Epifania
Des-obliterando uma palavra
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança
Metáfora
Ainda
que uma vez e outra
o diga
o fogo que em mim
dorme
não se diz...
o que remoça
a cada dia
brota
do chão primordial,
onde da vida arde
a sagrada chama
e tu, meu amor,
fogo da consumação
de que renasço...
a vida e a própria chama
sendo
Cismo
Deixa bailando
no ar
o arabesco das formas
e os olhares conduz
naquele compasso
Passa
e no esboço de dança
o insuspeito convite
deixa ao passar
Em seu manear
se lhe agita o corpo,
e a cada passo
treme o chão também,
como se intrépido
o magma subisse
de repente à boca
de um velho vulcão
Seu passo é dança
que o mundo sacode
não sabe a morena
que ligeira passa
do breve tremor
que ao peito propaga
cada passo seu.
De onde a palavra
Pelas friestas
do Ser
espiam as palavras
e nelas, inexplicáveis,
a força das marés,
a macieza da pétala,
o bruto rasgar do cutelo
o alívio do unguento
Vêm e colhem no ar
ou na fundura da terra,
a dimensão do que for
e dizem sem desvendar
no seu afã, as palavras…
Emerge e regressa à penumbra
pressagiando, a palavra
como sibila que habita
o seio da obscuridade….
lugar de todos os nomes
onde repousa o sentido
daquilo que nos afronta
entre o silencio e o grito.
Gume do Ser
Colho o sentido de cada
gesto e signo
para adentrar as razões
deste caminho a fazer-se
de perplexidades, desatinos, descaminhos...
Acredito chegar ainda
ali, onde possa vislumbrar ou pressentir
o sentido mais além deste tudo aqui
A paz que desce nestes dias
afronta-me e até o amor florescido
se me torna estranho
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
Da paz não sei senão
a palavra onde habita
e não sei se quero a paz
de que não sou....
O mundo convulsivo chama...
como não ir seu encontro,
se a voz do sangue soa em mim,
irreprimível.
A Contas com Deus
Há dias
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....
E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!
Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...
E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!
Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve
Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....
Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?
Em parte e no
todo
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
Regresso
Gritámos por liberdade,
exigimos sua vivência,
e quando nos encontramos no centro desse imenso território,
quantas vezes não somos prisioneiros
da liberdade que não sabemos fruir...
a liberdade dos outros
esse umbral onde sempre paramos( ou deveríamos parar)
nos assusta mais ainda, quando do amor falamos...
mais do que a liberdade do outro
tememos que seu voo seja demasiado ousado,
como ave que vai e não regressa ao mesmo lugar.
É na verdade que se desenha nesse voo,
que vale a pena embarcar,
sentir e saber
que a ave, reconhecendo o caminho,
livre regressa ao beiral.
Ser ou Não
Ser
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
Alto Mar
Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.