Para Quando
Para quando o fim desta mania
De acreditar em sonhos acordados
Impossíveis?
Para quando a manhã de sol
Para quando o nunca
Seja ontem?
Para quando o amanhã
O despertar
Do sempre?
Mensagem Impossível
Há palavras
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
Que País
Que país
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
Árvore de Frutos
Cheiras
ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.
Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.
No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.
Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
Luanda
Aqui reside tudo
E todos
Germinam as raízes todas
Aqui está cada um dos braços e dos rostos
Dum só corpo que anda sobre o vento
Navega os céus e toda a geografia
Desde a minha aldeia e do meu povo
Desce o campo refugia-se na cidade
Das ruínas às pontes de margens ansiosas
Tarda o abraço
Demora o dia das horas sucessivas
Sem paragem
No tempo de memórias tristes
Aqui estamos e estaremos
Porque somos
Mais do que pó e húmus
Unida essência dum jardim de vida
Morremos várias vezes no percurso
Mas seremos sempre
Capazes de chegar
à vida
Porque somos todos, somos um
Em cada um
Dos pontos cardeais
Deste país.
Frio Intempestivo
Está ventando,
ventando muito
Sinto incomodar-me a fria brisa
Sinto esfriarem-se minhas mãos
Enquanto as folhas arrastando-se
são levadas, poeiras nesses vãos..
Sinto forte frio percorrer-me
Como um vento agudo, perspicaz
Que me quer correr todas as veias
Nunca o senti assim ávido, jamais!
Frio estranho que sequer parece
Vir de fora, cobrir o horizonte
Parecendo me nevar a fronte
Estremecer-me de tanto medo.
Frio estranho, irresistível
A mim me tornando sensível
Desfazendo minha armadura
Essa película meio nublada
Que encobre minha fraqueza
E me torna um tanto escura.
É frio forte, é vento gélido
quebra todo o forte de mim mesma
Meu ânimo se desfaz em lesma
Já nem sei se isto é simples frio
Se isto é apenas forte desânimo
Sei que se me abate, se me quebra
de mim a força, de mim o ânimo.
Vôo com pouso certo
O sono
venceu a vigília
Também ele quebrou a dor
O silêncio que o pensamento
Ocupava por distração
Breve os olhos se fecharam
por trás das pálpebras cerradas
Os sentidos esvaneceram
As idéias, no quarto, pereceram
Deram sua vez à solidão.
O sono caiu beneplácito
Vindo como bom agasalho
a um real entristecido
quebrando na luz apagada
o dia que já tinha morrido.
Eu nunca pensara no sono
como um bem tão inocente
como um toldo que à dor, à ânsia
encobre essa tristeza que
da noite só quer o seu fim.
E ainda como simples prêmio
Vêm os sonhos nos superar
Uma fantasia que intercepta
a nossa vontade de acordar.
Autocrítica
Aqui,
a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
ah! minhas palavras minhas!
Memória
Cheira
a café de manhã
Cheira a assados ao meu dia
Cheira a doce à tarde
À noite, a chuva cai.
Vem então o cheiro
Mistura de tantos outros
Que o dia transportou
Deixando neste último
o que melhor / pior passou.
Dele a memória guarda
a permanência daquele dia
Soma-se ainda a ele
o cheiro da chuva fria.
Ah, o fugaz olfato
Esse sentido que absorve
Das paixões a lembrança
Trazidas tão de repente
Num cheiro, o doce contente
ou o azedo inconformado
o perfume inesperado
exalando, às vezes, saudade!
Dulcíssima brevidade
Só o olfato se apercebe
Que todo segundo passa
Por esse ar que a gente bebe
E que só em nós se guarda
Quando uma semente solta
Dele em nós se embebe.
A Estrada é um Matagal
A estrada é um matagal
Gretado
Não leva ninguém mais
Às minhas referencias
Elas restam
Onde persiste
A memória apunhalada dos meus olhos
Mesmo as pedras tumulares
Dos antigos sobados de Emanha
Não bastam para esquecer
As quarenta labaredas dos seus corpos fechados
No aramazém - forno de zinco
Tábuas de loncha e adobes rebocados
De fora disparava a noite
Aos tambores de combustível
Diante da porta e das janelas gradeadas
Armazém transformado em crematório
Os galos em silencio
Ouviam
Outros galos cantavam a metralha.