Ilha dos Amores
Se
eu pudesse
olharia lá no fundo dos teus olhos,
segurava tuas mãos e te deixava envolver-me
no doce abraço que me desses...
abriríamos nosso peito, e sem surpresa acharíamos
o vermelho botão de rosa
que o tempo em nós fez florir...
e assim embarcaríamos rumo à Ilha dos Amores...
nossas mãos entrelaçadas,
nosso coração fremente,
nosso corpo em desalinho, buscando o voo mais alto
que nos faz pairar no tempo....
esse momento vivido, quase como eternidade,
em que alma e corpo unidos, num abraço intemporal,
nos trará a redenção de uma espera que forjou
nosso querer, nosso sentir...
E é por isso que agora
quando daqui olho o mar
o longe vira horizonte...
já não separa, aproxima
e se o sol nele se põe, eu vejo então reflectida
a clara luz que o tempo
me há- de trazer à vida.
Essa Luz
No fundo
dos olhos,
desses olhos que me espelham
na voz que sussurra
e incandesce meu peito
no riso diamantino puro
que me devolve à inteireza
no indecifrável sentir
que vem de a saber em mim
vive a Luz
onde me aninho e renasço
a Luz que meus dias atravessa
e arde na minha vida
com o brilho que incendeia
o coração de uma estrela....
Meu ser inteiro
agora vive
para amanhecer com ela.
Metáfora
Ainda
que uma vez e outra
o diga
o fogo que em mim
dorme
não se diz...
o que remoça
a cada dia
brota
do chão primordial,
onde da vida arde
a sagrada chama
e tu, meu amor,
fogo da consumação
de que renasço...
a vida e a própria chama
sendo
Alto Mar
Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
Inominável
Escoam-se
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente
parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida
Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite
No hiato das palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo
é vago e é tanto....
E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber pressentido.
Dia
Internacional da Mulher)
Lançaram-nos
ao mundo
Despidas e desarmadas
E aceitamos caladas
Regras, tratados, pré-conceitos
E todos cuidavam saber
De que éramos feitas
E éramos menos
Em seus assentimentos
Fraco sexo, mãe devota
Rosto escondido por detrás dos véus,
Sofrimento e aceitação
Trancados soluços
Almas vexadas dentro de portas
E fomos o que quiseram que fossemos
Anos, dezenas, centenas, milhares deles
E fomos tudo isso, e tudo isso o somos ainda
Não sabendo , quantas de nós, que outra coisa
Somos já
O nosso despertar acordará todos os mágicos
Saberes, sabores, dizeres e sentidos
E ficaremos mais puras, mais perto de ser
Se nos olharmos à luz do que sempre
Havíamos sido sem saber
Viajamos pela História como sombras
Porque a noite era a dimensão que nos refletia
Mas descobrimos o prazer das bacantes
E erguemos nossa taça orgiástica ao sol
nos embriagamos de vida
e na vida mergulhamos
pois da vida criadoras
Os ventos da História
Sopraram mais fortes
E a descoberto, a olho nú
Surgiu a caixa Pandora
À luz do dia que nos furtaram
Clamamos paridade
Que iguais não somos
Antes este modo diverso de ser
E a tempestade atravessou a memória
E arrastou a poeira
Nas regras, tratados e pré-conceitos alojada
Estilhaçando a mentira que nos atava
Escavados os restos mortais,
Do que nunca fomos,
Na minúscula fração de um século
Ainda perguntamos:
- O que haveremos de ser??
Tudo!
Na caminhada infinita da Humanidade
Acabamos de nascer.
Em parte e no
todo
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
Elos
Na janela desenhada por detrás
de cada muro, primeiro o rosto
depois os cabelos bebem a brisa
que nela traz poeiras da estrela mais longínqua
Da minha mão à estrela, entre miríades
imperceptível é a distancia
imersas, a estrela e eu, no centro do mesmo mistério
sustidas pela mesma luz
embaladas no mesmo indecifrável berço.
Poema Atravessado
Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
Epifania
Des-obliterando uma palavra
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança