O Desenho do Corpo
Na palma da mão tenho um insecto,
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.
Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.
Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.
Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.
Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.
A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.
Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.
Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
O Jovem Azul
O jovem azul não é o amor,
O jovem azul chama-se sonho,
O jovem azul é espacial,
É azul,
Mas não tem asas de anjo,
Não tem.
Azul é uma cor não é um jovem azul,
É coisa sem asas, quase um barco,
Com um coração de fora,
Talvez um cogumelo,
Nunca saberei o que o jovem azul é.
Neste saber e não saber,
Percorro lento o sonho antigo,
Enquanto subo a escadaria,
Passo a passo,
Como qualquer um a que o azul assiste.
Chego assim ao limite de cima,
De sonho feito com máscara arlequim,
Sem conhecer o meu sonho azul,
Sem ao menos lhe conhecer o fim.
Ouro
O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
Canção Em É
A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
Estar Longe do Verde Prado
Estar longe do verde prado
onde as vacas ruminam ais.
Estar longe da égua ciosa
que corre veloz nos pinhais.
Estar longe, cada vez mais,
da laranja que verteu sumo.
Estar longe do por onde vais,
que tudo, mas tudo, acabou fumo.
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
A Cerveja Sabe
Preciso de cerveja para viver o poema,
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.
Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.
Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.
Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.
Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.
Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.