O Grito
O
que me assusta
é esta imensidão
dentro de mim a espraiar-se
este saber-me só
sem outra alma ao alcance
do grito
Oikos
Oiço,
quedo-me serena
buscando decifrar as vozes
que emergem do fundo da terra
dos abismos do mar
O mistério …o obscuro
na transparência possível
vozes que emergem…
de onde?
Terra-mãe
mar, berço original
arvore sagrada verde serenidade
serena e erecta matriz do ser
na vertical.
Spring Cleaning
Há
dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação
do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao
longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente
e já sem utilidade, papeis e objetos.
E sem saber
como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis
que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito
de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço,
isso que agora só vemos como lixo.
Até
as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível
vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é
necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo
os da memória e da vida.
Abrindo
os armários, damos conta de que aquele vestido já não
condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis
com informação, só foi útil num determinado
momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente
com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos
e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.
Até
o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece
estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar
flores por toda a casa.
E olhando
as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e
os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para
os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria
de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço
onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não
chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é
ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como
os outros o ocupam também.
Organizar
o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante
movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização,
é um estado quase permanente. Me incomoda a organização
excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado
imprescindível ao meu equilíbrio. A organização
rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente
vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de
ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar
onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial",
entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois
procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção
nesse outro o lugar : o da realidade vivida.
E porque
de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir,
me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses
: "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio
da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já
se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará
o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando
o momento de irromperem.
"Spring
Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que
despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos
que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir
o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes,
romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os
pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo
: cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com
que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com
a chegada da Primavera.
Eclosão
Cativa
no meu peito
uma ave se abriga
nos meus olhos, crescendo
a fome de cores que não vejo
e nas minhas mãos
que abro ao sol de outono
as sementes por plantar
guardo ainda…
E na corrente sem lei
que o meu sangue percorre,
a força de Eros vive adormecida
esperando o dia ou então o sinal
que o desperte e chame à dança da vida.
Às Voltas
Com o Tempo
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
Ponte
Suspensos
ainda ontem,
sonhos
fugidias sombras, hoje
perdem-se à míngua de razão
Prenhe outro sonho
se agiganta entre ruínas
ponte lançada
entre o eu
e o futuro de mim.
derradeiro sobre-humano gesto
empurrando o que em nós se gera na rebelião
o que resiste e ensaia
a coragem que esmaga todos os nãos.
Construção
Às
vezes
deixo-me ficar quieta à espera que chegues
e de repente aí estás
olho-te construída e és palavra
e mais ainda és sentido.
Olho-te no teu ser objectivo,
palavra escrita
que abandonou as paredes estreitas do meu cérebro,
ou outras que eu nem sei,
e sinto-te cinzelada pela coração.
E fico, assim tocada
e sinto-me, sentindo-te corpo de poema
que pulsa…
e mais perto me sinto ainda
de entender esse sopro que assoma
na forma de cifra.
Nem sempre te consinto,
nem sempre me consentes
e contudo eu sei que és o caminho
onde me encontro se o norte se ausenta
ou perdida fico em meu desvario.
Longitudinal
Olhamos
os seres da gestação
espaço de chegada e de onde partimos,
viscosos restos de vidas vagas
desprendem-se da memória
lâmina
Nostálgicos retratos
do futuro adiante,
um adeus expresso em nossas vidas
longitudinal e sem remédio
roem interiores
os vermes da ausência
esse tanto que quisemos
esse pouco que logramos
esse nada que soubemos
da inexplicável presença.
Poiésis
Vinhas
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia
Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí
Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade
Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.
Só por vires
abençoada sejas
Recomeço
Recomeçar
como a força silenciosa
dos invernos
Recomeçar
leve a alma
vigilantes os sentidos
Recomeçar
e rasgar num voo
o espaço imenso
onde ainda possa
desenhar sem medos
o meu golpe de asa.