Adalgisa Nery

Adalgisa Nery

1905–1980 · viveu 74 anos BR BR

Adalgisa Nery foi uma poetisa, jornalista e ativista política brasileira, conhecida pela sua poesia lírica e social, que abordava temas como o amor, a condição feminina, a injustiça social e a esperança. Com uma obra que transita entre o lirismo intimista e o engajamento cívico, Adalgisa Nery marcou a literatura brasileira do século XX. A sua voz poética, forte e sensível, ecoou a sua atuação como defensora de causas humanitárias e sociais.

n. 1905-10-29, Rio de Janeiro · m. 1980-06-07, Rio de Janeiro

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Poema da Amante

Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.



Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita dos tempos

Até a região onde os silêncios moram.



Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.



Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

E em tudo que ainda estás ausente.



Eu te amo

Desde a criação das águas,desde a idéia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.



Eu te amo perdidamente

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Adalgisa Nery nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. Foi uma poeta, jornalista e ativista política. A sua obra é reconhecida pelo seu lirismo e pelo seu engajamento social. Viveu grande parte do século XX, um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil e no mundo.

Infância e formação

Adalgisa Nery teve uma infância marcada pela educação formal e pelo contato com a literatura, que desde cedo despertou o seu interesse. Absorveu influências culturais e intelectuais que a prepararam para a sua futura atuação como escritora e militante.

Percurso literário

O percurso literário de Adalgisa Nery iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, que rapidamente chamaram a atenção pela sua originalidade e sensibilidade. Ao longo da sua carreira, a sua obra evoluiu, explorando diferentes facetas do lirismo e do engajamento social. Colaborou ativamente em jornais e revistas, notabilizando-se também como jornalista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais notáveis, destacam-se livros que exploram temas como o amor, a morte, a alma feminina, a desigualdade social e a busca por um mundo mais justo. O seu estilo poético é marcado pela clareza, pela musicalidade e pela força expressiva, utilizando frequentemente o verso livre e uma linguagem acessível, mas carregada de emoção e reflexão.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Adalgisa Nery viveu e produziu durante um período crucial da história brasileira, marcado por regimes políticos instáveis e por um efervescente movimento cultural. A sua obra reflete as tensões sociais e políticas da época, posicionando-se claramente ao lado das causas humanitárias e democráticas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Adalgisa Nery foi marcada pela sua paixão pela escrita e pela sua dedicação às causas políticas e sociais. Manteve relações significativas que influenciaram a sua visão de mundo e a sua poesia. A sua atuação como jornalista e ativista foi uma parte indissociável da sua identidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Adalgisa Nery conquistou um lugar de destaque na literatura brasileira, sendo reconhecida pela sua obra poética e pelo seu ativismo. A sua poesia foi aclamada pela crítica e pelo público, e o seu nome tornou-se sinónimo de lirismo engajado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra influenciou gerações de poetas e escritoras, especialmente aquelas que buscavam conciliar a expressão lírica com um olhar crítico sobre a realidade. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz às inquietações femininas e às lutas por justiça social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Adalgisa Nery é frequentemente analisada sob a ótica do lirismo social e da representação da experiência feminina. As suas obras convidam à reflexão sobre a condição humana, a busca pela liberdade e a importância da solidariedade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Adalgisa Nery é o seu envolvimento direto em movimentos de resistência e a sua coragem em expressar opiniões políticas em tempos difíceis, o que a tornou uma figura admirada pela sua integridade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Adalgisa Nery faleceu no Rio de Janeiro, deixando um legado literário e político significativo. A sua memória é celebrada pela sua contribuição para a poesia brasileira e pela sua incansável luta por um mundo mais justo.

Poemas

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Poema da Amante

Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.



Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita dos tempos

Até a região onde os silêncios moram.



Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.



Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

E em tudo que ainda estás ausente.



Eu te amo

Desde a criação das águas,desde a idéia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.



