:
porque a da morte quer elevar-se-
Mas no intervalo
escuro se congraçam
ambas trémulas.
E a melodia é bela.
1 526

Solidão

Não:
uma torre se faça do meu peito
e eu próprio seja posto à sua beira:
onde nada mais há,haja inda uma vez dores
e inefabilidade,mais uma vez mundo.
Mais uma coisa
só no desmedido,
que se faz escura e de novo se ilumina,
mais uma última,ansiosa face,
repelida para o nunca-alcalmável,
mais uma extrema
face de pedra,
dócil aos seus pesos interiores,
que as amplidões,que serenamente a aniquilam,
obrigam a ser sempre mais feliz.

(tradução
de Paulo Quintela)

1 690

A hora inclina-se

A hora inclina-se
e toca-me
com golpe claro,metálico:
Tremem-me os sentido.Sinto : eu posso-
e agarro o dia plástico.
Nenhuma coisa
era perfeita antes de eu a olhar,
todo o devir parara.
A cada um dos meus olhares,agora já maduros,
vem,como noiva,a coisa apetecida.
Nada é
pequeno para mim,e amo-o apesar de tudo
e pinto-o em fundo de ouro,e grande,
e ergo-o ao alto,e não sei a quem
libertará a alma...
1 296

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Identificação e contexto básico

Rainer Maria Rilke foi um poeta de origem austro-húngara, naturalizado posteriormente em outros países. Nasceu em Praga, na altura parte do Império Austro-Húngaro, e escreveu em alemão. A sua obra reflete a influência do contexto cultural europeu do final do século XIX e início do século XX, um período de profundas transformações artísticas, filosóficas e políticas.

Infância e formação

A infância de Rilke foi marcada por uma relação complexa com a sua mãe e pela sua educação militar inicial, da qual desistiu para seguir os seus interesses literários. Frequentou a universidade em Praga, Munique e Berlim, onde estudou história da arte e filosofia. Absorveu influências de poetas como Goethe, Nietzsche e poetas simbolistas franceses. A sua juventude foi um período de intensa busca intelectual e artística.

Percurso literário

Rilke começou a publicar poesia na sua adolescência. O seu percurso literário é marcado por uma evolução estilística notável, desde os primeiros poemas mais românticos e simbolistas até à maturidade das "Elegias de Duíno" e "Sonetos a Orfeu". A sua obra é extensa e inclui poesia, prosa, cartas e ensaios. Viveu grande parte da sua vida em viagens pela Europa, o que lhe proporcionou um contacto vasto com diferentes culturas e artistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais célebres de Rilke incluem "As Horas Poéticas" (1899), "O Livro de Horas" (1905), "Nova Poesia" (1907), "As Elegias de Duíno" (1912-1922) e "Sonetos a Orfeu" (1922). Os temas dominantes na sua poesia são a existência, a mortalidade, a arte, a beleza, Deus, a natureza, os animais, os objetos e a experiência do transcendente. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem extraordinariamente precisa e imagética, um ritmo musical e a capacidade de dar voz a objetos e experiências de forma profundamente introspectiva. A sua voz poética é frequentemente meditativa, existencial e universal. Rilke é um mestre na criação de metáforas e símbolos, explorando a relação entre o interior e o exterior, o visível e o invisível. A sua obra dialoga com a tradição simbolista e a filosofia existencial, mas inova pela profundidade psicológica e pela originalidade das suas imagens.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Rilke viveu num período de grande efervescência cultural na Europa, interagindo com artistas e pensadores como Auguste Rodin, Paul Cézanne, Paul Valéry e André Gide. A sua obra reflete as ansiedades e as buscas espirituais do início do século XX, um tempo de guerras e profundas mudanças sociais. Pertenceu a uma geração de poetas que procuravam reinventar a linguagem poética e explorar novas formas de expressar a experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Rilke teve uma vida marcada por viagens constantes e por relacionamentos intensos, embora por vezes distantes. A sua relação com a arte e a necessidade de solidão para criar foram centrais na sua vida. Teve ligações importantes com figuras como Lou Andreas-Salomé e Clara Westhoff, a sua esposa. A sua busca por um sentido para a existência e para a arte moldou a sua vida pessoal e a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Rilke como um dos grandes poetas da língua alemã foi gradual, mas hoje é incontestável. A sua obra "Elegias de Duíno" e "Sonetos a Orfeu" são consideradas marcos da poesia moderna. A receção crítica tem sido universalmente positiva, destacando a sua profundidade filosófica, a beleza formal e a originalidade da sua visão.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Rilke foi influenciado por poetas como Goethe e por filósofos como Nietzsche. O seu legado é imenso: influenciou inúmeros poetas e escritores em todo o mundo, sendo traduzido para as mais diversas línguas. A sua obra continua a ser estudada e admirada pela sua capacidade de abordar as questões fundamentais da existência humana com uma linguagem de rara beleza e precisão.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Rilke tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas, focando-se nos seus temas existenciais, espirituais e estéticos. A sua poesia convida a uma meditação profunda sobre a vida, a morte, a arte e a relação do indivíduo com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é a sua relação com o escultor Auguste Rodin, de quem foi secretário por um período, experiência que influenciou a sua conceção do objeto poético. O seu interesse pelos objetos e a forma como lhes atribuía vida e significado são aspetos fascinantes da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Rainer Maria Rilke faleceu em Montreux, na Suíça, vítima de leucemia. A sua morte deixou um vazio na literatura mundial, mas o seu legado poético permanece vivo e influente. Publicações póstumas, incluindo cartas e poemas inéditos, continuam a enriquecer o conhecimento sobre a sua obra e o seu pensamento.