Fórmula
Desço
aos porões
para me sentir e respirar por dentro
descer é o acto
que quebra a superfície branca dos meus dias
Afasto-me para pensar
e resgatar os sentidos
mas como se pode sentir e pensar
a um tempo único?
Indivisos são o que penso e sinto,
estou nesse ponto
onde a um só tempo sentir e pensar
é o exercício em que me equilibro.
Sei o que em mim e por mim é sentido,
e sei que o penso, como sei que o vivo se o não defino
viver é o versus do presumido acto
que nos agrilhoa ao que nos explica.
Sem, maniqueísmo ou falsas fronteiras
sou um tanto de tantos
e aos bocados inteira
cocktail sem receita, pensamento, barriga
emoção com asas e sonho com pés
sou a ocasional mistura que herdei
não quero saber-me , nem que me expliquem,
se eu vivo comigo
quem saberá de mim
o que eu não sei?
Eu Não Sei
Dizer Adeus
Eu
não sei dizer adeus.
Adeus tem o som laminado de farpa
atravessando o ar
directa ao cerne da ferida
Nunca soube dizer adeus.
Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas as marcas impressas
e Identificar meus sinais
Como dizer adeus?
Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis marcas deixadas
ao jeito de revisitação
Não direi adeus, jamais....creio!
Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado
Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!
(28.12.99)
Urgencia
Hoje é
decretado o estado de urgencia!
Ordens, decretos, leis
só aqueles emanadas da suprema
e soberana instancia
que é a Vida
Viver! A urgência é máxima!
Ao som de fanfaras e gritos
pelas cidades se anuncia:
clepsidras e ampulhetas esgotaram
a espera desmedida
e a eminente derrocada
dos romanos coliseus de nossa era
está prevista
A vida de saltimbanco
É decretada lei,
A terra inteira é nossa
e a profissão o perigo
de quem arrisca e ousa
desafiar o que venha
sem rede entre ele
e o chão
Anarquicamente viver
pelas ordens que emanam
do órgão que nos comanda
que nos anima e exalta
cuja voz é uma cadencia
que trespassa a mão pousada
no lado esquerdo do peito
Amar anarquicamente
pelas leis que o amor ditar
com seu curso e seus desvios,
amar os cambiantes do amor
que derruba o dever ser
e os moldes que nos tolhem
em busca da forma única
que é contida e contém
quando o amor é maior
e iguala a própria vida.
Passar o cabo da esperança
urge a hora da utopia.
além- eu, além- nós
além-leis, além limites,
romper diques, abrir comportas
a golpes reinventar
neste chão outros caminhos.
Cansamos,
este presente absurdo,
de pactuar e anuir,
de engolir nosso vómito
de estancar nossa raiva
de sufocar nosso grito
Cansamos!!!!!!!
Nega-Entropia
O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
Trans-Via
A noite caiu....
Ele desce a calçada
salto alto em equilíbrio
lábios de carmim....
e o desenho da boca
simulando o beijo
Num gesto estudado
aconchega os seios
requebra o andar
insinuando prazer
a quem passa....
A noite se alonga
na calçada fétida....
e num recanto escuro
acertado o preço
o seu corpo vende
aquele que passa..
Recompõe o vestido
retoca o carmim
espera quem passa
em busca do lado
que transgride a noite....
.. e sob um vestido
vermelho cintado
os prazeres proibidos
num recanto fétido
goza apressado.
Instantes
Espanto e
assombro
navegam meus dias
e na visão de uma gota de orvalho
toda a luz de um cristal plangente
se revela no instante
em que o mistério se acerca.
Diante das coisas do mundo
se abrem feridas
e cascatas de luz se derramam também
se abertas as fendas
por onde entrar possam
os sinais aos olhos invisíveis
Estremeço
diante de um beijo
que se sente como pura vibração
num recanto de uma esquina qualquer
trocado, marcado em duas bocas
que ignoro, exibindo ao mundo
na expressão de um beijo
a incontida força que assoma à boca
da paixão
Em tudo me sinto,
e nada é ausência ou sem sentido
se desço ao centro do assombro
que rasga meus olhos
e deixa perenes sinais
Sobre a varanda dos meus dias
espero a luz da revelação,
e pressagio
em cada momento que passa
o inesperado mensageiro
do mistério da vida
que persigo.
Deixo-me levar no que vem
abraçando isso que não sei dizer
e na doce melopeia que me embala,
surgida desse ficar atenta
sacudo resquícios de raiva insuspeita
e sinto-me perto...mais perto de mim.
Astro Rei
Lá vem
do fundo do nada
que à vida me trouxe..
ígneo me devolve
a luz e à beira-ser.
Deito-me no seu ocaso
e deixo-o acontecer
como um quente
e doce afago
dentro de mim
Ânima
Ânima
Podem estirar-me na pedra fria
deixar-me ao relento dos dias vácuos
podem esvair-me de sonhos,
pendurar minha alma ferida
para que a escarneçam
podem saquear-me a memória
fazer-me deambular contra o destino
na total amnésia
para que de mim me esqueça
podem saquear-me a alma
mas nunca a forma que tomou
podem estilhaçar-me a vida
mas os sinais da carne viva,
não!
Aconchegada pelo mistério
mais obscuro e profundo,
eu seguirei.
Secreta Morada
Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.