António Botto

António Botto

António Botto foi um poeta português que marcou a sua época pela ousadia temática e pela abordagem direta da sensualidade e do amor, incluindo o amor homossexual, num período conservador. A sua poesia, embora por vezes controversa, revelou uma sensibilidade lírica apurada e um desejo de liberdade de expressão. Botto é uma figura importante na história da literatura portuguesa pela sua coragem em abordar temas tabu e pela sua contribuição para a modernização da poesia.

1897-08-17 Concavada
1959-03-04 Rio de Janeiro
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Andava a lua nos céus

Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.

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