Eu te amo perdidamente

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.
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Poema ao Silêncio

Silencio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz

Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção

Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!

(Adalgisa Nery)
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A um homem

Quando numa rocha porosa

Cansado te encostares
E dela vires surgir a umidade e depois a gota,
Pensa, amado meu, com carinho,
Que aí esta a minha boca.

Se teus olhos ficarem nas praias
E vires o mar ensalivando a areia
Com alegria pensa amado meu
Num corpo feliz
Porque é só teu.

Se descansares sob uma arvore frondosa
E além da sombra ela te envolver de ar resinoso
Lembra-te com entorpecência amado meu,
Da delicia do meu ventre amoroso.

Quando olhares o céu
E vires a andorinha tonta na amplidão
Pensa amado meu que assim sou eu
Perdida na infindável solidão.

A noite quando as trevas chegarem
E vires do firmamento
Uma estrela cair e se afundar
É sinal amado meu
Que o teu amor vai me abandonar.

Na morte, quando perderes o último sentido
E a tua própria voz
Em forma de pensamento
Te subir ao ouvido
Deixa escorrer a derradeira lagrima pelo teu rosto
Nascida do extremo alento do coração
E pensa então amado meu
Que ainda é um suave carinho da minha mão!

(Adalgisa Nery)
1 996

A Espera

Amado... Por que tardas tanto?
As primeiras sombras se avizinham
E as estrelas iniciam a noite.
Vem...
Pois a esperança que se acolheu em meu coração
Vai deixá-lo como um ninho abandonado nos penhascos.
Vem...Amado..
Desce a tua boca sobre a minha boca.
Para a tua alma levar a minha alma
Pesada de sofrimento!
Vem...
Para que, beijando a minha boca
Eu receba a sensação de uma janela aberta.
Amado meu...
Por que tardas tanto?
Vem...
E serás como um ramo de rosas brancas
Pousando no túmulo da minha vida...
Vem amado meu...
Por que tardas tanto?

(Adalgisa Nery)
2 110

Instante

O espanto abriu meu pensamento
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.

(Adalgisa Nery)
1 866

Estigma

Não receio que partas para longe,
Que faças por fugir, por te livrares
Da força da minha voz
E da compreensão do meu olhar.

Não temo que os mares te levem
No bojo dos transatlânticos
Nem tampouco me amedronta
Que em possantes aviões
No céu e na terra,
Cortes espaços sem conta
Em todos os seres me encontrarás.

Serena ficarei se disseres
Que na certa me olvidarás
No ventre da mata virgem,
Nas areias dos desertos
Ou no amor de outras mulheres que terás.

Não importa.
Nada temo e desejo mesmo que o faças
Para que saibas o quanto estou em teus sentidos
E que a minha forma, o meu espírito
Jamais da tua existência passa.

Se fugires pelos mares
Tu me veras na espuma leve da onda,
Me sentiras no colorido de um peixe
E a minha voz escutaras dentro de uma concha.

Se partires pelos ares,
Certamente na brancura de uma nuvem
Tu sentirás a maciez e a alvura
Das minhas carnes.

Se fores para a floresta
Hás de me ver
Na árvore mais florida e harmoniosa
Atravessando areias cálidas do deserto.
Sei que trocarias o lenitivo de um oásis
Pela certeza de me teres perto.

E nas mulheres que encontrares,
Dos seios o perfume, das nucas a palidez,
Das ancas as curvas
E das peles a cor e a tepidez,
Fica certo, não te evadirás.

Porque desde a tua sombra
Ao teu mais rápido pensamento
Não serás livre de mim
Num um momento.

(Adalgisa Nery)
2 125

Mistério

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.

Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.

Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.

Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência...
na ânsia de saber quem grita.

(Adalgisa Nery)
1 788

Escultura

Eu já te amava pelas fotografias.

Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.

Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.

Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.

E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...

(Adalgisa Nery)
1 719

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