Dança da
Lua
No
meio da noite de uma lua prenhe,
me embalarás, cobrirás com teu corpo
e nele deixarás o sabor do teu abraço
que eu quis e esperei.
Numa noite de luar, ainda que não seja cheia
sob a clara luz das estrelas
eu dançarei para ti e beijarei tua boca
com toque de pedra rara,
incendiando o teu ser
e a noite de lua e prata.
Vi-te, não sei como e quando
e gravei em mim os contornos
que um dia me foram dados
ao jeito de revelação
Guardei-te para sempre em mim
na forma de cheiro e sabores,
tesouro que procurei nas alamedas da vida,
na escuridão dos meus dias
noutras almas que cruzei
só quero saber agora
porque ficamos à espera
de nos olharmos e ter e desvendar o mistério
do que seja o espaço e o tempo
nessa outra dimensão
em que por inteiro estejas
tu… e eu.
Pássaro
Azul a Horizonte
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
Retrato
De
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
Oferenda
Infinitamente,
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
Celebração
O
dia virá
ao dobrar duma esquina
onde a espera se fez longa
e os dias escritos correram
sem se cumprir
O dia virá
e longe as incertezas plenas nossas vidas
beberão da luz que as inundará
Esse dia virá
como um dia de festa para que o mundo saiba
do querer que emergiu e nos faz sentir
que a alma a par anda
e que a um só compasso
bate o coração que nos comanda
Pêndulo
Se
o coração ensaia o movimento pendular
como o deter?
Se um coração se abre como se abre
Por que abre?
Como porta que se escancara
depois de fechada estar
ou flor desabrochando
à luz de um claro raiar..
assim é o amor
quando ao coração ordena
que viva seu compasso pendular
Coração pendular.. alma leve
olhos atentos às esquinas do tempo
onde imprevisível uma razão
vive a espreitar
E é de repente que desenhado surge
o sinuoso caminho,
o imprevisível gesto do desocultar,
trazendo à luz a razão maior
da pendular cadencia estancar.
Coisas Simples
Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
Compromisso
Esquecerei
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......
assim moldada, forjada, foi.
Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.
Cama Lavada
Estendo-te
uma cama de orquídeas
e rosas
perfumo meu corpo com lavanda e jasmim
Estendo-te meus braços,
enlaças meu corpo de mulher e nos deitamos na cama
perfumada de aromas
o nosso e o das flores
Nessa cama lavada
lavaremos as feridas, do corpo e da alma
esqueceremos o tempo e o longe que faz doer
na celebração do amor
que quisemos e esperamos acontecer
Mergulhar no fundo do mar dos sentidos
esquecer o mundo que oprime a razão
e no enlace único
seremos raízes que se agarram firmes
a um mesmo chão.
Indeléveis
Sinais
Olho
as minhas mãos,
como as mãos que em ti pousaram
nelas busco a textura,
e a vibração do corpo que tocaram...
Olho dentro dos meus olhos
e no fundo deles busco
um outro olhar que em mim vive
preso ao que vejo e ao que sinto...
Olho o meu corpo onde leio sinais
de um sol que o queimou
o mesmo sol que nos viu
de mãos dadas e olhos fitos
num belo horizonte azul
fundindo-se com o infinito
E tento chegar à alma com os olhos que ela tem
aí não vejo....só sinto
as marcas inconfundíveis
que lapidaste em mim.