Lista de Poemas

O chapéu de Tchekov

tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro

gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra

gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça

tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão

in:A saca de orelhas(1979)
4 861

VI

A que vens,solidão,com teu relógio
de ponteiros de visgo,de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens,ó camarada solidão?

Companheira,amiga,até amante,
até ausente,ó solidão,te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás,ó solidão!

A que vens,enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?

A que vens ,solidão?Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto,encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum,ó solidão!

in:Poemas com Endereço(1962)
4 772

O enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

4 783

De porta

em porta
-Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

-Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô

-Dinheiro? Isso não!
Já sei,pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho...

-Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

-Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele tem não tem mãe
e não é do Norte...

-Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

4 778

AutoCrítica

Cesário diz-me muito:gostava de ferramentas,como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.

(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)

(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)

Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!

in:Feira Cabisbaixa(1965)
6 116

Poesia-Cão

Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.

4 406

Pelo Alto Alentejo-2

Meto butes á inteira planura.
Esboroa-se a terra.Lá pra trás,
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui,na aparência,só a paz.

Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco(ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?

Eu sei ler a cidade,mas,aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá,como o alibi
da paisagem que a outras me transporta.

Hei-de voltar pra ler e presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...

in:Entre a Cortina e a Vidraça(1972)

4 375

Comentários (6)

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Sinceramente este foi um dos poemas mais eloquentes que já li sobre amizades ... é de uma delicadeza surrealista grandiosa.

mgenthbjpafa21

Ok, apagaram hoje vou escrever sobre o grande OºNEILL

Zéca
Zéca

Muito Romântico :--

Pedro
Pedro

Gostei muito, os poemas são bonitos

Ivo
Ivo

Obrigado pela informação!

Identificação e contexto básico

Alexandre Meneses de Macedo O'Neill foi um poeta português. Nasceu em Lisboa em 1924 e faleceu na mesma cidade em 1986. É um dos nomes mais importantes do surrealismo em Portugal, embora sua obra transcenda rótulos.

Infância e formação

Teve uma infância marcada por viagens devido à profissão do pai, que era militar. Frequentou o Colégio Militar e, posteriormente, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, curso que abandonou. Sua formação cultural foi ampla e autodidata.

Percurso literário

A sua atividade literária começou nos anos 40, integrando-se no movimento surrealista português. Colaborou em diversas publicações, como as revistas "Sinal" e "Os Surrealistas". A sua obra poética, apesar de concisa em volume, é de enorme impacto.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de O'Neill é caracterizada pela irreverência, pelo humor negro, pela subversão da linguagem e pela exploração do inconsciente. Utiliza o verso livre e a imagem onírica para criar uma crítica mordaz à sociedade burguesa, aos costumes e à própria condição humana. Temas como o amor, a morte, a incomunicabilidade e a crítica social são recorrentes. Sua linguagem é precisa, inventiva e surpreendente, capaz de criar efeitos de estranhamento e encantamento.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu a maior parte da sua vida sob a ditadura do Estado Novo, um período de repressão e censura. O movimento surrealista em Portugal, apesar de perseguido, representou uma importante forma de contestação e de busca por liberdade criativa. O'Neill manteve relações com outros artistas e intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Alexandre O'Neill teve uma vida pessoal marcada por um certo isolamento e por dificuldades financeiras. Teve uma carreira discreta como publicitário e tradutor, vivendo muitas vezes de forma boémia. A sua personalidade era complexa, alternando entre o humor e uma profunda melancolia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra poética seja de culto e reconhecida pela sua originalidade e qualidade, O'Neill não teve um reconhecimento público e institucional proporcional à sua importância durante a vida. A sua obra ganhou maior visibilidade e prestígio após a sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Alexandre O'Neill é uma figura incontornável do surrealismo português e da poesia do século XX. Influenciou gerações de poetas com a sua liberdade criativa, a sua audácia verbal e a sua visão crítica do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de O'Neill tem sido objeto de múltiplos estudos críticos que exploram as suas conexões com o surrealismo internacional, a sua crítica social e a sua originalidade linguística. A dualidade entre lirismo e ironia é um ponto central de análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Foi um dos fundadores da revista "Sinal", um dos principais órgãos do surrealismo em Portugal. A sua poesia é conhecida pela sua capacidade de captar o absurdo do quotidiano e transformá-lo em arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1986, deixando um legado poético que continua a fascinar e a inspirar. A sua obra é publicada e estudada, consolidando o seu lugar na história da literatura portuguesa.