Eduardo Becher

Eduardo Becher

Curitiba, Brasil. Lirista dos próprios sentimentos.

2000-11-15
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A Nossa Tragédia

E as conversam se prolongavam como os capítulos intermináveis de uma peça;
nem por um momento pensávamos no fim, fator de tudo que nos cerca,
nem por um instante pensávamos na despedida, convenção social comum,
nem por um segundo seguíamos o roteiro ou percebíamos o olhar de fúria do diretor
quando as cortinas se fechavam e os nossos lábios permaneciam selados, em êxtase.

Eu não queria deixar o meu papel e você, a mais sublime Medeia, sentia o que eu sentia;
como duas almas que se enlaçam, esquecendo o que é externo,
como dois motivos que se juntam, formando uma irredutível certeza,
como um único espírito que desperta em noites brandas, quando a sala está vazia,
deixando-nos a sós com o desvelo daquilo que somos.

Na ausência de público, surge uma promessa que intriga as poltronas vazias do teatro:
contato eterno, daqueles que não são sugados pelo buraco negro da sociedade,
contato de quem ama, de quem se importa, ouve, conversa e novamente se apaixona
apenas para poder aproveitar cada detalhe de uma presença querida.
O diretor urrou de alegria ao ver, entrando pela porta, fileiras de pessoas entretidas,
e nós não deixamos de contracenar o tango, ou qualquer outra dança fatal.

E as conversas se tornaram raras no momento em que a vida nos polarizou;
nem por um momento pensávamos no fim, até que ele aconteceu,
nem por um instante pensávamos na despedida, e nunca tivemos uma,
nem por um segundo seguíamos o roteiro, mas notávamos a alegria do diretor
quando a promessa morreu, em silêncio, fazendo do romance uma tragédia.
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