Sebastiao_Xirimbimbi

Sebastiao_Xirimbimbi

b. 1994

n. 1994-02-24, Luanda

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Não falo política

Não falo política,
mas ela escorre nas lágrimas
das crianças mortas
pela malária que não perdoa,
pela febre amarela que revolta,
pela cólera que encontra
sempre um povo sem água limpa e um hospital sem remédio.

Não falo política,
mas ela mora nas maternidades lotadas,
no olhar cansado da mãe
que segura o filho febril
e segura também a esperança
de um amanhã diferente desde o 4 de Abril.

Não falo política,
mas ela desenha a fome
no prato vazio
do povo da periferia.
Fome que não aparece nas estatísticas,
mas aparece no silêncio da panela
que não ferve.

Não falo política,
mas ela stá no suor da zungueira
que, com o caçula nas costas,
zunga sob o sol impiedoso,
equilibrando na cabeça
mais do que mercadoria 
equilibrando a sobrevivência.

Não falo política,
mas ela está no desemprego
do jovem formado
que guarda o diploma
na gaveta da frustração
e aprende a sobreviver
com mixas e promessas.

Não falo política,
mas ela grita
na boca das mulheres abusadas
pela ausência de segurança
que nunca chega,
nas ruas mal iluminadas,
nos becos esquecidos,
nas estradas esburacadas.

Não falo política,
mas ela pesa
na dignidade rasgada
de quem denuncia
e volta para casa
com medo.

Não falo política,
mas ela está nas escolas
sem carteiras suficientes,
no professor que ensina
mais por vocação do que por salário,
no aluno que sonha alto
num teto que chove.

Não falo política,
mas ela vive
no sofrimento das viúvas de maridos vivos…
homens que distribuíram semens e não assumiram os filhos.

Não falo política,
mas ela acorda 
no choro calado
dos órfãos de pais vivos,
abandonados pela ausência,
criados pela avó cansada
que ainda assim chama de bênção
aquilo que o mundo chama de peso.

Não falo política,
mas ela está na juventude
que bebe e dança para esquecer,
que ri para não chorar,
que resiste porque desistir
é morrer antes do tempo.

Não falo política,
mas ela respira nas ruas,
anda descalça nos bairros,
atravessa mercados, hospitais e cemitérios.

Não falo política,
mas falo de justiça.
Falo de dignidade.
Falo de vida.

Por: Sebastião Xirimbimbi

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Não falo política

Não falo política,
mas ela escorre nas lágrimas
das crianças mortas
pela malária que não perdoa,
pela febre amarela que revolta,
pela cólera que encontra
sempre um povo sem água limpa e um hospital sem remédio.

Não falo política,
mas ela mora nas maternidades lotadas,
no olhar cansado da mãe
que segura o filho febril
e segura também a esperança
de um amanhã diferente desde o 4 de Abril.

Não falo política,
mas ela desenha a fome
no prato vazio
do povo da periferia.
Fome que não aparece nas estatísticas,
mas aparece no silêncio da panela
que não ferve.

Não falo política,
mas ela stá no suor da zungueira
que, com o caçula nas costas,
zunga sob o sol impiedoso,
equilibrando na cabeça
mais do que mercadoria 
equilibrando a sobrevivência.

Não falo política,
mas ela está no desemprego
do jovem formado
que guarda o diploma
na gaveta da frustração
e aprende a sobreviver
com mixas e promessas.

Não falo política,
mas ela grita
na boca das mulheres abusadas
pela ausência de segurança
que nunca chega,
nas ruas mal iluminadas,
nos becos esquecidos,
nas estradas esburacadas.

Não falo política,
mas ela pesa
na dignidade rasgada
de quem denuncia
e volta para casa
com medo.

Não falo política,
mas ela está nas escolas
sem carteiras suficientes,
no professor que ensina
mais por vocação do que por salário,
no aluno que sonha alto
num teto que chove.

Não falo política,
mas ela vive
no sofrimento das viúvas de maridos vivos…
homens que distribuíram semens e não assumiram os filhos.

Não falo política,
mas ela acorda 
no choro calado
dos órfãos de pais vivos,
abandonados pela ausência,
criados pela avó cansada
que ainda assim chama de bênção
aquilo que o mundo chama de peso.

Não falo política,
mas ela está na juventude
que bebe e dança para esquecer,
que ri para não chorar,
que resiste porque desistir
é morrer antes do tempo.

Não falo política,
mas ela respira nas ruas,
anda descalça nos bairros,
atravessa mercados, hospitais e cemitérios.

Não falo política,
mas falo de justiça.
Falo de dignidade.
Falo de vida.

Por: Sebastião Xirimbimbi

28

Presos Livres, Livres Presos.

Livres fisicamente,
mas presos espiritualmente.

Aprisionados ao passado,
mentalmente escravos
de padrões de beleza
impostos pelo colono.

Presos à falsa liberdade,
escravos da futilidade,
da aparência,
da validação,
da necessidade de parecer
aquilo que não são.

Presos da imoralidade 
das redes, das imagens, dos likes,
escravos da futilidade.

Engravidam ainda menores de idade,
e a infância perde-se
antes de conhecer a maturidade.

Triste realidade.

Presos ao sexo, entregam o corpo, mas não entregam o coração 
Fazem filhos,
mas não lhes dão educação.

O esperma gera o filho,
mas não gera um pai.

Porque ser pai
é muito mais do que fecundar.
É estar.
É educar.
É proteger.
É dar atenção.
É ensinar o caminho
quando o mundo tenta desviá-lo.

E enquanto alguns procuram fama
vazando imagens íntimas,
a dignidade transforma-se em espetáculo.

A intimidade deixou de ser sagrada.
O escândalo virou conteúdo.
A vergonha virou entretenimento.
E a exposição tornou-se
um atalho para a fama.

Não há educação.
Não há escolaridade suficiente.
Não há formação para a liberdade.

E como pode um povo ser livre
se continua escravo
daquilo que lhe ensinaram a desejar?

Mudaram as correntes,
mas não acabaram os cativeiros.
O colono pode ter ido embora,
mas algumas prisões
ficaram dentro.

São livres para caminhar,
mas ainda não aprenderam 
a andar.

Presos livres.

Corpos libertos,
mentes acorrentadas.

Por: Sebastião Xirimbimbi 

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