Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

1924–1986 · viveu 61 anos PT PT

Alexandre O'Neill foi um poeta português, figura marcante da poesia surrealista em Portugal. Sua obra, muitas vezes irreverente e crítica, transita entre o lirismo e o humor, explorando a linguagem de forma inventiva e surpreendente. É conhecido por sua capacidade de subverter o sentido comum das palavras, criando imagens oníricas e críticas à sociedade. Sua poesia é um convite à desconstrução da realidade aparente, revelando o absurdo e o maravilhosos escondidos no cotidiano. O'Neill é um dos nomes mais originais e influentes da poesia portuguesa do século XX.

n. 1924-12-19, Lisboa · m. 1986-08-21, Lisboa

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Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alexandre Meneses de Macedo O'Neill foi um poeta português. Nasceu em Lisboa em 1924 e faleceu na mesma cidade em 1986. É um dos nomes mais importantes do surrealismo em Portugal, embora sua obra transcenda rótulos.

Infância e formação

Teve uma infância marcada por viagens devido à profissão do pai, que era militar. Frequentou o Colégio Militar e, posteriormente, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, curso que abandonou. Sua formação cultural foi ampla e autodidata.

Percurso literário

A sua atividade literária começou nos anos 40, integrando-se no movimento surrealista português. Colaborou em diversas publicações, como as revistas "Sinal" e "Os Surrealistas". A sua obra poética, apesar de concisa em volume, é de enorme impacto.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de O'Neill é caracterizada pela irreverência, pelo humor negro, pela subversão da linguagem e pela exploração do inconsciente. Utiliza o verso livre e a imagem onírica para criar uma crítica mordaz à sociedade burguesa, aos costumes e à própria condição humana. Temas como o amor, a morte, a incomunicabilidade e a crítica social são recorrentes. Sua linguagem é precisa, inventiva e surpreendente, capaz de criar efeitos de estranhamento e encantamento.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu a maior parte da sua vida sob a ditadura do Estado Novo, um período de repressão e censura. O movimento surrealista em Portugal, apesar de perseguido, representou uma importante forma de contestação e de busca por liberdade criativa. O'Neill manteve relações com outros artistas e intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Alexandre O'Neill teve uma vida pessoal marcada por um certo isolamento e por dificuldades financeiras. Teve uma carreira discreta como publicitário e tradutor, vivendo muitas vezes de forma boémia. A sua personalidade era complexa, alternando entre o humor e uma profunda melancolia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra poética seja de culto e reconhecida pela sua originalidade e qualidade, O'Neill não teve um reconhecimento público e institucional proporcional à sua importância durante a vida. A sua obra ganhou maior visibilidade e prestígio após a sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Alexandre O'Neill é uma figura incontornável do surrealismo português e da poesia do século XX. Influenciou gerações de poetas com a sua liberdade criativa, a sua audácia verbal e a sua visão crítica do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de O'Neill tem sido objeto de múltiplos estudos críticos que exploram as suas conexões com o surrealismo internacional, a sua crítica social e a sua originalidade linguística. A dualidade entre lirismo e ironia é um ponto central de análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Foi um dos fundadores da revista "Sinal", um dos principais órgãos do surrealismo em Portugal. A sua poesia é conhecida pela sua capacidade de captar o absurdo do quotidiano e transformá-lo em arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1986, deixando um legado poético que continua a fascinar e a inspirar. A sua obra é publicada e estudada, consolidando o seu lugar na história da literatura portuguesa.

Poemas

47

O poema

pouco original do medo
O medo vai
ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai
ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos) intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo
vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai
ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
4 264

Albertina

ou O insecto-insulto ou O quotidiano recebido como mosca

O poeta está
só,completament só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstracção,alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto que seja de beleza.
Mas o poeta
é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa,aquela
Que tantas vezes arrastou pelos cabelos...
*
A mosca Albertina,
que ele domesticava,
Vem agora ao papel,com um insecto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava...
Quase mulher
e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica,mosca-mulher,por ali...
*
-Albertina!,deixa-me
em paz,consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!
-Albertina!,eu
quero um verso que não há!...

*
Conjugal,provocante,moreno
e azulado,
O insecto levanta,revoluteia,desce
E,em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora com um insulto alado.
E o poeta
sai de chofre,por uns tempos desalmado...
6 529

Inventário

Um dente douro
a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante
A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno
Um revolver
já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria
Um conde que
cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa
O desertor
cantando no coreto
Um malandrão que vem pe-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé
Um sujeito
enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza
Um octogenário
divertido
Um menino colecionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas

in:No
Reino Da Dinamarca(1958)

5 565

A força do hálito

A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.

Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.

Sovacos pompeando vinagres e bafios,
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.

"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"

Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.

Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.

Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito,
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.

4 253

O chapéu de Tchekov

tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro

gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra

gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça

tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão

in:A saca de orelhas(1979)
4 901

Soneto

a duas mãos
A mão
que me sustenta e eu sustento
é mão capaz das vinte e cinco linhas
e do selado azul de um requerimento
ou doutras diligências comesinhas...
Habituada
por secretarias,
esperta, decidiu de um grave acento,
a vírgulas guindou torpes cedilhas
e mastigou papel, seu alimento...
Contraiu calos,
revoltou-se às vezes,
contra certos despachos, tão soezes
que até o dedo auricular se ria...
Com dois dedos
de aumento se curvava
e logo, altiva, à esquerda se mostrava...
Agora?
Estão as duas na poesia...

5 229

O enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

4 848

Seis poemas

confiados à memória de Nora Mitrani
I
Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)

Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.

Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara
aquele adeus português...),

corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prà cama.
Esperas por mim?

4 300

O revólver

de trazer por casa
Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente ,uma,duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.

Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio,mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.

Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...

4 605

Entre a

cortina e a vidraça

Vem o tempo de varejeira
entre a cortina e a vidrça.
O tempo assim à minha beira!
Que é que se passa?

E eu,que estava tão enredado
nos baraços do eternamente,
nos lacetes do já passado,
sou esfregado contra o presente.

A varejeira é nacional.
Terei,assim,de preferi-la?
Ora!É a mosca-jornal
-e já agora vou ouvi-la...

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Comentários (5)

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Sinceramente este foi um dos poemas mais eloquentes que já li sobre amizades ... é de uma delicadeza surrealista grandiosa.

Zéca
Zéca

Muito Romântico :--

Pedro
Pedro

Gostei muito, os poemas são bonitos

Ivo
Ivo

Obrigado pela informação!

André
André

Adorei, bom conteudo!