

David Mourão-Ferreira
David Mourão-Ferreira foi um proeminente poeta, escritor e crítico literário português. A sua obra poética, marcada por uma profunda sensibilidade lírica e um rigor formal apurado, explorou temas como o amor, o tempo e a efemeridade da existência, muitas vezes com uma linguagem depurada e musicalidade ímpar. Além da sua vasta produção literária, David Mourão-Ferreira dedicou-se ativamente à crítica e à promoção da cultura, deixando um legado significativo no panorama literário português.
1927-02-24 Lisboa
1996-06-16 Lisboa
304693
13
482
Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
5234
6
Mais como isto
Ver também
Escritas.org