Lista de Poemas

Cobra Norato

(fragmentos)

I
Um dia
ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim.

Vou andando, caminhando, caminhando;
me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes.
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato.

— Quero contar-te uma história:
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar.

A noite chega mansinho.
Estrelas conversam em voz baixa.

O mato já se vestiu.
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a cobra.

Agora, sim,
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo:

Vou visitar a rainha Luzia.
Quero me casar com sua filha.

— Então você tem que apagar os olhos primeiro.
O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas.
Um chão de lama rouba a força dos meus passos.

II
Começa agora a floresta cifrada.
A sombra escondeu as árvores.
Sapos beiçudos espiam no escuro.

Aqui um pedaço de mato está de castigo.
Árvorezinhas acocoram-se no charco.
Um fio de água atrasada lambe a lama.

— Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!

Agora são os rios afogados,
bebendo o caminho.
A água vai chorando afundando afundando.

Lá adiante
a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia.

— Agora sim, vou ver a filha da rainha Luzia!

Mas antes tem que passar por sete portas
Ver sete mulheres brancas de ventres despovoados
guardadas por um jacaré.

— Eu só quero a filha da rainha Luzia.

Tem que entregar a sombra para o bicho do fundo
Tem que fazer mironga na lua nova.
Tem que beber três gotas de sangue.

— Ah, só se for da filha da rainha Luzia!

A selva imensa está com insônia.

Bocejam árvores sonolentas.
Ai, que a noite secou. A água do rio se quebrou.
Tenho que ir-me embora.

E me sumo sem rumo no fundo do mato
onde as velhas árvores grávidas cochilam.

De todos os lados me chamam:
— Onde vai, Cobra Norato?
Tenho aqui três árvorezinhas jovens, à tua espera.

— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.

IV
Esta é a floresta de hálito podre,
parindo cobras.

Rios magros obrigados a trabalhar.

A correnteza arrepiada junto às margens
descasca barrancos gosmentos.

Raízes desdentadas mastigam lodo.

A água chega cansada.
Resvala devagarinho na vasa mole
com medo de cair.

A lama se amontoa.

Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé.

Fede...

Vento mudou de lugar.

Juntam-se léguas de mato atrás dos pântanos de aninga.
Um assobio assusta as árvores.

Silêncio se machucou.

Cai lá adiante um pedaço de pau seco:
Pum

Um berro atravessa a floresta.

Correm cipós fazendo intrigas no alto dos galhos.
Amarram as árvorezinhas contrariadas.

Chegam vozes.

Dentro do mato
pia a jurucutu.

— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.

XXXII
— E agora, compadre,
eu vou de volta pro Sem-Fim.

Vou lá para as terras altas,
onde a serra se amontoa,
onde correm os rios de águas claras
em matos de molungu.

Quero levar minha noiva.
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar,
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor.

Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém.
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem, bem;

Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu,
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar,

E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
eu hei de contar histórias
(histórias de não-dizer-nada)
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar.

13 593

Coco de Pagu

Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.

Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

10 303

Monjolo

Chorado do Bate-Pilão

Fazenda velha. Noite e dia
Bate-pilão.

Negro passa a vida ouvindo
Bate-pilão.

Relógio triste o da fazenda.
Bate-pilão.

Negro deita. Negro acorda.
Bate-pilão.

Quebra-se a tarde. Ave-Maria.
Bate-pilão.

Chega a noite. Toda a noite
Bate-pilão.

Quando há velório de negro
Bate-pilão.

Negro levado pra cova
Bate-pilão.

3 879

Comentários (9)

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SARA CIRINO MORO EM CARNAIBA-PE
SARA CIRINO MORO EM CARNAIBA-PE

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Identificação e contexto básico

Raul Bopp foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro, nascido em 1905. É uma das figuras mais importantes da segunda fase do Modernismo brasileiro, conhecido principalmente por sua obra "Cobra Norato" (1931), um poema longo e experimental que explora a mitologia amazônica e a linguagem.

Infância e formação

Nascido no Rio Grande do Sul, sua formação inicial ocorreu em um ambiente propício ao desenvolvimento de suas ideias. A absorção de diferentes correntes culturais e artísticas, bem como o contato com a literatura de vanguarda, foram fundamentais para sua trajetória.

Percurso literário

Raul Bopp despontou como um dos principais nomes do Modernismo brasileiro. Seu início na escrita poética se deu no contexto da efervescência cultural da época, com a publicação de "Cobra Norato" como um divisor de águas em sua carreira. Sua evolução literária foi marcada pela ousadia formal e temática, consolidando-o como um inovador.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Raul Bopp é marcada pela inovação formal e temática. Em "Cobra Norato", ele recria o mito da Vitória Régia e explora a rica mitologia da Amazônia, utilizando uma linguagem que mescla o português com termos indígenas e criações lexicais. Seu estilo é experimental, com verso livre, ritmo intenso e uma musicalidade peculiar. A voz poética em Bopp é muitas vezes épica e mítica, buscando resgatar e reinterpretar as raízes culturais brasileiras. A densidade imagética e o uso de recursos retóricos inovadores são marcas registradas. Ele dialoga com a tradição, mas busca romper com ela, impulsionando a modernidade literária no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Raul Bopp viveu e produziu em um período de grande efervescência cultural e política no Brasil, o Movimento Modernista, que buscava redefinir a identidade nacional. Sua obra está inserida na segunda geração modernista, conhecida como "Geração de 30", que se aprofundou nas questões sociais e regionais do país. Ele manteve contato com outros escritores e intelectuais importantes da época, participando ativamente dos debates culturais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Bopp teve uma vida ativa no meio cultural, atuando também como jornalista e crítico. Sua relação com a Amazônia, tema central de sua obra mais conhecida, foi intensa e influenciou profundamente sua produção poética. Detalhes de sua vida pessoal contribuem para a compreensão de sua visão de mundo e de suas escolhas artísticas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção "Cobra Norato" foi um marco e, apesar de sua complexidade, garantiu a Raul Bopp um lugar de destaque na história da literatura brasileira. A receção crítica de sua obra foi inicialmente marcada pela surpresa e pelo debate, mas, com o tempo, consolidou seu reconhecimento como um dos poetas mais originais e importantes do Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Raul Bopp foi influenciado por poetas vanguardistas europeus e por manifestações culturais brasileiras. Seu legado é imenso, especialmente pela forma como abordou a Amazônia e a linguagem, abrindo caminhos para novas experimentações na poesia brasileira e influenciando poetas posteriores que buscaram explorar a identidade e as raízes culturais do país.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bopp, especialmente "Cobra Norato", é rica em possibilidades de interpretação, abordando temas como a nacionalidade, o mito, a oralidade e a própria linguagem. As análises críticas frequentemente exploram a dimensão antropofágica de sua poesia, a recriação do discurso mítico e a profunda brasilidade de sua expressão.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Raul Bopp foi também um importante jornalista e cronista, e sua ligação com a Amazônia foi tão forte que ele se dedicou a estudar a região em profundidade. A forma como incorporou elementos da cultura e da fala amazônicas em sua poesia é um dos aspectos mais fascinantes e inovadores de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Raul Bopp faleceu em 1987, deixando um legado poético inestimável. Sua obra continua a ser estudada e celebrada, mantendo viva a memória de um dos poetas mais audaciosos e representativos do Modernismo brasileiro.