Estrada de Luz
Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
O acordar dos sentidos
Emudecida,
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
Senda
A mim retornam
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
Chama
Atento no remurejar da alma
onde correm todas as marcas
como sargaços rumo à foz
dos dias brancos.
Tantos invernos entremeados
pela luz que ascende desse jardim,
onde ardem todas as promessas
de ouro, a viagem onde me circum-navego...
Quantos sonhos
quantos sóis arderam no caminho?
De luz sempre a busca,
ainda hoje se espelha
nas gotas de chuva onde me abrigo
neste canto do mundo...
De luz, de explosões
matinais é a fome
do que em mim
chamo de alma.
O Apocalipse, é agora!
De Thanatos é a voz que ressoa
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
Em Nome do Pai
Todos os
nomes inominável
te colam ao rosto, como se fosses forma,
corpo mesuravel, e tornam-te espelho
de impasses e limites, os nossos,
e chamam-te a grande presença
como se pudesses, sendo-o, caber nos estreitos
domínios onde tolhidos nos movemos
e pedem-te a benção na sagração
da guerra e na miragem de vitórias que a honra
lave, ante os escombros da civilização em ruínas
às mãos da barbárie que o rosto cobre...
saiem por aí nas armaduras espelhantes
ribombando tiradas moralistas
invocando protecções, ondulando bandeiras
que são suas, exibindo os dentes lavados
depois do canibalismo
são pútridos os restos que trazem agarrados
e desfilam pela história dos mortos
que esqueceram ou apagaram como riscos de giz
e discursivos acenam máximas aos vivos
que a memória dos seus mortos são agora ...
Manchados hoje os chãos de Nova York.....
os da Palestina, Hiroshima, Auschwitz e Guernica,
o chão exangue de África, quem lembra ainda?
Marcada a ferro e brasa a terra toda,
em teu nome, inominável, quantas vezes...
a soldo de quem não estás urge que o digas,
que não o sabem os que te dão rosto
os que te armam pra que mates em seu nome
os que se benzem com a mesma mão que esgana
os que erguem obeliscos e esculpem frases póstumas
os que se prostram ante o deus das míseras vitórias.
esses que nada sabem e pouco crêem
na estultícia de razões invocam o deus da inumanidade
e num voo ágil de águias
sobrevoam o espectáculo do mundo como Neros frios
cobrindo a terra com asas de anjo negro
em nome da liberdade que é a deles,
em nome duma pátria que é deles
em nome de um deus que é o deles.
Enquanto isso, apocalípticos sinais
desnudam o ventre imundo
onde germina a besta cega e bruta
em nome do pai!
Cismo
Deixa bailando
no ar
o arabesco das formas
e os olhares conduz
naquele compasso
Passa
e no esboço de dança
o insuspeito convite
deixa ao passar
Em seu manear
se lhe agita o corpo,
e a cada passo
treme o chão também,
como se intrépido
o magma subisse
de repente à boca
de um velho vulcão
Seu passo é dança
que o mundo sacode
não sabe a morena
que ligeira passa
do breve tremor
que ao peito propaga
cada passo seu.
Trans-Via
A noite caiu....
Ele desce a calçada
salto alto em equilíbrio
lábios de carmim....
e o desenho da boca
simulando o beijo
Num gesto estudado
aconchega os seios
requebra o andar
insinuando prazer
a quem passa....
A noite se alonga
na calçada fétida....
e num recanto escuro
acertado o preço
o seu corpo vende
aquele que passa..
Recompõe o vestido
retoca o carmim
espera quem passa
em busca do lado
que transgride a noite....
.. e sob um vestido
vermelho cintado
os prazeres proibidos
num recanto fétido
goza apressado.
Clave de Sol
Naqueles dias, havia um mágico som de flauta no ar, e só nós os escutávamos,
e era de arpa o som da chuva que nos adormecia
Naqueles
dias, havia sempre sol dentro da gente e nada podia quebrar a beleza dos
momentos de simplesmente estar juntas
Aqueles
dias serão os dias de um amanhã ressurgido, os dias que guardamos no fundo
da memória, os dias tatuados em nossa pele, os dias de saciar nossa sede.
Os nossos dias serão sempre assim:
Plenos, famintos de vida, embebidos da inocente alegria das coisas grandes,
porque simples
Escrita Invisível
Quando as
palavras, imprecisas
derem lugar aos sinais
de um corpo indiviso
metáfora do ser.....
Quando deitada
num chão de luz, te disser:
vem, atravessa comigo, este caminho
que outros não trilharam
ou se o fizeram, o chamado
de um chão virgem não sentiram
Crê, a voz que chama
ressoa do que em mim
resta de uma estrela,
do magma vulcânico,
dos corpúsculos e cristais
da memória longínqua e viva
que a minha alma
em ti procura.