Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho foi um poeta brasileiro cuja obra explorou a complexidade da existência humana, a efemeridade do tempo e a busca por sentido em meio à modernidade. Sua poesia é marcada por uma profunda reflexão existencial e por uma linguagem densa e imagética, que transita entre o lirismo e a crítica social. Através de versos que frequentemente dialogam com a tradição literária e com as inquietações do seu tempo, Espinheira Filho consolidou-se como uma voz singular na poesia brasileira contemporânea, deixando um legado de obras que convidam à introspecção e ao questionamento.

1942-12-12 Salvador
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Poema

A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque — antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre champanhe, aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, ativa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

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