Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

n. 1979 PT PT

Raquel Nobre Guerra é uma poeta contemporânea portuguesa cujo trabalho se destaca pela intensidade lírica e pela exploração de temas como o corpo, o desejo, a violência e as relações humanas. A sua poesia, muitas vezes crua e direta, aborda a fragilidade da existência e a complexidade da experiência feminina, com uma linguagem que privilegia a força imagética e a concisão expressiva.

n. 1979, Lisboa

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Pura

esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo

esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém
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Biografia

Identificação e contexto básico

Raquel Nobre Guerra é uma poeta portuguesa contemporânea, nascida em Lisboa. A sua obra tem sido publicada em Portugal e tem vindo a ganhar reconhecimento no panorama literário atual. Escreve em português.

Infância e formação

A formação de Raquel Nobre Guerra, embora não detalhada publicamente, é refletida na sua obra pela maturidade temática e pela profundeza da sua exploração da condição humana, especialmente no que concerne à experiência feminina.

Percurso literário

O percurso literário de Raquel Nobre Guerra tem sido marcado pela publicação de livros de poesia que lhe conferiram visibilidade e a estabeleceram como uma voz importante na poesia portuguesa contemporânea. A sua emergência no cenário literário é relativamente recente, mas já demonstra um impacto significativo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Raquel Nobre Guerra incluem 'A Tatuagem' (2015), 'Nós que Amamos Demais' (2017) e 'Um Dia o Amor' (2020). A sua poesia aborda temas como o corpo, o desejo, a dor, a violência, as relações de poder e a busca por identidade, frequentemente com um olhar sobre a experiência feminina. O seu estilo é caracterizado pela crueza, pela linguagem direta e por uma forte carga imagética. Utiliza o verso livre e uma estrutura concisa, privilegiando a intensidade emocional e a exploração de conflitos internos e interpessoais. A voz poética é, muitas vezes, visceral e confrontadora.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Raquel Nobre Guerra insere-se no contexto da poesia portuguesa contemporânea, um período marcado pela diversidade de vozes e estilos. A sua obra dialoga com as preocupações sociais e existenciais da atualidade, abordando temas que ressoam com a sociedade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Raquel Nobre Guerra não são amplamente divulgadas, mas a sua obra revela uma profunda sensibilidade e um olhar atento sobre as complexidades das relações humanas e da experiência individual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Raquel Nobre Guerra tem crescido, sendo a sua obra elogiada pela crítica pela originalidade, pela força expressiva e pela capacidade de abordar temas difíceis com honestidade e impacto. Tem vindo a consolidar o seu lugar na poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Raquel Nobre Guerra reside na sua capacidade de dar voz a experiências e emoções muitas vezes silenciadas, com uma linguagem poética potente e contemporânea. A sua obra contribui para a diversidade e para a renovação da poesia em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Raquel Nobre Guerra tem sido interpretada como uma exploração da vulnerabilidade, da força e da complexidade da condição feminina, abordando a tensão entre o desejo, a dor e a resiliência. A sua poesia desafia o leitor a confrontar aspetos íntimos e sociais da existência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A aparente dicotomia entre a suavidade do nome 'Raquel Nobre Guerra' e a intensidade, por vezes, crua da sua poesia, pode ser um aspeto interessante a considerar.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, não há registos de morte para Raquel Nobre Guerra, indicando que a sua carreira literária está ativa.

Poemas

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Uma vez ofereceste-me bananas

Uma vez ofereceste-me bananas
flores para ti, vinha escrito.

Percebo bem a inutilidade da poesia
como de resto a literatura que finge
a mínima desordem dos mundos
o que importa é fingir uma pose.

Explico.

O mais extremo acto de egoísmo:
ter a dimensão própria da caricatura
e endossá-la aos outros.

O que toca a afinal e a quem, que sejamos sinistros?
E o amor um candeeiro de rua frouxo que à nossa passagem se desliga.

Dou conta dos perecíveis.

De ti sabe-se que tinhas um jeito especial
de dar bailinho aos deuses com as mãos
enquanto eu de nariz espetado nesse cima
preferia o abandono onde nada me faltava.

Entendo agora que as bananas dormem com as tuas mãos debaixo da terra e que o nosso amor flutua ainda na calcite.

O mundo, seja como for, cabe nisto.

E eu corro para casa com um bouquet de flores mas tu não estás.

Nada que não estivesse previsto,
heartbreakers, love comes in spurts.
1 018

Quanto de Areia e Brita

os nossos mestres estão mortos insisto
não exagero que perdemos coragem
até à mãe que pariu isto da beata vita

deram-nos a cruz latada por onde o diabo trepa
separando por jóias os ocidentais dramas
tudo indica que fosse templo de uma reza trena
um still mudo que dissesse que é urgente tocar
à dura-máter do zoo genético, digo

aos que juram que hão-de salvar isto pela literacia
dêem-me as vossas azias cubro-as de cimento quente
esvazio-vos as barrigas, se havemos de nos ler todos
por mãos gitanas

lembrando a médica teórica da mesótes
foi o oráculo enganando que se enganou
estava torto etc, sublinhe-se a morta facilita
a cerveja assiste no limbo perfeito dos deuses
e seus anexos suicidas

torceram-nos ainda as mãos como molhando-as
sobre a cama não é certo o que dormir
e uma presença de coisas exuberando não chega
para que se imponha ao homem a própria vida

adunámos corpo a corpo multiplicámos fornicámos
até ser virgem a porcaria

deitámo-nos fora com um murro sensualmente
e abrimos as persianas sobre isto

muitos paraísos seguidos de paraísos e muita merda
a cobrir-nos por cima
1 287

deus por cima

deus por cima
o grande abandono
1 260

Pelicano

enquanto o teu nome não for um estado restrito
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro do Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em Deus
por mim

Enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi

que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio -
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como um texto
e sacro
1 491

Não foi preciso muito

Não foi preciso muito para que a cidade
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.

Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.

Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.

Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.

Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.

É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.

E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:

I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters

Ficas a dever-me uma.
600

Vir às mãos / Aforismos terceiros

subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
1 313

Biqueirões Caseiros

para beber o abismo deve-se bebê-lo líquido
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima

deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui

é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos

é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -

comecemos delicadamente pelo topo
1 296

resistimos a todas as noites

resistimos a todas as noites não à nossa
tudo indica que se insinua levita até
uma primavera vulpe a que se somam
detalhes médicos gongóricos e um tanto

da metafísica para desatar esta malha em rodilha
uma oração disposta a todas as misérias
um golo certo para abrandamento cardíaco
mas continuamos gente, singular detalhe

paramos arrefecemos

neste mistério participado, entrelaço de que seguramos
firme a ponta para que nela recaia a substância
de efeitos mágicos

morremos, nós que morremos tão apenas
na hora conciliadora de todas as agulhas
de bordalo indiferente ao dedilhado

e desenrolamo-nos todos no chão
1 267

É evidente que nos mentem

É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)

Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.

Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.

Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.

Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.

Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.

Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.

E estava certo.

Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
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Quem nunca hesitou

Quem nunca hesitou na paragem do 28
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.

Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.

Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino
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Uma poesia de boa estirpe - severa, mas com porta aberta para uma visão larga de uma sociedade cada vez mais fechada em seu desespero de filha da Mãe-Pressa.

anjocaido333

escreve-se para dar forma ao medo e abrandar-lhe o peso. ( bom)