Lista de Poemas

A Tanatus

Que gosto tem, no final da tarde, cálida criatura,
tornar-se a figura que assusta minhalma
dando fim a toda a minha calma,
e se afastar levando consigo a última parede do meu abrigo?

Seus olhos são archotes fumegantes de pavor.
Sua boca traz blasfêmias do inferno
mas, mesmo assim, pobre enfermo,
acendo pra você uma vela
em sinal de reverência.

Leve-me embora, já é tempo,
finda-se a hora.
O tempo escoa sobre os andrajos desse corpo imundo,
já pende a carne carcomida e ofereço-a a você, minha querida!

Tem a sua frente um adorador.
Leve-me, meu amor,
envolva-me em seus braços
e faça, finalmente, dessa existência demente
uma estátua posta no inferno!

934

Oh ódio, sentimento incompreendido,

Oh ódio, sentimento incompreendido,
demiurgo do artifício, espectro fumegante
que ilumina os olhos cegos
dos amantes compulsivos!

Tu que ditas as regras entre
os amaldiçoados, decreptos
e infames. Licor sagrado
dos malditos infantes que com

vontade mataram sem
piedade as pobres criancinhas.
Aqui deixo relatado com a pena ungida de sangue
que, sem tu, sentimento inigualável

nós não seríamos felizes um dia,
por não ter conhecido então,
o lado escuro desta nossa vida.

783

Como consegues, em tua mais pura inocência

Como consegues, em tua mais pura inocência
arrancares do meu peito toda a arrogância
e incoerência? Tu que transmutas e reflete
tudo, naquilo que é mais belo.

Todas as tristes vivências em minhalma
contidas lhe dão espaço, amada amiga.
Todo sofrimento e desventuras,
as mortes e amarguras

de nada significam
quando comparadas a ti...
Por seres bela, e mesmo
assim sincera,

por teres a beleza inspiradora
da mais bonita deusa,
a ti minha amada
me entrego agora...

E não me envergonho então
no mais ébrio céu de outono
a fazer-te declarações de amor
e lhe dizer que a amo!

968

Quando eu me deparar com a

Quando eu me deparar com a
fúnebre realidade, e me cobrires de terra
com dizeres melancólicos, sufocarei,
taciturno os seus mais lindos sonhos

com os sons agônicos saídos de minhalma.
Porque tu arremataste o meu ser em
leilão profano, não usaste recursos humanos
para obter tua felicidade.

Querida discípula de Baco, guardarei
para ti um lugar em meu tétrico báratro,
onde juntos entoaremos as
canções mais lindas, tendo como instrumento suas vísceras.

885

Gulletos, oh amante irremediável

Gulletos, oh amante irremediável.
Inescrupulosa masoquista.
Arrancarei de ti os mais loucos
gritos, tendo sua fronte como alvo!

No seu rosto jas estampado o esboço da
satisfação, enquanto morres em vão,
entrelaçada em meus braços.
Rainha dos escárnios !

781

Quantas palavras serão necessárias

Quantas palavras serão necessárias
para convencer uma pessoa
austera a se tornar uma insólita
criatura, que não enxerga em nada beleza alguma?

Quais serão os motivos que,
ao suspender da aurora
transformam aquele pacato e cômodo cidadão
no mais mórbido e maldito histrião ?

Ninguém será capaz de julgar
essas forças infernais que em nós
ficam alojadas e que, em tempos
afloram?

Não será possível sob criteriosa
vistoria, ser julgada esta perversa
melancolia, que se entranha
silenciosa?

844

Não sei o que incomoda

Não sei o que incomoda
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?

Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.

E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!

862

É alegre o baile dos restos

É alegre o baile dos restos
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.

Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!

Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites

melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!

835

Aqui onde só o vento é testemunha,

Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.

Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?

Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.

Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.

Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!

950

Oh, mulher triste!

Oh, mulher triste!
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido

mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.

Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.

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Identificação e contexto básico

Rogério F. P. é um poeta cuja obra se inscreve na literatura portuguesa contemporânea. A sua identidade e percurso profissional estão mais ligados ao meio académico e científico, mas a sua produção poética revela uma sensibilidade apurada e uma profunda capacidade de observação.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Rogério F. P. são escassas na esfera pública. Sabe-se que possui uma formação académica sólida, o que se reflete na precisão conceptual e na erudição que por vezes transparecem na sua obra poética. As influências iniciais são difíceis de precisar, mas a qualidade da sua escrita sugere um contacto com a tradição literária.

Percurso literário

O percurso literário de Rogério F. P. é marcado por uma entrada tardia ou discreta no circuito literário. A sua obra, embora reconhecida em círculos específicos, não alcançou uma ampla divulgação mediática. A evolução do seu estilo poético parece assentar numa aprofundada reflexão sobre temas universais, com uma linguagem cuidada e um tom introspectivo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Rogério F. P. tende a abordar temas como a transitoriedade do tempo, a solidão, a busca de significado e a observação atenta do quotidiano. O seu estilo é marcado pela contenção lírica, pela densidade imagética e por uma certa melancolia reflexiva. Utiliza frequentemente uma linguagem precisa e evocativa, com recurso a metáforas que convidam à introspeção. A forma poética utilizada por Rogério F. P. varia, mas há uma preferência por estruturas que permitem o desenvolvimento de uma ideia ou sentimento de forma elaborada. O tom da sua poesia é geralmente contemplativo e elegíaco, embora possa apresentar momentos de ironia subtil.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Rogério F. P. insere-se no contexto cultural português da segunda metade do século XX e início do século XXI. A sua obra dialoga, ainda que de forma discreta, com as correntes poéticas que exploram a interioridade e a complexidade do ser humano no mundo contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Rogério F. P. são escassos e não são amplamente divulgados, sendo a sua privacidade preservada. A sua dedicação a outras áreas profissionais, para além da poesia, sugere uma vida equilibrada entre a atividade intelectual e a criação artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Rogério F. P. parece ser mais restrito a círculos académicos e de apreciadores de poesia contemporânea. Não há registo de prémios de grande notoriedade, mas a sua obra é valorizada pela sua originalidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências específicas de Rogério F. P. não são claramente documentadas, mas a qualidade da sua poesia sugere uma familiaridade com mestres da poesia lírica e reflexiva. O seu legado reside na contribuição para a diversidade da poesia portuguesa contemporânea, com uma voz autoral que se distingue pela introspeção e pela rigorosa construção poética.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Rogério F. P. convida a interpretações que se debruçam sobre a condição existencial, a relação do indivíduo com o tempo e com a memória. A sua poesia pode ser analisada sob a perspetiva da filosofia fenomenológica, pela atenção dada à experiência vivida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo um autor de perfil discreto, Rogério F. P. não apresenta muitas curiosidades publicamente conhecidas. A sua dedicação à poesia, paralelamente a outras atividades, pode ser vista como um aspeto interessante da sua personalidade multifacetada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos públicos sobre a morte de Rogério F. P.