Cismos
Eu
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
Oferenda
Infinitamente,
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
Dança da
Lua
No
meio da noite de uma lua prenhe,
me embalarás, cobrirás com teu corpo
e nele deixarás o sabor do teu abraço
que eu quis e esperei.
Numa noite de luar, ainda que não seja cheia
sob a clara luz das estrelas
eu dançarei para ti e beijarei tua boca
com toque de pedra rara,
incendiando o teu ser
e a noite de lua e prata.
Vi-te, não sei como e quando
e gravei em mim os contornos
que um dia me foram dados
ao jeito de revelação
Guardei-te para sempre em mim
na forma de cheiro e sabores,
tesouro que procurei nas alamedas da vida,
na escuridão dos meus dias
noutras almas que cruzei
só quero saber agora
porque ficamos à espera
de nos olharmos e ter e desvendar o mistério
do que seja o espaço e o tempo
nessa outra dimensão
em que por inteiro estejas
tu… e eu.
Pássaro
Azul a Horizonte
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
Clara Luz
Na
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
Cama Lavada
Estendo-te
uma cama de orquídeas
e rosas
perfumo meu corpo com lavanda e jasmim
Estendo-te meus braços,
enlaças meu corpo de mulher e nos deitamos na cama
perfumada de aromas
o nosso e o das flores
Nessa cama lavada
lavaremos as feridas, do corpo e da alma
esqueceremos o tempo e o longe que faz doer
na celebração do amor
que quisemos e esperamos acontecer
Mergulhar no fundo do mar dos sentidos
esquecer o mundo que oprime a razão
e no enlace único
seremos raízes que se agarram firmes
a um mesmo chão.
Cansaço
Desejado
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
Brumas
Via-te
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas
Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam
Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes
E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.
Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.
Pulsão
Falo
sem nome que te designe
sabendo de ti tão só o sinal
És fome de mãos
que as minhas segurem
és fome de um corpo
onde o meu se encontre
és fome de ser,
és fome de vida
e fome de mim…
Pressinto-te
convulsiva pulsão
que me refaz
à medida que se desfaz,
no meu ser estilhaçado,
explosões comedidas…adiadas…
Esta fome é a minha
e não tem nome..
esta fome sou eu
feita ou desfeita em pedaços
ausências, esperas,
gritos e silêncios
adiamentos, cansaços.
A Esse Amor
A
esse ser magoado a essa mulher amada
meu refúgio e meu ninho
eu quero curar as feridas abrir meu peito e mostrar
minhas cicatrizes vivas
E ternamente poisar minha cabeça e meus sonhos
sobre um coração abrindo-se
inteirinho para mim
e amá-la
infinitamente amá-la…
Com tudo o que sou e sinto
com duvidas, medos até
com a minha humanidade, a minha fragilidade
meus limites e meus erros
e dentro de mim plantá-la
como semente do amor
e amá-la
infinitamente amá-la!