Adélia Prado

Adélia Prado

n. 1935 BR BR

Adélia Prado é uma poetisa brasileira contemporânea, conhecida pela sua poesia que entrelaça o cotidiano com o sagrado, o profano com o espiritual, e o trivial com o transcendente. A sua obra, marcada por uma linguagem direta, coloquial e por vezes inesperadamente lírica, reflete uma profunda reflexão sobre a condição feminina, a fé, o corpo, a morte e a busca por sentido numa realidade muitas vezes desprovida de transcendência. Prado oferece uma visão única da vida urbana e das relações humanas, onde a poesia emerge dos gestos mais simples e dos momentos mais corriqueiros, revelando a beleza e o mistério escondidos na experiência quotidiana.

n. 1935-12-13, Divinópolis

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Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
[quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Adélia Prado é uma proeminente poeta, contista e ensaísta brasileira, nascida em Divinópolis, Minas Gerais. É uma das vozes mais singulares e influentes da literatura brasileira contemporânea. A sua obra é marcada por uma profunda conexão com o cotidiano, o corpo, a fé religiosa e a busca por um sentido transcendental em meio à vida comum. Escreve em português e a sua poesia é reconhecida pela originalidade e pela capacidade de aliar o prosaico ao sagrado.

Infância e formação

Adélia Prado cresceu em Divinópolis, uma cidade do interior de Minas Gerais, onde a sua experiência de infância e juventude, marcada por uma forte religiosidade católica e pela vida em família, viria a influenciar profundamente a sua obra. Teve uma formação escolar básica e, apesar de não ter seguido um percurso académico tradicional ligado às letras, sempre foi uma leitora voraz e uma observadora atenta do mundo à sua volta.

Percurso literário

O início da sua carreira literária deu-se com a publicação do seu primeiro livro de poemas, "Bagagem", em 1976, que obteve um sucesso imediato e surpreendente. Desde então, Adélia Prado tem vindo a consolidar a sua posição como uma das vozes poéticas mais importantes do Brasil, alternando a publicação de poesia com contos e ensaios. A sua obra evoluiu no sentido de um aprofundamento das suas temáticas centrais, explorando com cada vez mais mestria a relação entre o corpo e o espírito, o terreno e o celeste.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais conhecidas incluem "Bagagem" (1976), "O Coração Desانوں" (1978), "Terra de Santa Cruz" (1981), "Mulheres" (1985), "A Faca no Peito" (1988) e "Oráculos de Primavera" (2013). Os temas centrais na sua poesia são a fé religiosa, o corpo, a sexualidade, a vida quotidiana, a condição feminina, a morte e a busca pelo sagrado em tudo. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem acessível, coloquial e próxima do falar popular, mas que, com uma subtileza impressionante, é capaz de atingir momentos de grande lirismo e profundidade metafísica. Utiliza a metáfora de forma original e a sua voz poética é ao mesmo tempo íntima, confessional e universal. Adélia Prado insere-se numa linha de continuidade com a tradição literária brasileira, mas introduz uma perspetiva única sobre a experiência feminina e a religiosidade no mundo contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Adélia Prado surge num período de efervescência cultural e política no Brasil, com o fim da ditadura militar e a redemocratização. A sua obra, no entanto, não se insere em movimentos literários específicos, mas dialoga com a tradição da poesia brasileira, especialmente aquela que explora a identidade e a fé. A sua popularidade e o reconhecimento crítico demonstram a relevância da sua voz num contexto de busca por novas formas de expressão e de espiritualidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Adélia Prado é casada e tem filhos. A sua vida pessoal, com os seus desafios e alegrias, reflete-se de forma intensa e honesta na sua obra. A sua religiosidade católica é um pilar fundamental na sua vida e na sua criação poética. A sua experiência como mulher, mãe e cidadã molda a sua visão do mundo e a sua abordagem aos temas que explora.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Adélia Prado é uma das poetisas brasileiras mais lidas e admiradas, tanto em Portugal como em outros países de língua portuguesa. Recebeu diversos prémios literários importantes e a sua obra tem sido objeto de estudos académicos aprofundados. A sua capacidade de tocar o leitor com a sua autenticidade e a sua profundidade garantiu-lhe um lugar de destaque na literatura contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora seja difícil apontar influências diretas, a sua obra dialoga com a tradição da poesia mística e religiosa, bem como com a poesia que explora o cotidiano. O seu legado reside na forma como conseguiu dar voz às experiências e aos anseios de muitas mulheres e homens, encontrando o sublime no ordinário e o sagrado no terreno. Influenciou uma geração de poetas pela sua originalidade e pela sua abordagem única à fé e ao corpo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Adélia Prado é frequentemente analisada sob a ótica da sua fé religiosa, da sua relação com o corpo e da sua perspetiva feminista. As suas poesias desafiam a dicotomia entre o sagrado e o profano, mostrando como ambos coexistem e se interligam na experiência humana. A crítica tem destacado a sua habilidade em transformar o trivial em poesia e em expressar a complexidade da existência com uma linguagem clara e poderosa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Adélia Prado é também conhecida por ser uma observadora atenta do comportamento humano e por encontrar poesia nos gestos mais simples do dia a dia. A sua casa e o seu convívio familiar são frequentemente mencionados como fontes de inspiração para a sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Adélia Prado continua em plena atividade literária, sendo uma figura viva e ativa na cena cultural brasileira. A sua memória é a de uma poeta que soube resgatar a dimensão espiritual da vida e do corpo, oferecendo ao leitor uma perspetiva profundamente humana e reconfortante sobre a existência.

