Lista de Poemas

Trecho de Ricardo II

Acto III, Cena 2

RICARDO

Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?

(tradução
de Jorge de Sena)
4 031

Trabalhos de Amor Perdidos

Mas o amor, primeiro aprendido em uns olhos de mulher,
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
2 593

Soneto XV

Se considero quanto cresce vivo,
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;

se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;

então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.

Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que ele te rouba, eu te reponho aqui.
2 324

Soneto XXIX

Quando em desgraça aos olhos dos humanos,
sozinho choro o meu maldito estado,
e ao surdo céu gritando vou meus danos,
e a mim me vejo e amaldiçoa o Fado,

sonhando-me outro, fico de esperanças,
coa imagem del. como el tão respeitado,
invejo as artes de um, doutro as usanças,
do que mais gozo menos contentado.

Mas se ao pensar assim, quase me odiando,
acaso penso em ti, logo meu estado,
como ave, às portas celestiais cantando,
se ergue na terra, quando o sol é nado.

Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,
que nem com grandes reis me trocaria.
2 162

Soneto LXXVI

Porque de orgulho são tão nus meus versos,
tão limpos de contrastes e mudanças?
Porque, com o tempo, não vão sendo imersos
em novo estilo e estranhas esquivanças?

Porque escrevo eu sempre tão igual ao que era,
mantendo-me fiel ao que inventei,
que cada termo é como se dissera
quanto de mim procede, que o gerei?

Que é só de ti, meu doce amor, que escrevo,
contigo e Amor aos devaneios basto,
e o meu saber de poeta é este enlevo
de ainda outra vez gastar o que está gasto.

Tal como o Sol é novo cada dia,
assim do Amor eu digo o que dizia.
2 242

Quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.

 

41

Faço o que todo homem faz. Não o seria se fizesse mais. Quase sempre as mulheres fingem desprezar o que mais vivamente desejam.

 

36

Aprendi que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu.

 

33

Eu só o sirvo para servir-me dele. Iago falando sobre seu patrão, Otelo, ao amigo Rodrigo, em Otelo, o mouro de Veneza

 

27

A graça do perdão não é forçada;/ Desce dos céus como uma chuva fina/ Sobre o solo: abençoada duplamente,/ Abençoa a quem dá e a quem recebe;/ É mais forte que a força: ela guarnece/ O monarca melhor que uma coroa

 

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Identificação e contexto básico

Shakespeare, William. Nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. É amplamente reconhecido como o maior escritor de língua inglesa e o mais influente dramaturgo do mundo. Sua obra é fundamental na literatura ocidental.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e educação de Shakespeare. Acredita-se que frequentou a King's New School em Stratford, onde teria aprendido latim e a literatura clássica. Sua formação teria sido mais autodidata, absorvendo influências da literatura e do teatro de sua época.

Percurso literário

Shakespeare começou sua carreira como ator e dramaturgo em Londres. Rapidamente ganhou reconhecimento pela sua habilidade em escrever peças que cativavam o público. Desenvolveu um estilo único que evoluiu ao longo de sua carreira, explorando diversos gêneros como comédia, tragédia e drama histórico. Colaborou com a companhia de teatro Lord Chamberlain's Men (mais tarde King's Men), para a qual escreveu a maioria de suas peças.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra inclui cerca de 39 peças, 154 sonetos e alguns poemas longos. As peças abrangem temas universais como amor, morte, ambição, vingança, ciúme e a condição humana. Shakespeare é mestre no uso da linguagem, com um vocabulário vasto e rico em metáforas, jogos de palavras e imagens vívidas. Sua poesia é marcada pela musicalidade e pela exploração profunda das emoções humanas. É associado ao Renascimento inglês e ao período Elisabetano/Jacobeano.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Shakespeare viveu durante um período de grande efervescência cultural e política na Inglaterra, sob o reinado de Elizabeth I e James I. Este período, conhecido como Renascimento Inglês, foi marcado por descobertas marítimas, avanços artísticos e um crescente nacionalismo. Shakespeare dialogou com as tradições teatrais clássicas e medievais, ao mesmo tempo que inovou, criando personagens complexos e tramas envolventes que refletiam as tensões e os valores de sua época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casou-se com Anne Hathaway e teve três filhos. Sua vida pessoal é em grande parte desconhecida, com pouca informação confiável sobre suas relações e crenças. Acredita-se que investiu seus lucros teatrais em propriedades em Stratford, onde passou seus últimos anos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Shakespeare foi um autor popular em sua época, e suas peças foram encenadas com sucesso. No entanto, o reconhecimento de sua genialidade atingiu proporções globais após sua morte, com sua obra sendo traduzida e adaptada em todo o mundo, tornando-se um pilar da literatura universal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Shakespeare foi influenciado pela literatura clássica (Plutarco, Ovídio) e por dramaturgos contemporâneos. Seu legado é imenso, influenciando incontáveis escritores, poetas e dramaturgos ao longo dos séculos. Sua obra continua a ser estudada, encenada e reinterpretada, mantendo sua relevância atemporal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Shakespeare tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas, explorando temas filosóficos, psicológicos e sociais. Seus personagens e dilemas continuam a provocar debates e a inspirar novas leituras, atestando a profundidade e a complexidade de sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Algumas teorias questionam a autoria das peças atribuídas a Shakespeare, mas a maioria dos estudiosos as considera autênticas. Sua relação com o teatro e o público era pragmática, visando tanto o sucesso comercial quanto a excelência artística.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Morreu em Stratford-upon-Avon. Pouco tempo depois de sua morte, amigos e colegas publicaram o First Folio, uma coletânea de suas peças, garantindo a preservação de grande parte de sua obra. Sua memória é celebrada através de teatros, instituições e estudos dedicados a ele em todo o mundo.