Desencanto
Eu canto o canto
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
Carta Aberta ao Homem Novo
Irmão que não conheço
e a quem não peço
a identidade.
Homem de qualquer cidade
a tua cor desconheço
e não peço a tua condição.
Procuro na palavra exacta
a ponte em que atravesso
o abismo da indeferença
que nos separa
em margens sem acesso.
Procuro no olhar adverso
o espaço, a nesga aberta
no teu coração hermético
para apoiar meu verso.
Sonho Anfíbio
Viver na espuma das ondas
o meu sonho de mar.
Beijar a língua de areia
e refluir
nas ondas submissas
para voltar
a percorrer o sonho
a vida inteira
entre a terra e o porvir.
E viver na espuma das ondas
sem ter pátria no tempo
na saudade sem lar.
Cada esperança é uma estrela
Com um gesto
ou um risco
muda a geografia
muda o leito do rio
e o destino é cisco
que flutua
nas águas represadas.
Não grito nem resisto.
Minha voz cansada
flutua no ar,
abafada
pela multidão
solidária
que me devolve a solidão
das noites sem destino.
No meu universo de exilados
cada esperança é uma estrela
solitária
que precede os três Reis Magos.
Monólogo em Noite sem Estrelas
Da pátria chegam as noites
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
Manifesto 2 - Contra o Medo e a Dúvida
Parto em segredo.
Descubro - horas mortas -
no meu Reino, o medo
e a vigília absorta
na dúvida,
que tarde ou cedo,
bate à minha porta!
Novíssimas Catacumbas
No fundo da vida
há vida diferente.
Há gente que sente
carência de amor.
Há gente que mente
para não se humilhar.
Há gente perdida
para não se encontrar.
Há gente que pede
para ser esquecida.
Há gente em silêncio
por ser oprimida.
Há gente que sofre
por ser esquecida.
Há gente sem nome
há gente escondida.
No fundo da vida
há vida ... também!...
Acto de Contrição
Não tenho direito à prece,
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
Despertar
Sonhei com barcos
e velas
navegando no meu quarto.
Em cada vela a promessa
de novos sonhos
no mar...
Manifesto 3 - Contra o Número
Qualquer lugar
é destino
para quem não quer ficar.
Eu vou
porque estou cansado de esperar
nesta indiferença.
Alquimia de esperança
que vem da fé
que me conforma
e que adoça e amansa
a alma do guerreiro
dividida
entre a renúncia e a lança!...
Vou, porque não suporto
o hálito podre que exala
do respirar colectivo da Cidade
e do sonho frustrado
que a embala.
Vou, porque tudo é vulgaridade.
Vou, porque se eu protestar
será contra a Humanidade.
E ela é número
e ela é erro
em quantidade...
Ela é maioria
ela é a "Cidade"!...
em sua soberana fantasia.
E eu não suporto o desterro
de ser vivo em minoria...
Eu vou porque não quero ser número
à esquerda ou à direita
deste silencioso túmulo
colectivo, uniforme, inseguro.
De ferro frio, como o aço
da lança que eu não uso...