Por Dentro
Dentro
do meu peito
há um grito que não solto
um espinho que não cravei
uma espada
que não quis
voltada contra o que sou
Dentro do meu peito
há uma ave que não voa
da janela sem horizonte
onde pousada ficou
Dentro do meu peito
há um sol em declínio
uma gaveta fechada
onde guardei os sentidos
e a chave que a abriria
perdeu-se ou enferrujou.
Dentro do meu peito
emparedado há um rio
galgando as margens
que o prendem
na senda da sua foz…
e indómito busca caminho
sem saber se vai chegar
à boca desse mar imenso
que se liga a outro mar.
A Caminho de Ser
Como
é difícil entender
os caminhos
que dentro de mim
não param de o ser
Vou, porque devo ir
e não me é dado
no tempo suspensa ficar.
Quero ir
tocar
olhar dentro das coisas
que os meus olhos buscam
poder alcançar.
Cansaços
Verde
planície,
teus olhos
teu corpo
doce orvalho em minha pele
Meu sol a pino
flamejante a tua língua
arrastando do meu corpo
exausto
restos de frio.
Transfiguração
O
quotidiano uiva, grita, sangra
esmaga, dilacera, esventra
corpos almas, sonhos.
quotidiano servido
em taças de amargo gosto
leva-nos na crista de alterosas vagas
sentimos a vida no silencio ou como grito
a vida que espontânea brota
e nos faz sentir
tocados pela morte com suas leves asas
roçando cada instante
de nossos dias
Irrompe a luz e a alvorada,
emerge da terra a rubra papoila
ri a criança nos braços da sua mãe,
o abraço amante numa noite enluarada,
a beleza viva nos traços que o pincel eternizou
ou que a mão do poeta rasgou
levam-nos de volta à vida
frágil, perene
e ao sabor das coisas únicas, simples
aos campos da guerra quotidiana
onde salva a beleza guardada em nossos olhos
e a vontade de e teimar ir além.
Guerreiros sem nome
batemo-nos indómitos nesse imenso campo
onde a vida se dá e se furta também.
Tear do Tempo
De
noites de mil sóis se fazem os dias
e na berma dos sentidos
corre o desassossego de um corpo sôfrego
e a alma se aviva a cada sobressalto,
do acto consentido que atravessa o corpo
Paira uma leveza sobre os nossos dias
que leva a pensar se em nossas vidas
só ficam as marcas do fugaz presente,
e se me pergunto a alma entoa
um canto que rasga a fundura do tempo
E fico suspensa
no ponto intermédio onde me toca o futuro
e a História me alcança
Desse promontório onde o tempo interroga,
vivo as dimensões todas que há em mim
pretérito, futuro, continuo presente
a lembrar que sou
caminho, vontade, corpo chão, raiz ,
e que a cada instante do tempo que passa
ensaio a busca , de chegar mais perto
da razão que seja o tempo em si
Olho o corpo e vejo ser a dimensão
que o tempo atravessa e marca a passagem,
o corpo navio que sulca esse instante
onde ajo , penso, desejo, decido
e a alma o baú que guarda as memórias
do que fiz, pensei quis e desejei
Pesa-me a leveza que este tempo vive
que escolhe a amnésia como atitude,
pesa-me e contudo por vivê-la anseio
sem esquecer que fui e navego sonhos
e ter sido conjugo com o que serei
A vida me acena aqui e agora
no tempo e lugar onde urge cumprir
o presente e o futuro que incrustados vivem
na raiz da memória que me fez e sou,
raiz donde parto em direcção a mim
Por isso os meus dias, mesmo os banais,
são instantes únicos
que busco olhar na sua inteireza
para viver à proa o tempo que é o meu,
tempo transversal que me atravessa
tempo a dimensão que me interpela
a viver instantes de total urgência.
Os Cinco Sentidos
Olho a nuvem
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
Às Vezes
Às
vezes
eu fico sentada à espera
joelhos bem rentes à boca
mergulhada não sei em que águas
levemente agitadas
E ali , assim fico parada
na imensidão do vazio
que me acolhe amigo
e me estende a mão
E fico à espera de alguma coisa
vaga ou difusa
como se eu fosse corpo em gestação
E o que chega vem
sem dizer que vem é um vago torpor
que se agarra à alma…
e tremula a mão cinzela a palavra
na página branca
que sempre a aguardara.
Hoje e Sempre
Hoje
É o perpetuo refluxo
do tempo e da vida
hoje e sempre
Hoje
trago a alma sedenta
os olhos famintos
hoje e sempre
Hoje
é o tempo de refazer e recusar
o que está feito e nos desfaz
hoje e sempre!
Hoje
é o tempo de dizer não
aos caminhos que o não são
hoje e sempre
Hoje
é o tempo da partida
do recomeço,
da descoberta
do golpe de asa
da porta aberta
de um passo mais
de nova ousadia
e outra e outra e outra
ainda.
Ideologia
Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
Denúncia
Ecos
de fome
um rosto acusa
existência e agonia
mórbida simbiose,
o não à vida
Ecos de humilhação
corpo ressequido
fatalmente anónimo .. longínquo
a limpeza gélida do número,
a inócua visão da morte…
colorida.
O horror
não age no descanso
de mentes anestesiadas,
a morte compromete
mas é de longe que vem…
distancia, entorpecimento da culpa,
da nossa culpa…sem defesa!