Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

1928–1994 · viveu 66 anos PT PT

Virgílio Martinho foi um poeta português ligado ao movimento surrealista. Sua obra é marcada pela experimentação formal, pela exploração do inconsciente e por uma linguagem carregada de imagens oníricas e subversivas. Questionou as convenções sociais e literárias, buscando uma liberdade expressiva radical.

n. 1928, Lisboa · m. 1994-12-04, Lisboa

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O Limiar

Numa casa entre o castelo e o rio,
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.

Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.

As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.

Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?

Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Virgílio Martinho foi um poeta português, figura proeminente do surrealismo em Portugal. Nascido em 1911, destacou-se pela sua poesia experimental e pela sua ligação com o movimento surrealista, que buscava explorar o inconsciente e subverter as convenções sociais e literárias. Nacionalidade: Portuguesa. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Virgílio Martinho são mais escassas, mas sabe-se que se inseriu em círculos culturais e intelectuais que o levaram ao contato com as vanguardas europeias, nomeadamente o surrealismo. A sua formação, embora não detalhada em termos de percurso académico, foi evidentemente influenciada por leituras e debates sobre arte e literatura modernas.

Percurso literário

Virgílio Martinho iniciou seu percurso literário nos anos 30, associando-se ao grupo surrealista português. Publicou em revistas de vanguarda e antologias, sendo um dos nomes ativos na divulgação e prática do surrealismo em Portugal. Sua obra é marcada por uma busca contínua pela experimentação e pela ruptura com as formas tradicionais de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Virgílio Martinho é profundamente influenciada pelo surrealismo. Seus poemas exploram o universo dos sonhos, do inconsciente, do ilógico e do irracional. A linguagem é carregada de imagens oníricas, associações inesperadas e uma forte carga subversiva, buscando desconstruir a realidade percebida e as normas sociais. Utiliza o verso livre de forma radical e explora a linguagem de maneira experimental, com um tom muitas vezes perturbador e provocador. Sua voz poética é fragmentada e busca a liberação do pensamento e da expressão.

Contexto cultural e histórico

Virgílio Martinho viveu em um período turbulento da história de Portugal e da Europa, com o advento do Estado Novo em Portugal e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. O surrealismo, como movimento de vanguarda, representou uma forma de contestação e de busca por novas formas de expressão em um contexto de repressão e conservadorismo. Martinho dialogou com outros surrealistas portugueses, contribuindo para a consolidação do movimento no país.

Vida pessoal

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Virgílio Martinho fora de seu envolvimento com o movimento surrealista. Sua dedicação à poesia e à experimentação artística sugere um perfil de intelectual engajado com as ideias de vanguarda e com a contestação das normas estabelecidas.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Virgílio Martinho, assim como de muitos surrealistas, foi mais significativo em círculos avant-garde e entre críticos especializados em poesia de vanguarda. Sua obra, por sua natureza experimental e subversiva, pode não ter alcançado um público massivo, mas sua importância para a história do surrealismo em Portugal é inegável.

Influências e legado

Virgílio Martinho foi influenciado pelos mestres do surrealismo europeu. Seu legado reside na sua contribuição para a introdução e a consolidação do surrealismo na poesia portuguesa, abrindo caminhos para a experimentação e a exploração do inconsciente na literatura nacional. Sua obra é um exemplo da potência da poesia em desafiar limites e provocar reflexão.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Virgílio Martinho é frequentemente analisada sob a ótica do surrealismo, destacando-se a exploração do automatismo psíquico, a desconstrução da lógica e a busca por uma linguagem que revele as camadas mais profundas da psique humana. As interpretações buscam desvendar as complexas teias de imagens e significados em sua obra.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto a destacar é a coragem de Virgílio Martinho em aderir a um movimento de vanguarda como o surrealismo em um contexto político e social conservador. Sua obra é um testemunho da busca por liberdade criativa e pela exploração de territórios literários inexplorados.

Morte e memória

Virgílio Martinho faleceu em 1959. Sua memória literária é mantida viva através de sua obra, que continua a ser estudada e admirada por sua originalidade e por sua importância no panorama do surrealismo português.

Poemas

19

O Limiar

Numa casa entre o castelo e o rio,
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.

Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.

As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.

Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?

Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
1 073

A Cerveja Sabe

Preciso de cerveja para viver o poema,
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.

Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.

Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.

Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.

Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.

Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
1 095

A Bebida Branca

A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.

Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.

Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.

Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento

corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.

O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino

Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 161

Canção Nocturna

Hesitei na escolha, cresceu a dúvida,
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.

Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.

No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.

Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
1 006

A Luz Encarnada

A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.

A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.

A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.

A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.

A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.

Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 076

Deus

Deus é a porta, a cadeira, a cama
Deus é um bolo de anos, açúcar,
Deus é a digestão da Fada-Madrinha,
Deus tem o hálito da romã rosada.

Um dia vi Deus, tinha corrido no prado,
chamava-se Deus, vinha de amar a criança,
nos seus olhos cintilantes havia a luz coada
de um céu com pinhões e favas salgadas.

Amo Deus e a sua igreja alada, papal,
amo Deus e sua mãe, e seu pai, e seu tio,
amo a sagrada família, sou ferveroso,
ser Deus
1 010

Ouro

O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.

Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.

Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.

Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.

Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.

Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 106

Viver Amarelo

Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.

Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.

Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.

No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.

Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
963

A Maçã

As altas chaminés da fábrica,
Na noite remota da infância
Eram troncos rubros, eram fogo.

Na fruteira lavrada havia a maçã.

Os pesados carros, as sirenes,
As correrias dos homens, os gritos,
Os uivos das mulheres, as explosões.

Na fruteira a maçã amadurecia.

Incandescências vogavam na noite,
Havia vento, era um chicote quente,
Os corações pulsavam, os corações.

Na fruteira a maçã suava.

Nas alturas o cogumelo de fogo,
Um outro sol como se fora fábula,
Crepitava, meu corpo tremia.

Na fruteira a maçã crestava.

Chama fremente da cor do que arde,
O cogumelo de fogo da noite fazia dia,
E a cada explosão as chamas repartia.

Na fruteira a maçã gretava.

Tornou-se desejo o cogumelo longínquo,
Cobiça de criança, deslumbramento,
Possuí-lo seria belo, diferente.

Na fruteira a maçã abria-se.

De manhã findo o fogo, apenas o fumo,
Ao esplendor sucedera a monotonia,
Fora-se o sonho, só o cinzento havia.

Na fruteira a maçã tinha a cor do lume.
1 167

O Desenho do Corpo

Na palma da mão tenho um insecto,
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.

Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.

Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.

Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.

Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.

A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.

Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.

Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
1 056

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