Lista de Poemas

Noturno da estátua

Sonhar, sonhar a noite, a rua, a escada
e o grito da estátua virando a esquina.

Correr até a estátua e encontrar tão-só o grito,
querer tocar o grito e achar tão-só o eco,
querer agarrar o eco e encontrar tão-só o muro
e correr até o muro e tocar um espelho.
Achar no espelho a estátua assassinada,
arrancá-la do sangue de sua sombra,
vesti-la em um piscar de olhos,
acariciá-la como uma irmã imprevista
e jogar com as fichas de seus dedos
e contar em seu ouvido cem vezes cem cem vezes
até que a ouça dizer: "estou morta de sono".

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Nocturno de la estatua
Xavier Villaurrutia

Soñar, soñar la noche, la calle, la escalera
y el grito de la estatua desdoblando la esquina.

Correr hacia la estatua y encontrar sólo el grito,
querer tocar el grito y sólo hallar el eco,
querer asir el eco y encontrar sólo el muro
y correr hacia el muro y tocar un espejo.
Hallar en el espejo la estatua asesinada,
sacarla de la sangre de su sombra,
vestirla en un cerrar de ojos,
acariciarla como a una hermana imprevista
y jugar con las fichas de sus dedos
y contar a su oreja cien veces cien cien veces
hasta oírla decir: «estoy muerta de sueño».



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Desejo

Amar você com fogo duro e frio.
Amar você sem palavras, sem pausas, silêncios.
Amar você tão-só quando você quiser
e tão-só com a presença muda dos meus atos.
Amar você na ponta da língua e enquanto a mentira
em você não se diferencia da ternura.
Amar você quando finge toda a indiferença
que seu abandono nega, que funde seu calor.
Amar você cada vez que tua pele e boca
procurem minha pele dormindo, minha boca desperta.
Amar você pela solidão, se você me abandona nela.
Amar você pela cólera que acende em meu coração.
E mais que pela alegria e o delírio,
amar você pela angústia e a dúvida.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Deseo
Xavier Villaurrutia
Amarte con un fuego duro y frío.
Amarte sin palabras, sin pausas ni silencios.
Amarte sólo cada vez que quieras,
y sólo con la muda presencia de mis actos.
Amarte a flor de boca y mientras la mentira
no se distinga en ti de la ternura.
Amarte cuando finges toda la indiferencia
que tu abandono niega, que funde tu calor.
Amarte cada vez que tu piel y tu boca
busquen mi piel dormida y mi boca despierta.
Amarte por la soledad, si en ella me dejas.
Amarte por la ira en que mi razón enciendes.
Y, más que por el goce y el delirio,
amarte por la angustia y por la duda.
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Noturno em que nada se ouve

Em meio a um silêncio deserto como a rua antes do crime
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem

(tradução de Ricardo Domeneck)


:

Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia

En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.


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Inventar a verdade

Faço atento o ouvido ao peito,
como, na praia, o caracol ao mar.
Ouço meu coração latir sangrando
e sempre e nunca igual.
Sei por quem ele late assim, mas não posso
dizer o porquê será.

Se começasse a dizê-lo com fantasmas
de palavras e enganos, ao acaso,
chegaria, tremendo de surpresa,
a inventar a verdade.
Quando fingi que te amava, não sabia
que já te amava!

(tradução de Ricardo Domeneck)


:

Inventar la verdad
Xavier Villaurrutia

Pongo el oído atento al pecho,
como, en la orilla, el caracol al mar.
Oigo mi corazón latir sangrando
y siempre y nunca igual.
Sé por quién late así, pero no puedo
decir por qué será.

Si empezara a decirlo con fantasmas
de palabras y engaños, al azar,
llegaría, temblando de sorpresa,
a inventar la verdad:
¡Cuando fingí quererte, no sabía
que te quería ya!



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Identificação e contexto básico

Xavier Villaurrutia Calderón foi um proeminente poeta, dramaturgo, ensaísta e crítico literário mexicano. Nasceu em 1903 na Cidade do México e faleceu em 1950. É considerado um dos fundadores da revista literária "Contemporáneos", um marco para a literatura mexicana moderna. Sua obra é escrita em espanhol.

Infância e formação

Villaurrutia nasceu em uma família de classe alta e teve acesso a uma educação privilegiada. Estudou Direito na Universidade Nacional do México, onde se envolveu com o ambiente intelectual e literário da época. Sua formação foi influenciada pelas correntes filosóficas e literárias europeias, bem como pela tradição literária hispânica.

Percurso literário

O percurso literário de Villaurrutia iniciou-se com sua participação ativa no grupo "Contemporáneos", que buscava modernizar a literatura mexicana e dialogar com as vanguardas internacionais. Sua poesia, inicialmente influenciada pelo modernismo, evoluiu para uma expressão mais pessoal e existencial. Além da poesia, destacou-se como dramaturgo, com peças que exploravam a atmosfera e a psique humana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Villaurrutia é marcada por um tom sombrio, melancólico e reflexivo. Temas como a morte, a solidão, o tempo, o amor não correspondido, a cidade e a busca por uma identidade são centrais. Seu estilo é caracterizado pela sobriedade, pela precisão vocabular, pelo uso de imagens noturnas e pela criação de uma atmosfera de mistério e angústia. Utilizou formas como o soneto, mas também experimentou com o verso livre. A voz poética é frequentemente confessional, explorando o "eu" lírico em sua vulnerabilidade e em sua confrontação com a finitude. Seu teatro, igualmente introspectivo, aborda conflitos psicológicos e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Xavier Villaurrutia viveu em um período de grande efervescência cultural e política no México, o pós-revolucionário. Ele e o grupo "Contemporáneos" enfrentaram críticas por seu suposto "elitismo" e por seu distanciamento de temáticas sociais mais explícitas, mas também foram cruciais para a renovação da literatura mexicana e para a sua inserção no contexto internacional. Ele manteve relações com outros intelectuais e artistas de sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Villaurrutia teve uma vida pessoal discreta e, em grande parte, reservada. Sua orientação sexual, homossexual, foi um aspecto que, embora não explicitamente abordado em sua obra de forma direta, permeia algumas de suas reflexões sobre o amor e a solidão. Seus relacionamentos afetivos, embora pouco documentados publicamente, parecem ter sido fontes de inspiração para sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora em vida tenha tido reconhecimento no meio literário mexicano, seu lugar como um dos grandes poetas da língua espanhola foi consolidado postumamente. Sua obra é hoje estudada e admirada pela sua originalidade, profundidade e pela maestria formal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Villaurrutia foi influenciado por poetas como Rubén Darío, Paul Valéry e T.S. Eliot. Por sua vez, sua obra influenciou gerações posteriores de poetas mexicanos e latino-americanos, especialmente aqueles interessados na exploração do lirismo existencial e na renovação da linguagem poética.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Villaurrutia tem sido amplamente interpretada sob a ótica do existencialismo, da angústia da existência e da melancolia. Suas reflexões sobre a morte e a solidão são centrais em muitas análises críticas, que destacam a universalidade de seus sentimentos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é que, apesar de sua formação em Direito, dedicou-se quase inteiramente à literatura e ao teatro. Sua obra teatral "La Hiedra" é um exemplo notável de seu talento dramático, explorando a claustrofobia e as relações humanas complexas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Xavier Villaurrutia faleceu precocemente em decorrência de uma pneumonia, durante uma viagem a Nova Iorque. Sua morte deixou um vazio na literatura mexicana, mas sua obra continua a ser lida e reverenciada, garantindo sua memória e seu legado.