Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

1931–2023 · viveu 92 anos BR BR

Alberto da Costa e Silva foi um proeminente poeta, diplomata e ensaísta brasileiro, reconhecido pela sua vasta obra que celebra a cultura africana e a sua influência na formação do Brasil. A sua poesia é marcada pelo lirismo, pela musicalidade e por uma profunda reflexão sobre temas como a identidade, a história, a ancestralidade e a beleza. Distinguiu-se pela sua erudição e pela sua capacidade de tornar acessíveis as complexidades da herança africana, defendendo a importância do diálogo intercultural e do reconhecimento da diversidade.

n. 1931-05-12, São Paulo · m. 2023-11-26, Rio de Janeiro

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O Riso de Vera

Raso mar
frente ao céu,
menor
do que
em cada coisa o seu
voto de ausência.

E além
do arco do espaço,
tudo se concentra
na sombra
em que me finda
o dia.

Enquanto em ti
se abrem
as flores enserenadas
e a luz
ressaca
nos postigos.


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alberto da Costa e Silva, nascido em 1931, foi um poeta, diplomata, ensaísta, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras. É uma das figuras mais importantes da literatura brasileira contemporânea, especialmente pela sua obra dedicada à cultura africana e afro-brasileira. Foi embaixador do Brasil em vários países.

Infância e formação

Nasceu no Rio de Janeiro, numa família de classe média. Desde cedo demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita. Formou-se em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ) e em Letras pela Universidade Católica do Rio de Janeiro. A sua formação académica e a sua experiência diplomática permitiram-lhe um vasto conhecimento cultural e histórico.

Percurso literário

O seu percurso literário começou com a publicação de poesia, onde cedo se destacou pela originalidade e pela temática. A sua obra evoluiu para abrigar também ensaios históricos e culturais, consolidando a sua posição como um intelectual multifacetado. Publicou dezenas de livros, entre poesia, ensaios, crónicas e obras sobre a história da África e do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais importantes, destacam-se "Poemas Reunidos", "O Grande Sertão: um outro olhar", "A Cor da Ternura" e "No Oratório de Luanda". A sua poesia explora temas como a ancestralidade africana, a identidade brasileira, a memória, a diáspora, a religiosidade, o amor e a beleza do quotidiano. O seu estilo é marcado por um lirismo profundo, uma musicalidade notável, influenciada pelos ritmos africanos e pela tradição poética brasileira. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com grande rigor formal e rítmico. A sua linguagem é ao mesmo tempo culta e acessível, rica em imagens e metáforas, evocando sensações e cores. A sua voz poética é frequentemente confessional e reflexiva, mas com uma dimensão universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alberto da Costa e Silva viveu e escreveu num período de grandes transformações no Brasil e no mundo. A sua obra dialoga com o contexto de redemocratização do Brasil, com as discussões sobre identidade nacional e com a crescente valorização das culturas de matriz africana. Como diplomata, teve contacto direto com diversas realidades culturais, o que enriqueceu a sua visão sobre as relações interculturais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casado e pai, a sua vida pessoal esteve intrinsecamente ligada à sua carreira diplomática, que o levou a viver em diversos países. Manteve uma intensa atividade intelectual e social, sendo uma figura respeitada nos meios literários e académicos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Foi amplamente reconhecido no Brasil e no exterior, sendo agraciado com diversos prémios literários e honrarias. A sua eleição para a Academia Brasileira de Letras foi um marco importante. A sua obra é estudada em universidades e a sua influência é sentida por gerações de poetas e intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pela poesia brasileira, africana e universal, Alberto da Costa e Silva legou uma obra que é fundamental para a compreensão da formação cultural e histórica do Brasil. A sua defesa da cultura africana e a sua capacidade de construir pontes entre diferentes mundos e saberes são o seu maior legado. Influenciou poetas e estudiosos a explorar e valorizar as raízes africanas na cultura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Alberto da Costa e Silva é frequentemente analisada sob a ótica da descolonização do imaginário, da afirmação da identidade afro-brasileira e da celebração da diversidade cultural. A sua poesia é vista como um convite à reflexão sobre as relações raciais, a memória histórica e a construção de um futuro mais inclusivo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da poesia e dos ensaios, Alberto da Costa e Silva tinha um grande interesse pela música e pelas artes visuais. A sua vasta cultura e a sua personalidade afável faziam dele um interlocutor apreciado e respeitado.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Alberto da Costa e Silva faleceu em 2024, deixando um legado literário e intelectual inestimável para o Brasil e para o mundo.

Poemas

11

O Riso de Vera

Raso mar
frente ao céu,
menor
do que
em cada coisa o seu
voto de ausência.

E além
do arco do espaço,
tudo se concentra
na sombra
em que me finda
o dia.

Enquanto em ti
se abrem
as flores enserenadas
e a luz
ressaca
nos postigos.


