Yannis Ritsos

Yannis Ritsos

1909–1990 · viveu 81 anos GR GR

Yannis Ritsos foi um dos mais importantes poetas gregos do século XX, conhecido pela sua vasta obra e pelo seu engajamento político e social. A sua poesia, profundamente enraizada na experiência grega, aborda temas universais como o amor, a morte, a injustiça e a resistência humana. Considerado um dos grandes nomes da poesia moderna, Ritsos explorou diversas formas poéticas, desde o verso livre até estruturas mais elaboradas, sempre com uma linguagem acessível mas carregada de simbolismo e emoção.

n. 1909-05-01, Monemvasia · m. 1990-11-11, Atenas

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Coisas simples e incompreensíveis

Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Ioannis Ritsos, conhecido como Yannis Ritsos, foi um poeta grego. Nasceu em Monemvasia, Lacónia, e faleceu em Atenas. Foi uma figura central na literatura grega moderna e um membro ativo do Partido Comunista da Grécia. A sua obra é escrita em grego moderno.

Infância e formação

Ritsos nasceu numa família abastada da Lacónia. A sua infância foi marcada por tragédias familiares, incluindo a morte da mãe e do irmão mais velho, que o afetaram profundamente. Teve uma educação formal, mas a sua formação intelectual foi também moldada por leituras e pelo ambiente cultural e político da época. O período entre as duas Guerras Mundiais e a Segunda Guerra Mundial foram cruciais na sua formação ideológica e artística.

Percurso literário

Ritsos começou a escrever poesia cedo. A sua primeira coleção, "Tractor", foi publicada em 1934. A sua obra evoluiu ao longo das décadas, refletindo as suas experiências pessoais, as mudanças políticas na Grécia e a sua constante busca por novas formas de expressão poética. Participou ativamente em publicações literárias e foi uma voz influente no panorama cultural grego, atuando também como crítico e tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais importantes encontram-se "Epitáfio" (1936), "Romiosyni" (1947), "18 Pequenos Poemas do Povo Ucraniano" (1974), e "A Canção da Minha Irmã" (1975). Os temas dominantes na sua poesia incluem a luta pela liberdade, a dignidade humana, a memória histórica, a beleza da natureza, o amor e a solidão. O seu estilo é marcado por uma linguagem direta e lírica, mas frequentemente carregada de simbolismo e metáforas poderosas. Utilizou predominantemente o verso livre, explorando a musicalidade e o ritmo. A sua voz poética é frequentemente confessional e empática, refletindo uma profunda conexão com o sofrimento e as aspirações do povo. Ritsos é associado ao movimento simbolista e, posteriormente, ao modernismo grego. Introduziu inovações ao integrar a poesia social e política com uma profunda introspeção lírica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ritsos viveu num período turbulento da história grega, marcado pela ditadura, pela Segunda Guerra Mundial, pela guerra civil e pela ditadura dos coronéis. O seu envolvimento político e a sua poesia refletem estas realidades. Foi um contemporâneo de outros grandes poetas gregos, como George Seferis e Odysseus Elytis, com quem manteve relações complexas. A sua poesia é um testemunho da resistência e da esperança em tempos difíceis.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ritsos teve uma vida marcada pelo ativismo político, que o levou a ser preso e exilado várias vezes. As suas relações familiares e amorosas, embora menos documentadas publicamente, influenciaram a sua sensibilidade poética. Viveu de forma modesta, dedicando a sua vida à escrita e à luta pelos seus ideais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Considerado um dos maiores poetas gregos, Ritsos gozou de amplo reconhecimento em vida e após a morte. Recebeu diversos prémios literários na Grécia e internacionalmente. A sua obra é amplamente estudada e apreciada, tanto no meio académico quanto pelo público em geral.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Na sua juventude, Ritsos foi influenciado por poetas gregos e europeus, como Constantinos Kavafis e Pablo Neruda. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas na Grécia e no estrangeiro. A sua poesia continua a ser traduzida e a inspirar leitores em todo o mundo, sendo considerado uma figura incontornável da literatura do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ritsos tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam a sua capacidade de conciliar o lirismo pessoal com a denúncia social e política. As suas poesias são frequentemente interpretadas como um reflexo da condição humana, da resiliência e da busca por um mundo mais justo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ritsos era conhecido pela sua prolífica produção literária, escrevendo poemas, peças de teatro e ensaios. Apesar da sua fama, manteve uma postura humilde e discreta. Os seus manuscritos e correspondência revelam a profundidade do seu pensamento e a sua dedicação à arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Yannis Ritsos faleceu em 1990, em Atenas. A sua morte foi sentida como uma grande perda para a cultura grega e mundial. As suas obras continuam a ser publicadas e a sua memória é celebrada através de fundações, centros de estudo e eventos culturais dedicados à sua poesia.

Poemas

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Coisas simples e incompreensíveis

Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.

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Os Modelos

Não esqueçamos nunca - disse - as boas lições, aquelas
da arte dos Gregos. Sempre o celeste lado a lado
com o quotidiano. Ao lado do homem, o animal e a coisa —
uma pulseira no braço da deusa nua; uma flor
caída no chão. Recordai as formosas representações
nos nossos vasos de barro — os deuses com os pássaros e com outros animais,
e juntamente a lira, um martelo, uma maçã, a arca, as tenazes;
ah! e aquele poema em que o deus, ao terminar o trabalho,
retira o fole de junto do fogo, recolhe uma a uma as ferramentas
dentro da arca de prata; depois, com uma esponja, limpa
o rosto, as mãos, o pescoço nervudo, o peito peludo.
Assim, limpo, bem arranjado, sai à tardinha, apoiado
nos ombros de efebos todos de oiro — trabalhos de suas mãos
que têm força, e pensamento, e voz; — sai para a rua,
mais magnífico que todos, o deus coxo, o deus operário.
(tradução de Custódio Magueijo)
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Versos na tarde

A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.

(tradução de José Paulo Paes)

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O Espaço Do Poeta

A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.

(tradução de José Paulo Paes)

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