Arménio Vieira

Arménio Vieira

Arménio Vieira é um proeminente poeta cabo-verdiano, cuja obra se distingue pela profunda exploração da identidade, da diáspora, da condição humana e da paisagem de Cabo Verde. Sua poesia é marcada por uma linguagem contundente, um tom por vezes elegíaco e uma forte ligação com as raízes culturais e históricas de seu povo. Com uma trajetória consolidada, Arménio Vieira é uma voz essencial na literatura em língua portuguesa, abordando temas universais a partir de uma perspetiva singularmente cabo-verdiana, o que lhe confere um lugar de destaque no panorama literário lusófono.

1941-01-29 Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde
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Ser tigre

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.
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