Poemas

439

O Clérigo

Só porque um dia escrevi-lhe
‘eu contorno com o dedo a papoula encarnada’
irou-se, tomou por afoiteza, invasão de privacidade
o meu verso floral.
Sei que as palavras são dúbias,
temos falhas nos dentes, sibilamos.
Quem sabe a imagem do dedo,
o nome redondo da flor,
quem sabe sua cor sanguínea
lhe despertaram as pudendas,
pois — contra seu desejo — sente amor por mim.
Desapontou-se à toa,
nem eram papoulas
as belas flores do lenço.
1 171

O Ditador Na Prisão

O ditador escreve poesia.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal florescem os beijinhos
e as abelhas rodeiam-nos afainosas,
tornando o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e uma boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro.
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério, avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.
2 302

Rua do Comércio

Quase fora da loja a balconista
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
1 276

O Noviço E a Abstinência de Preceito

Tenho dificuldade em comer folhas,
mesmo as que eu próprio lavo
com óculos de aumento e rios d’água.
Minha carne quer outra carne,
vermelha entre dourados
de gordura amarela gotejante.
Não me vale saber das excelências do verde,
meu lábio treme à vista de suculências.
Aos rigores da lei
— paulina ou não —
minha fortaleza é a da mostarda.
Um grão.
1 212

Tenda E Cimitarra

O amor de Mahmoud
me põe mal-acostumada.
Corro o perigo de me deitar na preguiça,
querer comida na boca.
Meu amor por ele é sincero
mas muito judiador:
Tem Nossa Senhora no seu terra, benzinho?
Tem borboletas lá?
Quero comprar coisas no bazar de vocês,
pechinchar por sinais,
trocar simpatias com o turco maravilhoso
me olhando fixo e escuro
de tanta paixão por mim.
Mahmoud cerra os dentes de raiva,
cospe espadas em curva feito lua e
mesmo delicado me morde,
grunhindo na língua dele
uns belos sons que não entendo.
Mahmoud, nosso amor está prestes
a ficar conjugal, agora estou segura
de que nunca vais ver que envelheci.
1 034

O Menino Jesus

Sofri sozinha este insuportável,
quando me trouxeram o menino
que parecia dizer
‘me pega, diz que não sou órfão,
que tenho pai e mãe,
me fala que não sou um usurpador’.
Atracou-se comigo até dormir.
Mesmo rígida,
fui sua cruz mais branda.
1 531

Querido Louco

Quando um homem delira,
de onde fala sua alma a língua
para todas as línguas traduzível
sem prejuízo de sua insensatez?
Ouvi-la obriga a alfabeto novo,
dói tanto que os relógios param.
Tem piedade de mim é o mesmo que
‘me dá um chinelo pra eu surrar o enfermeiro,
Deus é bom, nas famílias em crise
ninguém escuta ninguém’.
Tira do bolso nota de pouca valia,
me dando a senha pra encerrar a visita:
Obrigado por tudo e vai com Deus,
vai comprar pra você uma coisa bonita.
1 347

Esplendores

Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 268

Da Mesma Fonte

De onde vens, graça que me perdoa
desta tristeza,
desta nódoa na roupa,
da seiva má no sangue,
da pele rachada em bolhas.
De onde vens, certeza
de que um pouco mais de açúcar
não fará mal a ninguém.
O orgulho fede como um bom cadáver,
minha cerviz é dura,
mais duro é vosso amor, deus escondido
donde jorram tormentas,
minha nuca dobrada a este repouso
e esta alegria.
1 043

Alcateia

Você reza demais, Luzia.
Que aborrecimento esta sua pressa
em fugir pro jardim com seu rosário.
Quem me dera, mesmo, dia e noite rezar,
estou oca de medo.
É admirável que com palpitações e boca seca
eu suba escada para ver do muro
quem fala tanto palavrão.
Rezar demais é ter rezado nada.
Invejo o bruto,
o que enfia tudo no de todo mundo
e não tem medo de Deus.
Quem me dera os lobos fossem fora de mim,
bastava um pau e os afugentaria.
Mas seus fantasmas é que uivam inalcançáveis.
Só a oração os detém,
a que ainda não sei como fazer.
1 248

Citações

1

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