Abgar Renault

Abgar Renault

1901–1995 · viveu 94 anos BR BR

Abgar Renault foi um jurista, professor universitário e escritor brasileiro, com uma obra literária que se destaca pelo lirismo e pela reflexão sobre temas existenciais e sociais. Sua poesia, muitas vezes marcada por uma profunda sensibilidade e por um olhar crítico sobre a condição humana, o consagrou como um nome relevante na literatura brasileira, embora sua atuação no campo jurídico e acadêmico também tenha sido de grande importância.

n. 1901-04-15, Barbacena · m. 1995-12-31, Rio de Janeiro

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7

Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!


Publicado no livro A outra face da lua (1983).

In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
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Biografia

Identificação e contexto básico

Abgar Renault foi um jurista, professor universitário, poeta e ensaísta brasileiro. Nascido em Curvelo, Minas Gerais, foi uma figura proeminente no meio intelectual e jurídico do Brasil. Sua obra literária é marcada por um lirismo profundo e por reflexões sobre a condição humana, a sociedade e a espiritualidade. Foi professor de Direito Penal na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro da Academia Mineira de Letras.

Infância e formação

Abgar Renault teve uma formação sólida, que o levou a cursar Direito, área em que se destacou como jurista e professor. Paralelamente, desenvolveu uma forte inclinação para a literatura, influenciado pelo ambiente cultural de Minas Gerais e por leituras que moldaram sua visão de mundo e sua expressão poética. Sua formação dual, entre o Direito e as Letras, conferiu-lhe uma perspectiva única e multifacetada.

Percurso literário

O percurso literário de Abgar Renault começou a ganhar destaque com a publicação de suas obras poéticas e ensaísticas. Sua escrita evoluiu ao longo do tempo, mantendo um fio condutor de reflexão e lirismo. Colaborou com diversas publicações, contribuindo com sua visão crítica e sua sensibilidade poética. Sua atividade como professor e jurista também dialogava com seu universo literário, enriquecendo sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Abgar Renault incluem livros de poesia e ensaios, como "Ventos de Minas" e "A Busca do Ser". Seus temas recorrentes envolvem a reflexão sobre a vida, a morte, o tempo, a justiça e a espiritualidade. O estilo poético de Renault é marcado pela clareza, pela musicalidade e por uma linguagem que, embora acessível, carrega profundidade e densidade imagética. Frequentemente aborda a dualidade entre o ser e o existir, o individual e o coletivo. Sua obra dialoga com a tradição literária brasileira, ao mesmo tempo em que apresenta um olhar contemporâneo sobre as questões humanas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Abgar Renault viveu e produziu em um período de significativas transformações no Brasil, especialmente no âmbito intelectual e político. Sua atuação como professor universitário e membro de instituições culturais como a Academia Mineira de Letras o colocou em contato com outros importantes pensadores e artistas de sua época. Sua obra reflete, em muitos aspectos, as inquietações e os debates de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Abgar Renault dedicou grande parte de sua vida ao magistério e ao Direito, conciliando essas atividades com sua paixão pela literatura. Sua vida pessoal, embora não amplamente explorada em detalhes públicos, é marcada por sua integridade intelectual e por sua busca por um sentido mais profundo da existência. Suas crenças e posições, refletidas em sua obra, denotam um profundo humanismo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Abgar Renault foi reconhecido por sua contribuição para a literatura e para o Direito no Brasil. Sua obra poética conquistou um espaço importante, sendo admirada por seu lirismo e pela profundidade de suas reflexões. Sua atuação acadêmica também lhe rendeu prestígio e respeito.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Abgar Renault incluem a rica tradição literária brasileira e o pensamento jurídico. Seu legado reside na sua capacidade de unir a precisão do jurista com a sensibilidade do poeta, oferecendo uma obra que convida à reflexão sobre os grandes temas da vida. Sua poesia continua a ressoar com leitores que buscam profundidade e beleza na palavra.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Abgar Renault tem sido objeto de análise por sua relevância filosófica e literária. Suas reflexões sobre a condição humana, a busca pelo sentido e a crítica social são pontos de interesse para a crítica, que destaca a força de sua poesia em abordar questões universais com uma linguagem singular.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da vida de Abgar Renault podem incluir detalhes sobre seus hábitos de escrita, suas inspirações mais íntimas ou episódios de sua vida pessoal que moldaram sua visão de mundo. Sua dualidade como jurista e poeta é, em si, um aspecto fascinante de seu perfil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Abgar Renault faleceu em Belo Horizonte. Sua memória é preservada através de sua obra literária e de seu legado como jurista e professor, sendo lembrado como um intelectual que soube transitar com maestria entre diferentes áreas do conhecimento, sempre com um olhar humanista e reflexivo.

Poemas

5

7

Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!


Publicado no livro A outra face da lua (1983).

In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
1 243

Interrogativamente

Para que escovar os dentes?
Por que esperar mais, e o quê?
Por que pensar em parentes
e indagar por que é que o são?
Por que buscar conhecer
se é real o que o olhar vê,
se é normal a pulsação,
se são o que devem ser
uréia e colesterol?
Em vez de banhos de sol,
por que não banhos de luar?
Por que escrever este poema
e não aquele ou nenhum?
Por que é que o remador rema,
rema, rema, nunca rima,
e eu não rimo barco algum?
quem me assegura que acima
não é um advérbio de tempo
que foi mal classificado?
Por que razão eu contemplo
no meu espelho quebrado
esta barba dura e triste?
Irei fazê-la de novo,
eu que no sábado a fiz?
Por que meter-me entre o povo
pensando que esquecerei
que num pensado país
tive coroa de rei
e já fui muito feliz?
Por que ler, por que não ler
cartas, livros e jornais?
E por que tomar sorvetes
e tristezas vesperais?
Esconder mil cacoetes
por que, para que e como?
Comerei, não comerei
da laranja só um gomo?
Por que saber o que sei?
Por que indagar sem resposta?
E por que fazer perguntas
a tantas coisas defuntas?
Vou escovar estes dentes,
esta barba vou fazer,
vou abrir aquela porta
a todos os meus parentes,
fumar, beber, rir sem mim,
esquecer a vogal i,
— o finíssimo i de fim —,
o o grosso e gordo de boi,
pois o que não nunca foi,
se foi, só foi como se.


Publicado no livro A outra face da lua (1983).

In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
1 224

Depois

Para onde irão depois as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?


In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série O Rio Escuro.
1 167

Retorno de Pasárgada

Do que vi, do que fiz, do que compus, do que andei
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.


Publicado no livro A outra face da lua (1983).

In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
1 364

Ônibus

Vem atulhado de gente,
vai atulhado de gente,
gente que vai trabalhar,
gente que parte cansada,
gente que volta cansada
de um incurável cansaço.
Ônibus que é para todos
os que não podem parar
Ônibus de velhos, moços,
mulheres, meninos, crianças,
estudantes e pedreiros,
pintores e professores,
mecânicos e bombeiros
enfumaçados e tristes
a dormir durante a viagem.
Dormem, mas dormem que sono?
Dormem sonhando que sonhos?
Sonhos de amor ou de guerra?
No espaço ou no chão de terra?
Ai! daqueles que não dormem
e não têm sonho nenhum
no estreito aperto dos bancos
ou de pé aos solavancos
dentro do ônibus mortal
de uma vida não vivida
em que a maior alegria
tem um olhar de tristeza
ri meio sorriso triste
e não desce onde deseja
mas onde o trânsito quer.
Triste ônibus desta vida.


In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série Cristal Refratário.
1 276

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