SONHOS DE ABRIL
25
DE ABRIL "40 ANOS"
Sendo um facto que nada é eterno e que as mutações temporais, aliada á sabedoria e endurance de uma sociedade, deveriam evoluir, caminhando para um processo mais justo e mais solidário. Por isso, era ensejo, de grande maioria dos portugueses, que o 25 de Abril fosse liberdade e afirmação de dignidade humana e, de democracia vivida e instituída.
Infelizmente, nos últimos tempos, assiste-se paulatinamente à degradação dos valores mais elementares, emergindo a incúria, o erro torpe, a ausência de culpa e responsabilidade.
Em memória, de um passado recente, querendo que o mesmo seja mais que uma quimera, mais que uma memória, que seja o concretizar dos valores que geram a evolução da sociedade de forma criativa, participada e pacífica. Fica o poema, brotado do peito em palavras, de desencanto, de desilusão, mas ao mesmo tempo de esperança.
SONHOS DE ABRIL
Tristeza que corrói a alma e me enche de rugas
o rosto,
profundas, vincadas pela ansiedade, pelo
desejo de gritar,
de dizer não quero, por lutar e sentir
desgosto.
Por chorar por um Abril que não vejo, que
tarda a chegar,
por um Portugal diferente. Que não seja
adulterado
por governantes políticos, sem alma e sem
soluções.
Por um País de promessas, corrompido,
queimado,
conspurcado por ganâncias, manietado por obsessões.
Sinto neste silêncio podre, místico como a
morte
o vento do descontentamento e o som da agonia,
gélido, cortante, permanente, rodopiando sem
norte,
sugando a identidade, matando a alma da
harmonia.
Comendo nas entranhas a nobreza e a memória
de um povo que tem garra, que tem raça.
Apagando a herança dos sinais fortes da
história,
de quem foi forte de quem tem credo de quem
tem casta.
Agora, um grito de revolta na minha alma
ardente,
escorrido como água, por entre o rochedo da
razão,
num doce eco fluido, que se prolonga
permanente,
neste corpo curvado cansado da espera e de
solidão.
Sinto o meu coração elanguescido, fundir-se na
saudade,
daqueles momentos vividos no prelúdio da
incerteza,
resgatados na coragem dos capitães, que
fizeram a liberdade,
de armas e cravos na mão, honraram e cantaram
a Portuguesa.
Quero afastar esta tristeza, que me invade a
alma,
quero dormir embriagado, pelo doce sabor da
ilusão,
daquela noite diferente, inquieta, livre e
calma,
deram cores aos sonhos, deram corpos e almas à
razão.
Abril dos cravos, de cores mais vivas nessa
primavera,
sofreste, crescestes por entre estertores
moribundos,
ergue-te e sai de novo à rua e grita pela voz
do povo,
para que o sonho não seja turvo e a esperança,
uma quimera.
João Murty
Escritas.org