
Eduardo Guimaraens
Eduardo Guimaraens foi um poeta português cuja obra se insere num contexto de renovação lírica. A sua escrita, marcada por uma profunda sensibilidade e um domínio notável da forma, explorou temas universais como o amor, a passagem do tempo e a melancolia existencial. A sua poesia é reconhecida pela musicalidade, pela riqueza imagética e por uma linguagem cuidada, que evoca o melhor da tradição lírica portuguesa, ao mesmo tempo que dialoga com as inquietações da modernidade. Apesar de uma produção literária menos extensa em comparação com outros vultos da poesia portuguesa, a obra de Guimaraens deixou uma marca indelével, sendo apreciada pela sua profundidade e pela beleza formal. O seu legado reside na capacidade de traduzir em verso as complexidades da alma humana com uma elegância e uma autenticidade singulares.
Dante
e pelo ardor febril a que a alma nos conduz,
florindo para o azul, irrompendo do inferno,
Dante evoca um abismo onde há lírios de luz.
Cada verso revela um fundo imenso de erma
tristeza em que uma voz alucinada clama:
e ora, inútil recorda a asa de uma águia enferma,
ora a ascensão brutal de uma língua de chama.
Dá-me, agora, o terror de uma visão que assombra.
Torvo, Ugolino sofre a sua fome atroz;
tem Virgílio a expressão sagrada de uma Sombra;
uiva um blasfemo! E a selva é lúgubre e feroz.
Lembra, após, o esplendor pesadelar de um sonho
magnífico e sangrento, em que anjos maus esvoaçam,
quando por mim, à flor do turbilhão tristonho,
enlaçados e nus, Paolo e Francesca passam...
Dante! — Quero-o, porém, mais doloroso e terno,
mais humano, a compor, torturado e feliz,
sob a angústia mortal do seu secreto inferno,
uma canção de amor em louvor de Beatriz!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
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