Viagem de Reconhecimento
Procuro-me convicto
na luxúria tropical.
No corpo líquido
de minhas odisséias
no cerne de meu habitat
vegetal.
E só encontro areias,
arestas e restos de epopéias,
e velhos guerreiros
amarrados às ameias
de meus sonhos jovens de cristal.
Manifesto 3 - Contra o Número
Qualquer lugar
é destino
para quem não quer ficar.
Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...
Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.
Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.
E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...
Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.
De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...
Sonho Anfíbio
Viver na espuma das ondas
o meu sonho de mar.
Beijar a língua de areia
e refluir
nas ondas submissas
para voltar
a percorrer o sonho
a vida inteira
entre a terra e o porvir.
E viver na espuma das ondas
sem ter pátria no tempo
na saudade sem lar.
Manifesto 2 - Contra o Medo e a Dúvida
Parto em segredo.
Descubro - horas mortas -
no meu Reino, o medo
e a vigília absorta
na dúvida,
que tarde ou cedo,
bate à minha porta!
Sou Náufrago Solitário
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...
Horas para sonhar
tempo sem dimensão...
Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...
Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...
Cidade Nua
Convulsa verdade
flutua no ar frio
da cidade avulsa.
A cidade ulula
sob a verdade
que não é sua...
A alma nua
largou o corpo
ocioso na rua
a chapinhar
na água da chuva.
É água suja,
condensa e resídua
verdade
que flutua
sobre a cidade
crua.
Novíssimas Catacumbas
No fundo da vida
há vida diferente.
Há gente que sente
carência de amor.
Há gente que mente
para não se humilhar.
Há gente perdida
para não se encontrar.
Há gente que pede
para ser esquecida.
Há gente em silêncio
por ser oprimida.
Há gente que sofre
por ser esquecida.
Há gente sem nome
há gente escondida.
No fundo da vida
há vida ... também!...
Despertar
Sonhei com barcos
e velas
navegando no meu quarto.
Em cada vela a promessa
de novos sonhos
no mar...
Manifesto I - Contra o Vento
Príncipe,
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.
Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.
Desencanto
Eu canto o canto
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.