Arguição da Soberba
O que de pronto se mostra
palpitante e acabado
vazando precioso entre cacófatos
se ri do poeta
ocupado em limpar textículos:
ó truão,
no poema como no quadro
os olhos estão no umbigo.
Invitatório
De onde estou vejo através da chuva
a torre do Bom Jesus,
alguma árvore, casas,
a desolação me toma.
A vida inteira para estar aqui
neste domingo,
nesta cidade sem história,
nesta chuva
mensageira de um medo
que não o de relâmpagos,
pois é mansa.
É inapelável morrer?
Não há um álibi, um fato novo,
um homem novo portador de alvíssaras?
Quatro meninos entram no matagal
e retornam fumando,
batendo o cisco da roupa.
Uma negra sobe a ladeira, um velho,
alguém joga o lixo
por um buraco no muro,
tudo como em mil novecentos e setenta e seis.
Por que se erra?
Queria escrever mil setecentos e noventa e seis,
que mecanismo desviou-me?
Há um cheiro no ar
que — para meu susto — mais ninguém percebe,
um cheiro de metal
que me fere as narinas,
cheiro de ferro.
Nada tem sentido,
quero uma bacia grande
para catar as partes e montá-las
quando as visitas se forem.
Ninguém me logra, pois não há ninguém,
é uma fita antiga de um cinema mudo,
os lábios movem-se e é só.
Senhor, Senhor Jesus, ouvi-me. Existo?
Faz tempo que não sonho, existo?
Responde-me, tem piedade de mim,
me dá a antiga alegria, os medos confortadores,
não este, este não, pois sou fraca demais.
Ouvi-me, pobre de mim,
Nossa Senhora da Conceição, valei-me.
A Rua da Vida Feliz
Ao sol do meio-dia
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas:
‘flor bonita é no pé’.
Vi o quintal vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.
Paixão de Cristo
Apesar do vaso
que é branco,
de sua louça
que é fina,
lá estão no fundo,
majestáticas,
as que no plural
se convocam:
fezes.
Para que me insultem
basta um grama
de felicidade:
‘baixe o tom de sua voz,
não acredite tanto
em seu poder’.
O martírio é incruento
mas a dor é a mesma.
Oficina
Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
O Santo
O padre marxista está cansado.
Deu-se conta
quando viu passar a carroça
entufada de cana verde
e falou sem saber por quê:
mãe, ô mãe, mãezinha,
minha querida mãe.
Nunca mais pregou.
Diz o povo
que pegou fama de santo.
Portunhol
Quero dizer
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
História de Jó
Porque fazes
e calcas aos pés tua pobre criatura,
teu sofrimento é enorme, deus,
a dor de tua consciência ingovernada.
Difícil me acreditares,
pois tenho um céu na boca.
Tem piedade de nós,
dá um sinal de que não foi um erro,
ilusão de medrosos,
fantasia gerada na penúria,
a crença de que és bom.
O medo regride à sua estação primeva,
à sua luz branca.
E quero a vida nos álbuns:
assim eram as avós e suas criadas negras.
Não posso ir aos teatros,
convocada que sou pra esta vigília
de segurar teu braço pusilânime,
eu criatura digo-Te, coragem.
Perdoa-me, contudo, perdoa-me.
Na Terra Como No Céu
Nesta hora da tarde
quando a casa repousa
a obra de minhas mãos
é esta cozinha limpa.
Tão fácil
um dia depois do outro
e logo estaremos juntos
nas “colinas eternas”.
Recupera meu corpo
um modo de bondade,
a que me torna capaz
de produzir um verso.
Compreendes-me, Altíssimo?
Ele não responde,
dorme também a sesta.
Viação São Cristóvão
Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.