Arménio Vieira

Arménio Vieira

n. 1941 CV CV

Arménio Vieira é um proeminente poeta cabo-verdiano, cuja obra se distingue pela profunda exploração da identidade, da diáspora, da condição humana e da paisagem de Cabo Verde. Sua poesia é marcada por uma linguagem contundente, um tom por vezes elegíaco e uma forte ligação com as raízes culturais e históricas de seu povo. Com uma trajetória consolidada, Arménio Vieira é uma voz essencial na literatura em língua portuguesa, abordando temas universais a partir de uma perspetiva singularmente cabo-verdiana, o que lhe confere um lugar de destaque no panorama literário lusófono.

n. 1941-01-29, Praia · m. , Lisboa

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Mar

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
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Biografia

Identificação e contexto básico

Arménio Vieira é um poeta, contista e dramaturgo cabo-verdiano. Nasceu em Moçambique, em 1941, mas foi em Cabo Verde que construiu sua identidade e sua obra. É considerado um dos nomes mais importantes da literatura cabo-verdiana e lusófona contemporânea. Sua obra está profundamente ligada às ilhas e à condição do povo cabo-verdiano, marcado pela diáspora.

Infância e formação

Arménio Vieira passou sua infância e juventude em Cabo Verde, onde teve contato direto com a cultura e as realidades sociais do arquipélago. Sua formação literária foi marcada pela leitura de autores clássicos e contemporâneos, além da forte influência da oralidade e das tradições locais. Essa imersão nas especificidades cabo-verdianas moldou a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Arménio Vieira é extenso e diversificado. Iniciou sua carreira com a publicação de poesia, mas também se aventurou pela prosa e pelo teatro. Sua obra poética é marcada por uma evolução consistente, explorando diferentes facetas da experiência humana e cabo-verdiana. Publicou em importantes revistas e antologias, tanto em Cabo Verde quanto em Portugal e em outros países lusófonos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais relevantes estão "Poemas" (1989), "O Fio da Palavra" (1993), "Granito" (2000) e "A Ternura dos Monstros" (2015). Seus temas centrais incluem a identidade cabo-verdiana, a saudade, a diáspora, a memória, a paisagem árida das ilhas, a condição humana, o amor e a morte. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, por vezes rude, mas profundamente lírica e expressiva. Utiliza um vocabulário que reflete a realidade cabo-verdiana, mesclando o coloquial com o erudito. O ritmo e a musicalidade de seus versos são marcantes, transmitindo uma forte carga emocional. Sua voz poética é pessoal e universal, capaz de evocar a alma de um povo e, ao mesmo tempo, tocar as fibras mais íntimas de qualquer leitor. O verso livre é predominante em sua obra, permitindo uma maior liberdade expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Arménio Vieira é um cronista da realidade cabo-verdiana, um país que enfrentou desafios históricos como a colonização, a seca e a emigração. Sua obra reflete essas questões, abordando a resiliência do povo, a busca por identidade e a relação com a terra e o mar. Ele dialoga com outros escritores cabo-verdianos e lusófonos, integrando-se a um movimento literário que busca dar voz às especificidades de suas culturas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Arménio Vieira sempre manteve uma forte ligação com Cabo Verde, apesar de ter tido passagens por Portugal. Sua vida é marcada pela dedicação à literatura e à reflexão sobre a condição humana e a identidade cabo-verdiana. Sua obra pessoal se entrelaça com a poesia, revelando uma profunda sensibilidade e um olhar crítico sobre o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Arménio Vieira é amplamente reconhecida em Cabo Verde e na comunidade de língua portuguesa. É considerado um dos grandes poetas de sua geração, com sua obra sendo objeto de estudo em universidades e destacada em antologias e críticas literárias. Recebeu diversos prêmios e distinções ao longo de sua carreira, consolidando seu prestígio.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pela tradição poética portuguesa e pela literatura africana de expressão portuguesa, Arménio Vieira desenvolveu uma voz autoral única. Seu legado reside na forma como ele soube capturar a essência de Cabo Verde em sua poesia, dando visibilidade à cultura e aos dilemas de seu povo. Influenciou gerações de escritores cabo-verdianos e lusófonos, que encontram em sua obra um modelo de autenticidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Arménio Vieira é frequentemente interpretada como um espelho da alma cabo-verdiana, abordando temas existenciais com uma linguagem que ressoa a paisagem e a história das ilhas. Suas críticas sociais e políticas são implícitas, mas poderosas, revelando a complexidade da condição humana em contextos de adversidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Arménio Vieira é conhecido por seu temperamento reservado, mas sua poesia irrompe com uma força expressiva ímpar. Sua ligação com a terra e com as tradições de Cabo Verde é uma fonte constante de inspiração, refletida em seus poemas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até o momento, Arménio Vieira permanece ativo na cena literária, e sua obra continua a ser celebrada e estudada. Sua memória está firmemente gravada na história da literatura cabo-verdiana e lusófona.

Poemas

4

Mar

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?
3 356

Isto é que fazem de nós

E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...

Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.
2 262

Ser tigre

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.
2 372

Quiproquó

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

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