José João Murtinheira Branco

1954-01-27 Vila Franca de Xira
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SONHOS DE ABRIL

25 DE ABRIL "40 ANOS"

 Sendo um facto que nada é eterno e que as mutações temporais, aliada á sabedoria e endurance de uma sociedade, deveriam evoluir, caminhando para um processo mais justo e mais solidário. Por isso, era ensejo, de grande maioria dos portugueses, que o 25 de Abril fosse liberdade e afirmação de dignidade humana e, de democracia vivida e instituída.

  Infelizmente, nos últimos tempos, assiste-se paulatinamente à degradação dos valores mais elementares, emergindo a incúria, o erro torpe, a ausência de culpa e responsabilidade.

  Em memória, de um passado recente, querendo que o mesmo seja mais que uma quimera, mais que uma memória, que seja o concretizar dos valores que geram a evolução da sociedade de forma criativa, participada e pacífica. Fica o poema, brotado do peito em palavras, de desencanto, de desilusão, mas ao mesmo tempo de esperança.

 

 SONHOS DE ABRIL

 

 Tristeza que corrói a alma e me enche de rugas o rosto,

 profundas, vincadas pela ansiedade, pelo desejo de gritar,

 de dizer não quero, por lutar e sentir desgosto.

 Por chorar por um Abril que não vejo, que tarda a chegar,

 por um Portugal diferente. Que não seja adulterado

 por governantes políticos, sem alma e sem soluções.

 Por um País de promessas, corrompido, queimado,

 conspurcado por ganâncias, manietado por obsessões.

 

 Sinto neste silêncio podre, místico como a morte

 o vento do descontentamento e o som da agonia,

 gélido, cortante, permanente, rodopiando sem norte,

 sugando a identidade, matando a alma da harmonia.

 Comendo nas entranhas a nobreza e a memória

 de um povo que tem garra, que tem raça.

 Apagando a herança dos sinais fortes da história,

 de quem foi forte de quem tem credo de quem tem casta.

 

 Agora, um grito de revolta na minha alma ardente,

 escorrido como água, por entre o rochedo da razão,

 num doce eco fluido, que se prolonga permanente,

 neste corpo curvado cansado da espera e de solidão.

 Sinto o meu coração elanguescido, fundir-se na saudade,

 daqueles momentos vividos no prelúdio da incerteza,

 resgatados na coragem dos capitães, que fizeram a liberdade,

 de armas e cravos na mão, honraram e cantaram a Portuguesa.

 

 Quero afastar esta tristeza, que me invade a alma,

 quero dormir embriagado, pelo doce sabor da ilusão,

 daquela noite diferente, inquieta, livre e calma,

 deram cores aos sonhos, deram corpos e almas à razão.

 Abril dos cravos, de cores mais vivas nessa primavera,

 sofreste, crescestes por entre estertores moribundos,

 ergue-te e sai de novo à rua e grita pela voz do povo,

 para que o sonho não seja turvo e a esperança, uma quimera.

 

 João Murty

 

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