Lista de Poemas

Na noite transfigurada

Na noite transfigurada só ficaram os cedros e os ciprestes.
A lua surgiu, mas como, na lembrança, um rosto antigo explende palidamente e depois se apagou.
O vento veio, mas como um pássaro branco de grandes asas fatigadas: esvoaçou, lento entre as frondes, pousou no chão e adormeceu.
Os outros seres perderam-se no caminho dos milênios.
Ficaram apenas os cedros e os ciprestes e, na altura, as estrelas.
E para além dos ciprestes e cedros há só deserto e esquecimento.


Poema integrante da série III. Solilóquio.

In: SILVEIRA, Tasso da. Poemas de antes. Il. Sônia Castro. Rio de Janeiro: GRD, 1966. p.11
2 538

Intróito

Nós temos uma visão clara desta hora.

Sabemos que é de tumulto e de incerteza.
E de confusão de valores.
E de vitória do arrivismo.
E de graves ameaças para o homem.

Mas sabemos, também, que não é esta a primeira
hora de agonia e inquietude que a humanidade vive.

(...)

A arte é sempre a primeira que fala para anunciar
o que virá.
E a arte deste momento é um canto de alegria,
uma reiniciação na esperança,
uma promessa de esplendor.

Passou o profundo desconsolo romântico.
Passou o estéril ceticismo parnasiano.
Passou a angústia das incertezas simbolistas.

O artista canta agora a realidade total:
a do corpo e a do espírito,
a da natureza e a do sonho,
a do homem e a de Deus,

canta-a, porém, porque a percebe e compreende
em toda a sua múltipla beleza,
em sua profundidade e infinitude.

E por isto o seu canto
é feito de inteligência e de instinto
(porque também deve ser total)
e é feito de ritmos livres
elásticos e ágeis como músculos de atletas
velozes e altos como sutilíssimos pensamentos
e sobretudo palpitantes
do triunfo interior
que nasce das adivinhações maravilhosas...

O artista voltou a ter os olhos adolescentes
e encantou-se novamente com a Vida:

todos os homens o acompanharão!


Publicado no livro Definição do Modernismo Brasileiro (1932).

In: CACCESE, Neusa Pinsard. Festa: contribuição para o estudo do Modernismo. São Paulo: IEB, 1971. p.190-19
2 557

Sonho Vago

Ó branca e luminosa!
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...

Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.

Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...

II

Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!

Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.

1 180

Canção

Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.


Publicado no livro Regresso à Origem (1960).

In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
1 432

Fronteira

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.


Publicado no livro Regresso à Origem (1960).

In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.74. (Literatura brasileira, 9C
1 703

Encantamento

A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...


Publicado no livro As Imagens Acesas: Poemas, 1924/1927 (1928).

In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.56. (Literatura brasileira, 9C
1 657

Poema 17

Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.

Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...

Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,

foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...

1 042

Marinha

Teu corpo é mar
com frêmitos frescos de ondas
e fosforescência de espumas.

Teu corpo é profundidade equórea,
filtrando sol,
mas cheia de sombras vivas
de sargaços, anêmonas, corais.

Quando ele me envolve, é totalmente,
mortalmente.
Anula-me no que sou.
Reduz-me a uma alga inerte
que não sabe do seu destino
no seio do imenso balouço imemorial.

E quando retorno do mergulho trágico,
teu corpo escorre de mim, como uma túnica líquida.
Só então, volto a ser de novo,
respiro o grande ar da vida.

Teu corpo é abismo equóreo,
teu corpo é mar...


Poema integrante da série Alegria do Mundo.

In: SILVEIRA, Tasso da. O canto absoluto; seguido de Alegria do mundo: poemas. Rio de Janeiro: Cadernos da Hora Presente, 1940. p.13
1 453

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Identificação e contexto básico

José Tasso de Oliveira da Silveira, mais conhecido como Tasso da Silveira, foi um intelectual multifacetado: poeta, ensaísta, crítico literário, professor universitário e tradutor brasileiro. Nasceu em São Paulo e sua obra é reconhecida pela erudição e pela profundidade filosófica e espiritual.

Infância e formação

Nascido em São Paulo, Tasso da Silveira demonstrou desde cedo um interesse acentuado pelas artes e pelas ciências humanas. Sua formação acadêmica foi sólida, o que se reflete na complexidade e no rigor de seus ensaios e de sua poesia. Absorveu influências de diversas correntes filosóficas e literárias.

Percurso literário

O percurso literário de Tasso da Silveira iniciou-se com a publicação de seus primeiros poemas e ensaios. Sua obra evoluiu no tratamento de temas como a espiritualidade, a mística, a condição humana e o sentido da vida. Colaborou com diversas publicações literárias e acadêmicas, consolidando sua posição como um intelectual respeitado.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Tasso da Silveira é marcada por um lirismo profundo e contemplativo, com forte inclinação para o misticismo e a filosofia. Temas como a transcendência, a busca pela divindade, a efemeridade da existência e a natureza da realidade são recorrentes. Sua linguagem é erudita e cuidada, muitas vezes utilizando recursos que remetem à tradição poética, mas com uma voz singular e inovadora. Seu tom é frequentemente reflexivo e elevado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tasso da Silveira viveu e produziu em um período de efervescência cultural e intelectual no Brasil. Sua obra dialoga com correntes filosóficas e religiosas, bem como com a tradição literária brasileira e universal. Sua posição como professor e crítico o colocou em contato com diversos círculos intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Tasso da Silveira são menos proeminentes do que sua obra intelectual e poética. Sabe-se que dedicou grande parte de sua vida ao estudo, à escrita e ao ensino.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Tasso da Silveira se consolidou no meio acadêmico e literário, especialmente por sua obra ensaística e sua poesia de cunho filosófico e espiritual. É considerado um autor de referência para o estudo da literatura brasileira e das relações entre arte e mística.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra demonstra influências de correntes místicas e filosóficas, bem como de poetas que exploraram a dimensão espiritual da existência. O legado de Tasso da Silveira reside na sua capacidade de unir a erudição com a sensibilidade poética, oferecendo uma perspectiva única sobre os grandes temas da vida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tasso da Silveira é frequentemente analisada sob a ótica da filosofia, da religião e da literatura comparada. Suas interpretações sobre a condição humana e a busca espiritual são temas centrais para a crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos de Tasso da Silveira podem residir em detalhes de sua vida pessoal ou em correspondências que não são amplamente divulgadas, mas sua notoriedade advém principalmente de sua obra intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Morreu em São Paulo, deixando um acervo significativo de obras publicadas e um legado intelectual duradouro na literatura brasileira.