
Eduardo Guimaraens
Eduardo Guimaraens foi um poeta português cuja obra se insere num contexto de renovação lírica. A sua escrita, marcada por uma profunda sensibilidade e um domínio notável da forma, explorou temas universais como o amor, a passagem do tempo e a melancolia existencial. A sua poesia é reconhecida pela musicalidade, pela riqueza imagética e por uma linguagem cuidada, que evoca o melhor da tradição lírica portuguesa, ao mesmo tempo que dialoga com as inquietações da modernidade. Apesar de uma produção literária menos extensa em comparação com outros vultos da poesia portuguesa, a obra de Guimaraens deixou uma marca indelével, sendo apreciada pela sua profundidade e pela beleza formal. O seu legado reside na capacidade de traduzir em verso as complexidades da alma humana com uma elegância e uma autenticidade singulares.
Na solidão do parque abandonado
chora, abraçado às àrvores, o vento.
Ouve-se da água o trêmulo lamento
sobre as conchas de mármore gelado.
Sobe, lúcida, a lua. Solitário,
foge smorzando, sob o azul sereno,
como um grito de amor, o último treno
do último e doloroso stradivário.
— "Oh, dá-me o teu desejo! Sob o vasto,
noturno encanto, dá-me o teu desejo!
Quero a tua alma que, entre os lírios, vejo
como outro lírio, luminoso e casto!
Por que te afastas sempre do meu passo?
Sou o mudo exilado do teu seio...
Não sentirás jamais o meu anseio?
Levam-me o Amor e a Morte, pelo braço."
Que estranha insônia acorda o mal pressago,
vem despertar o antigo pesadelo?
Pudesse a lua, ao menos, compreendê-lo!
Perde-se, ao longe, o último acorde vago.
Sobre as conchas de mármore, gelado,
não se ouve mais o trêmulo lamento.
Queda-se a lua. Silencia o vento.
Dorme, sombrio, o parque do Passado.
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
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