VIII, 46 - AO JOVEM QUESTO
Quanta pureza a tua, e quão pueris as formas,
Mais casto do que Hipólito, ó tão jovem Questo!
Diana te quer, e Dóris quer nadar contigo,
Cibele te prefere, inteiro que és, ao Frígio.
A Ganimedes podes suceder no leito,
Mas firme não darás a Jove mais que beijos.
Feliz quem te ferir, esposa, tal doçura,
E quem, virgem, de ti fizer, primeiro, um homem.
V, 55 - SOBRE UMA ÁGUIA TRANSPORTANDO JÚPITER
- Diz-me quem tu transportas, ó rainha das aves?
- Transporto o Deus Tonante. - E como El não detém
Na mão os raios seus? - Apaixonado está.
- Por quem é que o deus arde? - Por uma criança. -
E porque docemente, entreaberto o bico,
Te voltas para EI? - De Ganimedes falo.
IV, 71 - A SOFRÓNIO RUFO
Busco, Sofrónio Rufo, há muito, na cidade,
Menina que se negue. Mas nenhuma nega.
Como se pelos deuses, pela lei, negar-se
Não fora permitido, nenhuma se nega.
- Casta não é nenhuma? - Mil o são. - Que fazem
Pois elas? - Não se dão, mas também não se negam.
VI, 18 - A PRISCO, EPITÁFIO DE SALONINO
Santa de Salonino dorme em terra ibérica
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.
V, 59-A ESTELA
Se prata não, e se ouro te não mando,
Discreta Estela, é só para teu bem.
O que dá muito, algo deseja em troca.
Estes de barro vasos, não te obrigam.
V, 76 - A CINA
Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.
VI, 8 - A SEVERO
Pretores dois, e mais tribunos quatro,
Advogados sete, e poetas dez,
Todos à mão da filha se fizeram
De certo velho. E ele ao pregoeiro
Eulogo foi que a mão da jovem deu.
Não foi, Severo, sábia a decisão?
Nunca disse que fosses panasca
IV,43
Nunca disse, ó Coracino, que tu fosses panasca:
não sou tão temerário ou descarado
que me ponha a mentir sem mais aquelas!
Se eu disse, ó Coracino, que tu eras panasca,
que me destrua o frasco de veneno de Pôntia,
que me destrua o cálice de veneno de Metílio.
Juro-te pelos inchaços sírios,
Juro-te pelos furores berecíntios!
O que eu de facto disse, é coisa sem importância,
de todos conhecida, que nem tu mesmo negarás:
só disse que és, Coracino, um lambe-conas!
Se a coisa te não maça ou enfastia
I,97
Se a coisa te não maça ou enfastia, escazonte
eu te peço, ao meu caro Materno estas breves palavras
diz ao ouvido, de modo que ele apenas oiça.
Aquele apreciador de capotes sombrios,
que se veste de lã e de trajes conzentos,
que chama aos que usam roupas vermelhas maricas
e acha os tecidos cor de ametista próprios de mulheres,
por mais que gabe as vestes simples, e sempre use
sombrias cores, é esverdeado nos costumes.
Por que o julgo invertido?, perguntarás tu.
Tomamos banho juntos: nunca olha para cima,
mas com olhos vorazes contempla os paneleiros
e cresce-lhe água na boca ao ver caralhos.
Queres saber quem é ele? Já me escapou o seu nome.
Sem guarda à porta
I,35
Sem guarda à porta, com os batentes escancarados, ó Lésbia,
é que te apraz fazer amor, acto que nunca escondes.
Dá-te mais gozo um espectador do que um amante,
e não te dão prazer os prazeres que se ocultam.
Até a meretriz se esconde, corre a cortina e fecha a porta,
e nem por uma greta se vislumbra o interior do prostíbulo.
Aprende a ter pudor ao menos com Quíone ou com Íade:
até um túmulo serve para esconder tão reles putas.
Acaso te parece excessiva a minha censura, Lésbia?
Acho bem que forniques, em público é que não!