O Demônio Tenaz Que Não Existe
A glória de Deus é maior que este avião no céu.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
A Cólera Divina
Quando fui ferida,
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma
— ainda não sei —,
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
— ele, um bicho que não é gente —,
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas,
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
Memória Amorosa
Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!
A Sagrada Face
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinência por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“Um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi: quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso,
paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
A Batalha
Perdi o medo de mim. Adeus.
Vou às paisagens do frio atrás de Jonathan.
Deve ser assim que se vive,
na embriaguez deste voo
no rumo certo da morte.
Amo Jonathan.
Eis aí o monocórdico, diarreico assunto.
‘Ele quer te ver’, alguém disse no sonho.
E desencadearam-se as formas onde Deus se homizia.
Pode-se adorar tufos de grama, areia,
não se descobre donde vêm os oboés.
Jonathan quer me ver.
Pois que veja.
O diabo uiva algemado nas profundezas do inferno,
enquanto eu
tiro o corpo da roupa.
Prodígios
Hoje quase tive um êxtase
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
A Transladação do Corpo
Eu amava o amor
e esperava-o sob árvores,
virgem entre lírios. Não prevariquei.
Hoje percebo em que fogueira equívoca
padeci meus tormentos.
A mesma em que padeceram
as mulheres duras que me precederam.
E não eram demônios o que me punha um halo
e provocava o furor de minha mãe.
Minha mãe morta,
minha pobre mãe,
tal qual mortalha seu vestido de noiva
e nem era preciso ser tão pálida
e nem salvava ser tão comedida.
Foi tudo um erro, cinza
o que se apregoou como um tesouro.
O que tinha na caixa era nada.
A alma, sim, era turva
e ninguém via.
Fieira
Posso me esforçar à vontade
que a letra não sai redonda.
Deus meu vê.
Não escrevo mais cartas,
só palavrões no muro:
Foda-se. Morra.
Estou cansada de dizer eu te amo.
Não tem começo nem fim minha paciência.
Não paro de pensar em Jonathan.
Detesto escrita elegante.
As tragédias são doces.
Aprendi a falar desde pequenininha.
Tudo que digo é vaidade.
É impossível viver sem dizer eu,
palavra a Deus reservada.
Não sei como ser humana.
Saberei, se Jonathan me amar:
‘que unha forte!’,
‘você me lembra alguém’,
‘quase lhe mando um cartão’.
Migalhas, Jonathan,
você também vai morrer,
fala,
descansa meu coração.
Como Um Bicho
O ritmo do meu peito é amedrontado,
Deus me pega, me mata, vai me comer
o deus colérico.
Tan-tan, tan-tan,
um tambor antiquíssimo na selva
cada vez mais perigoso
porque o dia deserta,
tan-tan, tan-tan,
as estrelas são altas e os répteis astuciosos.
Tan-tan, meu pai, tan-tan,
ó minha mãe,
ponta de faca, dentes,
água,
água, não. Um pastor com sua flauta no rochedo,
o que nada pode erodir.
Assim meus pés descansam
e minha alma pode dormir.
Tan-tan, tan-tan,
cada vez mais fraco.
Não é meu coração,
é só um tambor.
A Terceira Via
Jonathan me traiu com uma mulher
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri;
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem descasar-me, sem gastar um tostão,
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar,
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: ‘Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
Eu sou puro pecado.’
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
‘Irei salvar-me porque Deus me ama.’
Não tenho o peito de Ismália
pra chegar perto de Deus.
Por isso fico ganindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende,
vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
por que os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo.
Meu pé te deseja, meu nariz.
Meu espírito — que é o alento de Deus em mim —
[te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, estático
— Francisco e o Serafim, abrasados —,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...