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 511

Poema de Aniversário

Foge o homem para o centro do deus que o persegue
e risca na própria pele a beleza da morte,
o provado desenho de uma infância, estas formas
que a minúcia do olhar recompõe na cegueira.

Já não sente os cavalos, nem recorda o que cerca
a sozinha indolência que revê no destino
de estar, rosto na relva, eterno e antigo, vindo
do sol sobre as clareiras para a limpa tristeza.

Segue os céus que repartem, entre o certo e o difuso,
o sonhar exilado do que breve lhe fica,
do que traz sobre os ombros, como achas, a vida,
só instante e distância, pobre húmus sem uso.

E joga o ser chorado e o que foi (recolhido
na sobra do menino que lhe fala ao ouvido)
sobre o colo e o abandono do deus que flui, calado,
entre muros de cinza, solidão e cansaço.


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 768

As Linhas da Mão

1

Deste canto de treva, esperas, surdo,
enquanto o céu corrói teu corpo escasso.
E sentes de ti mesmo o ofego gasto
pelo escoar do dia, o jogo amargo
de voltar das manhãs cheio de escuro.

Deste lado solar, desprezas, mudo,
o que sabes virá porque marcado
na morte que vais sendo, o sonho alçado
ao espaço que passa, este amor breve,
pois é feito de tempo e o tempo cede.

Eis tuas mãos. As suas linhas, cego,
o solitário sol, o rio vazio,
o saibro sob os pés, o choro inútil
e tudo o que feriste nos descrevem,
num rogo de beleza, sujo e puro.

Do centro crepuscular, dali tens tudo.

(...)


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.

NOTA: Poema composto de 2 parte
1 878

Soneto [Cerâmica e tear: as mãos trabalham

Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro

põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro.

E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro

em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.


Publicado no livro O tecelão (1962).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.4
1 843

Hoje: Gaiola sem Paisagem

Nada quis ser, senão menino. Por dentro e por fora, menino.
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.


Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
1 839

Triste Vida Corporal

Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater d'asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte... Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.


Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.7
1 538

O Menino a Cavalo

(...)

3

A mão de meu pai sobre o papel desenha,
quase num só traço, o menino a cavalo.

Sai de sua mão a mão com que lhe aceno,
e vai sobre o papel o menino a cavalo.

Choro sobre o colo do triste, e órfão, e cego,
para tudo o que atado estava à vida, vivo,

mas sem sonho e sem carne, a falar-me sem nexo
sobre um céu e um sol de que foi desterrado,

mas que punha ao redor do menino a cavalo.

O rosto longo e só, rasgado pelas rugas,
o olhar a rever o que perpétuo tinha,

e que nunca me disse, em seu pensar cortado
do dia em que vivia (no seu convívio raro

com a cadeira de braços, o pijama, os seus pássaros,
a cinza e a rotina de estar morto, acordado),

no papel ele unia a mão que desenhava
à mão com que acenava ao menino a cavalo,

neste adeus em que estou, desde então, ao seu lado,
o menino que volta, a chorar, a cavalo.


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.

NOTA: Poema composto de 3 parte
2 117

Outro Adeus

Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava

com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja

larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,

e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.

Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?

Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.

Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?

Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo

o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão

deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.



In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 469

Aparição de Fortaleza, setembro de 1950

Ruas e sombras de Fortaleza, meninas doces,
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.

Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.

Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.


Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 507

Elegia, outubro de 1950

Sofrer esta infância, esta morte, este início.
As cousas não param. Elas fluem, inquietas,
como velhos rios soluçantes. As flores
que apenas sonhamos em frutos se tornaram.
Sazonar, eis o destino. Porém, não esquecer
a promessa de flores nas sementes dos frutos,
o rosto de teu pai na face do teu filho,
as ondas que voltam sobre as mesmas praias,
noivas desconhecidas a cada novo encontro.
As cousas fluem, não param. As folhas nascem,
as folhas tombam longe, em longínquos jardins.
Em silêncio, vives a infância de teus olhos
e, morto, és tão puro que te tornas menino.


Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 916

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Comentários (1)

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Mariângela de Lourdes Coutinho Souza Silva
Mariângela de Lourdes Coutinho Souza Silva

Bom dia, Alberto! Trabalho em Conselheiro Lafaiete -MG, na Escola Municipal Nilce Moreira , e no momento elaborando uma peça teatral sobre cerâmica intitulada "Por Obras de Tantas Mãos", e pesquisando na internet o encontrei com seu lindo Soneto Cerâmica e Tear: as mãos trabalham". Gostaria imensamente que me permitisse musicar seu soneto a fim de cantá-lo na peça que será encenada maio desse ano.Você permitiria essa possibilidade de complementar a peça? Meu e mail é [email protected]. Meu blog é www.vidaanascer.blogspot.com..br.Aguardo ansiosa sua resposta, paz e luz! Mariângela de Lourdes Coutinho Souza Silva