Lista de Poemas

Pátria

Vasto no solo, forte pela raça,
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.

Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.

Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.

É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.

941

Dos rios

Os rios nascem. É um filete, antes, revel,
ou provenha de fonte, ou mesmo de geleira:
mas, alongando o curso, emerge undoso mel
que, agora, largo, investe...e o trajeto aligeira...

Eles vivem. Por isso, a existêencia a tropel
de emoções se reduz, através da carreira:
vezes, são areias que os tragam - lei cruel:
vezes, um lago os prende a afeição derradeira.

Mas, se alcançam delir, com todo o zêlo insano,
os riscos do percurso, ei-los fortes, bravios,
premendo, delirando os seios nus do oceano !

- Homem, ama ! a paixão te exalte sem cessar !
Pois é só por amor que as águas destes rios
vão correndo...correndo...em busca do mar !
921

A que não veio

Setembro. Nesta noite perfumada
espero-te. E não sei se vens, ao certo.
Pode ser que te percas pela estrada,
temerosa da chama que te oferto.

Neste leito - sozinho, inquieto. E cada
rumor que ouço, me torna mais desperto.
Iluzão...Não chegaste, minha amada,
nem me troxeste o níveo seio aberto.

Já se adelgaça a névoa dos caminhos.
Ante a luz matinal, que se anuncia,
há bulícios e músicas nos ninhos.

E eu, taciturno, mas, em ti pensando,
fecho os olhos cansados para o dia
como quem fica ainda te esperando.

849

Das montanhas

As montanhas, que vês, são rasgos de conquistas,
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.

E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...

As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...

E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.

731

Do eterno motivo

Quando nasceu o amor na humanidade,
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.

Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.

A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...

E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.

808

A que deixa posteridade

Quando contemplo as rugas do teu rosto,
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
878

Nuvem cor de rosa

Passaste como nuvem cor de rosa
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.

E conduziste os sonhos meus, formosa,
e acentelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz, ou inditosa,
tu que levaste as minhas esperanças.

Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...

Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.

800

Mátria

Terra natal, formosa entre as formosas,
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.

As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.

O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.

Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)

842

Onze anos depois

Onze anos são passados. Nas campinas
verdes da estâancia há sombras perpassando:
sonhos, visões, lembranças e as divinas
inspirações de outrota, soluçando.

Frondeja o cinamomo, no odorando
calor da primavera. Suaves, finas,
as suas flores ficam arroxeando
aquelas solidões e as nossas sinas.

Entro na casa. O sol fulgura.
Mas, dentro de mim, há frêmitos dolentes
de incertezas, saudades e ternuras.

Surges, por fim. No teu olhar sem côres
releio o meu destino: estão presentes
nossas recordações e nossas dores.

852

A que revive

Não me culpes. Amor, nos teus pesares,
nem aumentes, por mim, as tuas dores.
Acamponham-te sempre os meus cismares
e o espírito solícito, aonde fores.

Se ouvires cantilenas pelos ares,
em dias claros e reveladores,
imagina-as quais ondas singulares
de carícias, que envio como flores.

E se vires, em noites silenciosas
- e olhos fechados, como adormecida -
entrar alguém de formas vaporosas,

aconchega-o, amor, na soledade,
e prolonga, no sonho, a tua vida,
revivendo nos beijos de saudade.

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Identificação e contexto básico

Silvestre Péricles de Góis Monteiro foi um poeta, jurista e professor brasileiro. Nasceu em 1862 e faleceu em 1931. É associado ao movimento literário do Parnasianismo no Brasil.

Infância e formação

Nascido em Pernambuco, Brasil, realizou os seus estudos em Direito na Faculdade de Direito do Recife, uma instituição de grande prestígio à época. A sua formação académica e o ambiente intelectual em que se inseriu foram fundamentais para o desenvolvimento da sua carreira literária e jurídica.

Percurso literário

Silvestre Péricles foi um dos representantes do Parnasianismo brasileiro, movimento literário que valorizava a forma, a objetividade e a inspiração em temas clássicos e históricos. A sua obra poética, embora não tão prolífica como a de outros parnasianos, é um exemplo das características estéticas do movimento, com uma preocupação acentuada com a métrica, a rima e a sonoridade dos versos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias O estilo de Silvestre Péricles é marcado pela erudição, pela precisão formal e pelo uso de uma linguagem cuidada. Frequentemente, abordou temas da mitologia greco-romana, da história e da natureza, sempre com um olhar voltado para a beleza plástica e a perfeição formal. A sua obra poética reflete a busca parnasiana pela "arte pela arte", com um afastamento dos sentimentos e das preocupações sociais que caracterizavam o Romantismo. A sua poesia é caracterizada pela objetividade, pela descritividade e por um certo academicismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Silvestre Péricles viveu durante o final do século XIX e o início do século XX, um período de importantes transformações sociais e políticas no Brasil, incluindo a Proclamação da República. Como parnasiano, ele inseriu-se num contexto literário que reagia contra os excessos sentimentais do Romantismo e que buscava uma maior autonomia para a arte.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade literária, Silvestre Péricles dedicou-se à advocacia e ao ensino. Foi professor de Direito, exercendo uma atividade profissional que complementava a sua veia intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não seja tão amplamente lembrado como outros vultos do Parnasianismo, Silvestre Péricles de Góis Monteiro ocupa um lugar na história da literatura brasileira como um dos seus expoentes. A sua obra, ainda que de menor expressão, contribui para a compreensão do movimento parnasiano e das suas características.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As suas principais influências literárias foram os poetas parnasianos franceses, como Théophile Gautier e Leconte de Lisle. O seu legado reside na sua contribuição para a consolidação do Parnasianismo no Brasil, um movimento que, apesar das críticas posteriores, teve um papel importante na evolução da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica à obra de Péricles geralmente foca-se na sua adesão rigorosa às regras formais do Parnasianismo, o que por vezes pode resultar numa poesia vista como fria ou distante das emoções humanas universais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua dupla faceta como jurista e poeta demonstra a diversidade de interesses intelectuais de muitos escritores da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Silvestre Péricles de Góis Monteiro faleceu em 1931. A sua obra permanece como um registo do Parnasianismo brasileiro, um movimento estético que marcou profundamente a poesia em língua portuguesa.