Ilha dos Amores
Se
eu pudesse
olharia lá no fundo dos teus olhos,
segurava tuas mãos e te deixava envolver-me
no doce abraço que me desses...
abriríamos nosso peito, e sem surpresa acharíamos
o vermelho botão de rosa
que o tempo em nós fez florir...
e assim embarcaríamos rumo à Ilha dos Amores...
nossas mãos entrelaçadas,
nosso coração fremente,
nosso corpo em desalinho, buscando o voo mais alto
que nos faz pairar no tempo....
esse momento vivido, quase como eternidade,
em que alma e corpo unidos, num abraço intemporal,
nos trará a redenção de uma espera que forjou
nosso querer, nosso sentir...
E é por isso que agora
quando daqui olho o mar
o longe vira horizonte...
já não separa, aproxima
e se o sol nele se põe, eu vejo então reflectida
a clara luz que o tempo
me há- de trazer à vida.
A Esse Amor
A
esse ser magoado a essa mulher amada
meu refúgio e meu ninho
eu quero curar as feridas abrir meu peito e mostrar
minhas cicatrizes vivas
E ternamente poisar minha cabeça e meus sonhos
sobre um coração abrindo-se
inteirinho para mim
e amá-la
infinitamente amá-la…
Com tudo o que sou e sinto
com duvidas, medos até
com a minha humanidade, a minha fragilidade
meus limites e meus erros
e dentro de mim plantá-la
como semente do amor
e amá-la
infinitamente amá-la!
Flores Orvalhadas
De
toques suaves
são feitos os momentos
em que olho o corpo que amo
e desnudo
Vibrações, vozes, sussurros
os dias e as noites se enchem
feitos em clarões que abrasam
inteiros o corpo e a alma…
e são pétalas orvalhadas que embelezam
nossos corpos e perfumam como essências
a alma límpida que emerge em nós
depois do amor
Do querer que em nós é grito
cúmplice é o silêncio e a noite
que nos abriga em seu seio
e nos segreda em murmúrio
que o sonho é esse lugar que não é longe nem perto
e dentro de nós está
como o caminho mais certo.
Lua Prateada
Lua
poderosa, prateada lua
como um diadema
sobre a minha fronte
Lua que eu amo e me quer também
e dançando nua a dança da lua
é luz que ilumina minha noite fria
E sobre os que a amam
aos cachos derrama branca a sua luz ,
Lua prateada onde vou beber
os últimos raios que ainda
emanam ao amanhecer
Jardim das Delícias
Convido-te
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
Enluarada
Meus
olhos sacodem
poeiras de sono e estrelas
que sobram da noite, suspensa na memória
onde vibram palavras surgidas da tela
como pirilampos mágicos
atravessando o ar.
E nos meus olhos mal dormidos
passam voláteis as letras,
compondo palavras, gerando emoções
como notas musicais que bailam e ecoam
nocturnas cantatas que me lembram a Lua.....
E esse dia de sol, fica enluarado....
Meus olhos cansados, esquecem seu cansaço
e aguardam de novo a noite que há - de vir,
como deusa milenar do nada surgindo
trazendo em seu seio o enlace de amantes,
que longe e tão perto
em sonhos se abraçam.
Cardos e Rosas
De
rosas e cardos se adornam os dias
na alegria exaltante, na duvida nascente
no querer desmedido, no desejo sem limite
na lúcida consciência de um amanhã
que não sabemos se vem…
De rosas e cardos se faz este amor
que dói com razão por se saber ser
tão perto e tão longe
tão tudo e tão nada
quando a mão estende para tocar
e sente que o longe lá está.......
De rosas e cardos são feitos meus dedos
buscando tocar com leveza de rendas
ou a fúria do bicho em seu cio aceso
um corpo amado num lugar que é lá.....
A alma se enche e esvazia assim....
o longe cansa-me, canso–me de mim
e desse grito aflito,
da busca incessante com que bordo meus dias,
dor de filigrana fina…. entrelaçada,
noites que desfio numa longa espera.
Ah! Cansa-me esse longe….quero repousar!
O Apocalipse, é agora!
De Thanatos é a voz que ressoa
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
Trilho
Caminho
ao teu encontro para me encontrar
nesse cheiro de mata bravia
no fundo de um lago sereno
reflectido em tua alma
no sábio aprendizado trazido da vida
que tu nem pressentes,
na doce vibração do sentir
de mulher…
Caminho
como quem regressa a algo perdido
quiçá só esquecido
"isso" que não sei dizer,
que me trespassa o sentir
real como as mãos que olho
Caminho
sabendo que ali, nesse lugar que tem nome
tão perto e longe de mim
onde tu estás e eu estou,
eu encontrarei a chave
deste sentir que é o meu.
Será, então, que olharei
o pleno ser que pressinto
e saberei porque és
desde o começo um caminho
de volta a algo tão fundo
que julguei em mim perdido.
Templo
Terá
que ser e acontecer
o amor que assim é
o amor que assim quer...
Terá que ser e acontecer
esse amor que do fundo vem
que nos consome e alimenta
que nos abriga, e é ninho
água de fonte que brota.
Terá que ser e acontecer
esse amor de pedras raras
de noites sem sono
enluaradas,
onde o amor que fazemos é quase oração...
E no altar o que vemos?
a alma e o corpo deitados,
unidos sem culpas, sem medos,
porque o que for amor
será sagrado!