Lista de Poemas

Mesmo

Somos ambos o mesmo:
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.

Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.

811

Helenismo

Não sei por onde vou, por onde passo.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.

Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.

Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.

Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.

911

Amnésia

Perdi toda memória do presente.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.

Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.

Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.

E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.

998

Noturno

Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.

O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.

Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.

A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.

973

Mise au Point

Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.

E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.

Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.

964

Motociclistas

Felizes,
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!

De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...

893

Formalismo

Já cansada de elipses e parábolas,
ela traçou um silêncio retilíneo
onde as nuvens se foram perfilar.

Suspensos às arestas dessa fórmula,
choramos o rigor do formalismo,
felizes, delirantes, ensopados.

952

Trignometria

Entre muitos aplausos e vivas,
ela se fez triângulo
e voltou às páginas de Euclides.

943

Vôo

Ave a voar sem rumo, tempo acima;
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.

E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.

906

Noite de Verão

As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.

O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.

Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas

Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.

942

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Identificação e contexto básico

Valéry Larbaud, nome de registo de François-Marie-Valéry Larbaud, nasceu a 29 de agosto de 1881 em Ouchy-sur-Lausanne, Suíça, e faleceu a 31 de dezembro de 1957 em Vichy, França. Era filho de uma família burguesa de origem francesa, com ligações à indústria têxtil. Foi cidadão francês e escreveu predominantemente em francês.

Infância e formação

Larbaud passou a infância entre a França e a Suíça. Era um jovem de saúde frágil, o que o levou a um percurso de estudos mais errático, mas também a um intenso desenvolvimento intelectual e cultural. Foi um autodidata voraz, com uma vasta gama de interesses que iam da literatura à filosofia e às ciências. Teve contacto com diversas correntes literárias e filosóficas europeias, absorvendo influências diversas.

Percurso literário

O início da sua atividade literária remonta à juventude. Larbaud começou a publicar poemas e textos em prosa em revistas literárias. A sua obra, embora não extensa em volume, é marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana e a arte. Desenvolveu um estilo muito pessoal, que evoluiu ao longo do tempo, mantendo sempre uma coerência interna. Colaborou ativamente em diversas publicações, sendo também conhecido pelo seu trabalho como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Larbaud inclui poesia, prosa e ensaios. Entre as suas obras mais conhecidas estão "Poèmes" (1908), "A.O. Barnabooth" (1913), e "Beata stirps" (1917). Os temas centrais da sua escrita são a viagem (tanto física quanto interior), a busca pela autenticidade, a melancolia, a relação entre o indivíduo e o mundo, e a própria materialidade da linguagem. O seu estilo é caracterizado pela erudição, pela precisão vocabular, pela musicalidade e por uma sintaxe elaborada, muitas vezes com longas frases que espelham o fluxo do pensamento. Larbaud experimentou com a forma, mas sempre com um controlo rigoroso. A sua voz poética é frequentemente introspectiva e confessional, mas com um alcance universal. Foi associado ao simbolismo e ao modernismo, mas o seu estilo é inconfundível e singular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Larbaud viveu um período de grandes transformações na Europa, incluindo as duas Guerras Mundiais, que o afetaram pessoalmente e em sua obra, embora de forma mais velada. Manteve relações com outros escritores e intelectuais da sua época, mas tendeu a um certo isolamento, dedicando-se à sua própria pesquisa literária. A sua obra dialoga com a tradição literária europeia, mas também aponta para novas direções.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Valéry Larbaud teve uma vida marcada por uma saúde delicada, que o impediu de participar ativamente em muitos dos eventos sociais e profissionais. As suas relações afetivas e familiares, embora não amplamente divulgadas, parecem ter sido uma fonte de introspeção. Dedicou-se intensamente à literatura, sendo a sua profissão principal. As suas crenças filosóficas e espirituais eram complexas e refletiam-se na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado uma fama massiva em vida, Valéry Larbaud é reconhecido como um autor importante da literatura francesa. A sua obra recebeu um reconhecimento crescente ao longo do tempo, tanto por parte da crítica quanto dos leitores mais atentos. É considerado um autor de culto por muitos admiradores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Larbaud foi influenciado por autores como Baudelaire, Rimbaud, e por autores da literatura inglesa. O seu estilo e a sua abordagem à poesia influenciaram gerações posteriores de escritores, especialmente aqueles que valorizavam a introspeção, a linguagem cuidada e a exploração da subjetividade. O seu legado reside na sua originalidade e na profundidade da sua reflexão sobre a condição humana e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Larbaud tem sido objeto de diversas interpretações críticas, focando-se na sua exploração da identidade, na sua relação com o tempo e o espaço, e na sua metafísica da escrita. Os temas existenciais e filosóficos são centrais nas suas análises.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Larbaud era conhecido pelo seu interesse por línguas estrangeiras e pela sua vasta biblioteca pessoal. A sua dedicação à escrita e à reflexão intelectual, muitas vezes em detrimento da vida social, é um aspeto marcante da sua personalidade. Os seus hábitos de escrita eram rigorosos, refletindo a sua busca pela perfeição formal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Valéry Larbaud faleceu em 1957. A sua obra continua a ser estudada e apreciada, garantindo a sua memória na história da literatura.